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João Rosan |
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Nathália Belizário, 27 anos, confessou que Mariah, 2 anos, já conta com dois guarda-roupas lotados |
O bauruense nunca consumiu tanto. Com o aumento da renda das famílias, o fácil acesso ao crédito e o apelo da publicidade, o estímulo para as compras é quase irresistível. Mas o simples ato de escolher um produto e tirar o cartão de crédito ou o dinheiro do bolso esconde dezenas de motivações e transformações ao longo do tempo que, quase sempre, o consumidor não consegue se dar conta.
Hoje, no Dia Mundial do Consumidor, especialistas analisam as modificações históricas das relações de consumo e como as pessoas, com mais dinheiro no bolso, se tornaram mais exigentes e passaram a comprar mais, mas nem sempre para investir em bens necessariamente úteis. E, por mais que tenham adquirido poder, ainda continuam sendo o lado mais fraco quando se veem em conflito com as empresas.
Neste contexto, muitas vezes o direito de cidadania quase se confunde com o direito de consumo. Isso porque, com as estratégias cada vez mais profissionalizadas de marketing, o sentido de ter quase se iguala ao de existir.
Status, aprovação e pertencimento são apenas alguns dos sentimentos proporcionados pelo simples ato de ostentar bens. Também pode funcionar como válvula de escape para reforçar a própria existência e atenuar frustrações pessoais e até profissionais.
“A maior capacidade de consumo é um dado excelente. O problema é que, muitas vezes, o dinheiro é investido em coisas desnecessárias. E isso se transforma em um círculo vicioso”, comenta a doutora em psicologia clínica Sandra Leal Calais, professora de graduação e pós-graduação do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Prazer efêmero
Por ser efêmero, este tipo de prazer precisa ser saciado incessantemente. Nestes casos, que não são tão incomuns, sapatos, roupas ou eletroeletrônicos dão a falsa – e fugaz – sensação de conforto e sucesso. “Esta é uma tendência que está presente em todas as classes da nossa sociedade, que não foi estimulada desde cedo a investir em cultura e conhecimento”, pontua Sandra.
A empresária Nathália Belizário, 27 anos, revela que perdeu as contas de quantas vezes comprou por impulso ou para “animar” um dia infeliz. Desde que teve Mariah, 2 anos, seus desejos de consumo foram transferidos para a filha, que já conta com dois guarda-roupas lotados.
“Compro tudo o que ela quer. Hoje (ontem), por exemplo, comprei um edredom para a cama nova que dei a ela”, comenta. Ainda que não seja uma compradora compulsiva e consiga administrar bem as finanças da casa, Nathália diz que não se priva de adquirir o que tem vontade, por mais desnecessário que seja.
“Sou viciada em celular, por exemplo. Quando sai um modelo novo, vou lá e compro. Pago à vista e não devo para ninguém. Então, estou em paz”, frisa.
Monopólios imunes
De acordo com o economista Wagner Ismanhoto, setores monopolizados por poucas empresas – como os de telefonia, planos de saúde e bancos – melhoram seus serviços em um ritmo mais lento que os demais exatamente pela inexistência de grande concorrência. “E justamente por estarem em uma posição mais ou menos cômoda, é que eles estão sempre na lista de campeões de reclamações do Procon. Foram serviços que se expandiram devido à demanda, mas que, de certa forma, ainda continuam imunes à pressão do consumidor”, comenta.
Mas, para Ismanhoto, a tendência é de que, com o tempo, esses monopólios também sejam obrigados a se adequar, assim como ocorreu com a história recente do setor automobilístico. “Com a entrada dos importados, a indústria nacional teve de melhorar muito seus produtos. Era uma preocupação que não existia entre as montadoras décadas atrás”, pondera
Hierarquia de necessidades
Em meados do século passado, o psicólogo norte-americano Abraham Maslow elaborou uma pirâmide para elencar a hierarquia de necessidades do ser humano. Nesta divisão, as necessidades de nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto.
Segundo a teoria, cada indivíduo deve “escalar” uma hierarquia de necessidades para atingir sua realização pessoal. Na base da pirâmide estão ações fisiológicas, como respirar, comer e dormir. No topo, questões de ordem psicológica e emocional (leia mais no quadro acima).
Mas, para os consumistas, é certo que muitas destas necessidades abstratas – como autoestima, confiança e afirmação social – foram alçadas a itens básicos, “conquistados” por meio de objetos a serem ostentados.
E o ‘tempo’ levou...
Foi-se o tempo em que a palavra empenhada dispensava a assinatura em um pedaço de papel. No século passado, por questão de honra, os envolvidos no negócio seguiam à risca o que haviam combinado. Nas lojas de secos e molhados, o saco de arroz era anotado em uma caderneta, que o cliente levava para casa e pagava apenas no fim do mês.
“E ainda ganhava, de presente, uma lata de marmelada ou goiabada”, lembra o historiador Luciano Dias Pires. Ele comenta que, naquela época, existia uma forte relação de confiança entre consumidor e comerciante, que, em muitos casos, se tornavam amigos. “Até os funcionários, que ficavam 30 anos no mesmo emprego, a gente conhecia. Isso não acontece mais”, completa.
As estratégias de marketing, muito menos agressivas e profissionalizadas, também tentavam estabelecer uma relação de proximidade com os consumidores. Nas filiais de grandes redes, Luciano conta que chegou a ver uma mulher chamando a atenção das donas de casa com uma bacia cheia de água e sabão, para demonstrar que os tecidos da loja não desbotavam nem encolhiam facilmente.
“Hoje, são poucos os remanescentes daqueles anos, das décadas de 1920 e 1930, como a Casa Carvalho, a Sampaio e a Tropical. Infelizmente, foram poucos os que sobreviveram”, lamenta.