Há milênios que as mulheres desempenham a maior parte do trabalho de cuidados, sem o qual a humanidade não sobreviveria. No início da década de 90, em inquérito realizado com professoras, verifiquei que o trabalho doméstico e de cuidados era ainda realizado tão só pelas mulheres. Telefonei para a residência delas (em horário em que estavam ministrando aula) com o intuito de conhecer o comportamento de homens e mulheres, meninos e meninas com relação a algo muito simples: dar um recado para a mãe (ou esposa). Quando quem atendia era uma mulher ou uma menina, prometiam que daria o recado, às vezes, solicitava para repetir o recado para que não houvesse equívoco, e anotava meu nome. Se era um homem ou menino, pediam para telefonar depois; então, eu insistia para que desse o recado e anotasse meu nome e telefone; invariavelmente insistiam para que eu voltasse a telefonar e se negavam a anotar o recado alegando não ter lápis disponível. Os poucos que, finalmente se dispunham a dar o recado, suspiravam com enfado. Perguntava para a professora se havia recebido: a resposta foi sempre "que recado?" Houve apenas uma exceção: um filho gentil, agradeceu o telefonema e cumpriu a tarefa. Os meninos estão sendo deseducados a serem egoístas.
Mesmo sendo professoras, são condicionadas a repetir a matriz da própria experiência patriarcal, educando diferentemente meninos e meninas. Assim, os meninos se socializam para o mando e serem servidos, as meninas para serem submissas e servirem. Indagando sobre a divisão do trabalho doméstico e de cuidados, verificou-se que a maioria nem sequer cogitava sobre essa possibilidade. Assim, lecionavam, desempenhavam o árduo trabalho doméstico, cuidavam de filhos pequenos (e também dos grandes), além do marido. Não raro cuidavam ainda de alguma pessoa idosa, enferma ou deficiente. Não havia tempo para ler, se atualizar, estudar, descansar, praticar esporte (nem teriam forças suficiente), ter lazer.
Não havia descanso semanal nem férias anuais do trabalho doméstico e de cuidados. Uma escrava com título régio: rainha do lar. Professoras desquitadas eram raras, mas as poucas, ao contabilizar as horas de trabalho doméstico, verificaram que, desde que estavam sós apenas com os filhos, tinham mais tempo: as exigências diárias do rei do lar eram tantas que, agora sozinhas, perceberam a diminuição de parte considerável do peso do trabalho doméstico.
Sem dúvida os cuidados para com as crianças (sobretudo bebês) e todo trabalho doméstico constituem-se tarefa gigantesca, mas os marmanjos também pesam muito. Uma educação democrática deve levar a uma justa divisão do trabalho doméstico e de cuidados. A conseqüência será mais tempo para o diálogo, para atender melhor às crianças, para lhes dar carinho e educação adequada. O mundo carece de solidariedade. E é no lar que se inicia sua aprendizagem. No Dia Internacional das Mulheres, é de se pensar não em comemoração (porque não se comemora a desigualdade de direitos), mas lutar coletivamente contra o patriarcado, matriz da desigualdade de gênero.
Iolanda Toshie Ide