08 de julho de 2026
Articulistas

Paradoxos da liberdade

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

A onda de protestos levantada pela presença da blogueira cubana Yoani Sánches serviu para mostrar um irritante paradoxo: indivíduos que usam a liberdade democrática para defender regimes totalitários anacrônicos, onde não há liberdade. Nem seria necessário ela vir aqui para dizer o que todo mundo sabe. Embora Cuba esteja entre os cinco países, restantes no mundo, com governo marxista-leninista, junto com China, Laos, Vietnã e Coréia do Norte, nada impede que tenha admiradores. O que irrita é ouvi-los defender esse regime em nome da liberdade e igualdade, que lá não existem. Apesar de Cuba apresentar alguns itens positivos, como alfabetização perto de 100% da população e baixíssima mortalidade infantil, a falta de liberdade e o sucateamento do país ninguém pode negar e fazer a sua defesa, usando a liberdade democrática, é o que o escritor búlgaro Tzvetan Todorov chama de ?paradoxos da liberdade?. Para ele, que acaba de lançar no Brasil o livro "Os Inimigos Íntimos da Democracia", ?certo uso da liberdade pode representar um perigo para a democracia?.

Todorov é um filósofo e linguista búlgaro que até os 24 anos de idade viveu na Bulgária comunista, deixando-a em 1963 para ser professor na França e nos Estados Unidos. Hoje está em Paris como professor da École Pratique de Hautes Études e diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica francês. Aproveitando sua vinda ao Brasil para o lançamento do livro, a revista Planeta entrevistou-o. A experiência com o comunismo e o capitalismo tornou-o um crítico de ambos os sistemas. Disse à revista que "a ilusão do mundo perfeito e a promessa da vitória do bem contra o mal alimentam o messianismo que induz as sociedades a dominarem outras". É, portanto, uma pessoa insuspeita para depor sobre o caráter do regime marxista-leninista.

Perguntado pela repórter sobre o tempo que viveu na Bulgária disse: Vivíamos sufocados pelos slogans e palavras de ordem que diziam: "Avante para a vitória do trabalho socialista"; "Viva a amizade búlgaro-soviética". Onde vivíamos não havia nem trabalho socialista, nem amizade, nem igualdade, nem paz. Víamos slogans sobre a igualdade reinante e havia lojas específicas para o consumo de diferentes setores da sociedade. Havia supermercados para os membros do bureau político do partido. Os privilegiados possuíam cartão especial para frequentar esses estabelecimentos e tinham acesso a todos os produtos ocidentais. Num patamar menor, membros do partido que não pertenciam ao alto escalão tinham acesso a outro tipo de lojas, com certo tipo de regalias. E, finalmente, aqueles que não eram membros de nada ? frequentavam lojas e supermercados vazios, que não tinham nada. Se alguém dissesse "Vocês dizem que vivemos num país próspero, mas o pão que comprei na padaria é ruim", seria preso e enviado para o campo de reabilitação e de trabalhos forçados.

Outro depoimento insuspeito encontramos na biografia de Graciliano Ramos, de Denis Carvalho. Em 1952, como membro do PCB, Graciliano fez parte de um grupo de intelectuais convidados para as comemorações do 1º de Maio em Moscou. Além de Moscou visitou Leningrado, Rostov, Tbilisi (Geórgia), Kharkov e Praga (Tchoslováquia). Voltou inconformado, ou puto como ele disse, ao confrontar o que via com o que a imprensa comunista divulgava. Na redação do Correio da Manhã, no Rio, para a equipe curiosa:- "As coisas lá estão formidáveis. Eles vão fazer um país novo." Entusiasmado, o linotipista de costeletas espessas, Queiroga, que era comunista, perguntou:- E o povo? ? Bom, o povo está feliz nesta base: tem de obedecer, tem de fazer o que é certo, porque, senão, porrada nele! Notando a fisionomia perplexa do Queiroga, continuou ? Ô rapaz, aquilo lá é uma ditadura do proletariado. Eles estão construindo um país e não podem ficar sustentando malandros, não. Se não fizer direito, leva porrada mesmo." A cubana não esperava os protestos de baixo nível com que foi recebida por grupos aliciados para perturbar a sua visita, mas deu a resposta correta, dizendo lamentar que seu país não tenha liberdade como aqui.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras.