09 de julho de 2026
Geral

17 mil pessoas podem ter doença nos rins sem saber

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Uma doença silenciosa, que só se manifesta em estágios mais avançados, acomete, atualmente, cerca de 17 mil bauruenses. O número, alarmante por si só, se torna ainda mais preocupante visto que a esmagadora maioria dos moradores desconhece o problema.

Atualmente, pouco mais de 370 pessoas realizam hemodiálise e diálise peritoneal na cidade para suprir a insuficiência renal. Um número não estimado também se submete a tratamento ambulatorial para controlar a doença, ainda em fase menos aguda.

Este montante, no entanto, está longe dos milhares que já têm a doença, mas não sabem. Por conta da necessidade de prevenção e diagnóstico precoce, a Comissão Nacional em Defesa dos Pacientes Renais do Brasil entregou, na última quinta-feira, um abaixo-assinado à presidente Dilma Rousseff para cobrar políticas mais eficazes para os pacientes renais crônicos.

Também foram a Brasília membros da Associação Bauruense de Apoio e Assistência do Renal Crônico (Abrec), que presta, gratuitamente, orientação e alguns serviços de assistência aos pacientes da cidade. “Em Bauru, embora as duas unidades que realizam hemodiálise estejam sempre cheias, os serviços vem melhorando ano a ano”, pondera Maria Celeste Rodelli, membro da diretoria da Abrec.

O Hospital de Base (HB) tem capacidade para 1,3 mil atendimentos de hemodiálise por mês, sendo que trata, atualmente, 177 pacientes crônicos. Cada um deles realiza, em média, três sessões por semana, com duração de quatro horas.

Outras 74 pessoas que receberam transplante de rim também são acompanhadas por equipes do hospital e 33 aguardam na fila pelo órgão. Já o Hospital Estadual (HE) conta com 27 máquinas de hemodiálise e atende 196 pacientes crônicos.

“A estrutura disponível tem sido suficiente para atender a demanda. Ninguém fica sem tratamento, ao contrário do que acontece em outras partes do País”, observa Celeste. Para ela, os problemas enfrentados pelos doentes renais crônicos - cujos rins deixaram de funcionar e precisam de auxílio mecânico - vão além da falta de vagas para tratamento.

 

Mudança brusca

Muitos pacientes precisam se afastar do serviço e, além de enfrentar trâmites para conseguir se aposentar por invalidez ou obter auxílio-doença, tem de superar o prejuízo financeiro - quando não tem carteira assinada - e psicológico resultante de mudança tão brusca de vida. “A transformação é muito grande e onera, também, a família, que muitas vezes abandona o parente doente”, comenta a diretora.

Por ser uma doença silenciosa, que só apresenta sintomas quando os rins já estão bastante comprometidos, é que a Abrec alerta para a necessidade de políticas de prevenção, que ainda são incipientes não apenas no Brasil como um todo, mas também em Bauru. Segundo a médica nefrologista Tricya Nunes Vieira Silva, do HE, a insuficiência renal só se manifesta quando o rim já está funcionando com 50% da capacidade ou menos.

“Entre os possíveis sintomas, estão inchaço nas pernas, descontrole da pressão arterial, anemia, fraqueza, vômitos, falta de apetite e urina espumosa. Sem tratamento, a pessoa pode entrar em coma e morrer”, alerta.

De acordo com ela, tem maior propensão à doença idosos, pessoas com diabetes e hipertensão arterial, além daqueles que fazem uso abusivo de anti-inflamatórios e que possuem histórico de insuficiência renal na família.

 

Serviço

A Associação Bauruense de Apoio e Assistência do Renal Crônico (Abrec) fica na rua Santa Terezinha, 12-45. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3232-3027.


Diálise x hemodiálise

Há uma diferença entre diálise e hemodiálise, dois tratamentos aplicados na fase avançada da doença renal crônica. De acordo com informações da Associação Bauruense de Apoio e Assistência do Renal Crônico, a hemodiálise é um procedimento artificial que filtra o sangue, como faria o rim normalmente. São retiradas do sangue substâncias que o organismo acumulou em virtude de o órgão não estar funcionando e que, em excesso, trazem prejuízos ao organismo, como a ureia, potássio, sódio e água. 

Na diálise peritoneal também são retiradas as impurezas do organismo. Neste procedimento, no entanto, utiliza-se a membrana peritoneal para a filtragem. O peritônio é membrana que reveste a parede interna do abdômen e das vísceras.

 

‘Meu maior sonho é ganhar um rim’

Portadora de diabetes há 30 anos e com hipertensão arterial, Vera Eunice Cruz, 56 anos, perdeu a função dos dois rins e vive, três vezes por semana, a rotina das sessões de hemodiálise. Em tratamento no Hospital Estadual, ela espera por um transplante há cerca de um ano.

“Sei que tem um número alto de pacientes na fila, mas estou esperando aparecer um órgão compatível. É o meu maior sonho. Vai ser o dia mais feliz da minha vida”, frisa. Outro desejo, já conquistado, foi voltar a enxergar após uma cirurgia que lhe devolveu a visão de apenas um dos olhos.

Vera ficou por dois anos identificando apenas vultos, em consequência de lesões provocadas pelo diabetes. “Agora, voltei a cozinhar, a ajudar meu marido em casa. Antes, ele tinha que fazer tudo sozinho”, lamenta.

A descoberta da falência renal veio há cerca de oito anos, quando suas pernas começaram a inchar excessivamente. “Fiz o exame de urina e descobri o problema, que foi piorando ao longo dos anos, mesmo fazendo tratamento para controlar o diabetes e a hipertensão. Há três anos, comecei a hemodiálise. É sofrido, mas a gente acaba acostumando”, conta.

 

Incidência da doença está aumentando

Segundo a médica nefrologista Tricya Nunes Vieira Silva, a incidência de doenças renais só cresceu nos últimos anos. Isso porque as principais doenças geradoras do problema - diabetes e hipertensão - também ganharam espaço, principalmente por conta da mudança de hábitos alimentares, do sedentarismo e da obesidade.

Gradativamente, estas doenças de base provocam lesões nos vasos sanguíneos de todo o organismo, incluindo os dos rins. Prejudicado, o órgão deixa de desempenhar sua função, que é a de filtrar o sangue para excretar as substâncias que devem ser desprezadas e reter aquelas que fazem parte do sistema metabólico.

“Quando sua capacidade chega a 15%, na maioria dos casos já é necessária a hemodiálise”, frisa a especialista. O procedimento é feito através de uma máquina que filtra artificialmente o sangue. Nela, o sangue do paciente circula em pequenas quantidades, mas de maneira veloz, por tubos contendo membranas semipermeáveis que retém substâncias tóxicas, além de excesso de água e sal.

Este tratamento é indicado para a doença em estágios considerados crônicos, quando também pode ser recomendado o transplante. “Com a cirurgia, o paciente pode deixar de fazer hemodiálise. Só não é indicada para alguns pacientes, como idosos, portadores de câncer ativo ou com problemas cardíacos”, frisa Tricya.

Já na fase inicial, o tratamento é essencialmente clínico, feito por meio de restrição alimentar - com redução da ingestão de proteínas, sal e açúcar - e tratamento com uso de medicamentos para controlar a hipertensão, diabetes e obesidade.