08 de julho de 2026
Cultura

Redentor do Rock

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 3 min

A mão direita por dentro da jaqueta a imitar o pulsar do próprio coração foi apenas um dos gestos clássicos de Erasmo Carlos no palco do Alameda. Contido sem perder o entusiasmo, o “Tremendão” de 71 anos comandou a festa com naturalidade de anfitrião. Sorte dos convidados.

Ensaiou elogios a Bauru – “terra tão falada”, onde só havia se apresentado nos anos 60 - e apostou no bom humor para cativar o público entre uma música e outra – e cativou.

“Nunca na história desse país vocês viram um artista tão feliz no palco”, declarou em alusão aos 50 anos de carreira. Ou melhor: de estrada. “Antes a gente falava ‘carreira’, mas ficou meio dúbio isso, né? Agora, só ‘estrada’”.

O JC já havia informado anteontem qual seria a sequência de canções. Tudo foi seguido à risca por aquele senhor de cabelos brancos, jaqueta preta e calça jeans nascido no Rio de Janeiro em 5 de junho de 1941. 

E dá-lhe conversa com a plateia. “A gente tem que confiar no ser humano”, recomendou o “papa” do rock nacional enquanto o tecladista parecia dedilhar a introdução de “Strawberry Fields Forever” (Beatles). Tratava-se, na verdade, de “É Preciso Saber Viver” - para cantoria geral.

Dose dupla

Erasmo também perguntou se tinha muito noveleiro por ali. Como poucos levantaram a mão, retrucou com divertida indignação: ”Mentira!”

E explicou: “É que fico torcendo para Théo (Rodrigo Lombardi) e Érica (Flávia Alessandra) aparecerem [em “Salve Jorge”]. É para tocar a minha música”. E canta (quase declama, quase em voz baixa) “Mais um na Multidão” – originalmente gravada com Marisa Monte e que, aliás, já havia sido tema de “Pícara Sonhadora” (SBT) em 2001.

Os anos 80 também tiveram seu lugar de destaque no show com as obrigatórias “Sou uma criança e não entendo nada”, “Mulher”, “Mesmo que seja eu” e “Minha Super Star”.

Também foram aplaudidas outras músicas ainda mais veteranas e nada esquecíveis, como “É Proibido Fumar”, “Minha Fama de Mau” (na qual Erasmo brinca de dançar), “Vem Quente que Estou Fervendo”, “Quero que Vá Tudo pro Inferno” (com arranjo cadenciado que lembrou a banda britânica Oasis) e “Festa de Arromba” (ponto final em tremendo astral).


Sentado à beira de um clássico

O sucesso de 1969 teve sua vez no show da noite de terça-feira. “Roberto não pode deixar de cantar ‘Detalhes’. Los Hermanos não cantam mais ‘Ana Júlia’, mas isso deixa a plateia triste. Não quero ninguém triste”, disse Erasmo antes de executar “Sentado à Beira do Caminho” e, antes dele, “Gatinha Manhosa”.

O ‘porém’ do show foi a falação quase gritada de pequena parte do público, mas que acabou após uma fã intervir e pedir silêncio. O silêncio veio, e ainda bem: na parte intimista, apenas com seu maestro ao teclado, Erasmo faz trechos de canções imortalizadas na voz de Roberto. Nem um pio.


Meu amigo... Roberto Carlos!

E eis que no meio da música “Cover” surge no palco o próprio: Robson Carlos, cover de Roberto há oito anos. 

Ele é de Limeira e iniciou turnê com Erasmo em 23 de setembro de 2009. “A sacada foi do próprio Erasmo”, conta Robson ao JC.

“Alguém da produção soube do meu trabalho e me chamaram para um primeiro encontro no ‘Viva Rio’ [casa de shows carioca]. A gente se viu no camarim e ele até levou um susto com a semelhança”, lembra.“Fui apresentado aos músicos e já participei daquele show”. Lá  e em Bauru, com direito a flores para o público. “É sempre uma recepção calorosa e divertida”.


Imprevisto tira baterista do palco

O baterista Alan Fontenele passou mal na reta final do show e foi imediatamente substituído pelo baixista Rodrigo Guerreiro – que prestava apoio à produção do show fora do palco. “Isso nunca tinha acontecido”, contou Guerreiro ao JC.

Ele acompanha Erasmo há quatro anos, mas jamais na bateria. “Ninguém esperava, mas ocorreu e seguimos adiante sem interromper o show”. 

Fontenele foi atendido e, no início da madrugada de quarta, reencontrou os músicos para seguir viagem de ônibus. O próximo show de Erasmo será em 21 de março, em Foz do Iguaçu.