08 de julho de 2026
Articulistas

Francisco é o seu nome

Frei Lourenço Maria Papin
| Tempo de leitura: 4 min

Nestes últimos dias, na Praça de São Pedro, no Vaticano, câmeras televisivas e máquinas fotográficas de longo alcance focavam uma pequena chaminé no teto da Capela Sistina onde se encontravam os 115 cardeais que elegeriam o novo papa. Ao anoitecer do dia 13.03.2013, dessa chaminé surgiu uma minúscula nuvem de fumaça branca anunciando extra oficialmente ao mundo a escolha do novo papa. Um engraçado contraste: a humilde comunicação da fumaça branca interagindo com a sofisticada tecnologia midiática!

Habemus papam (temos papa) foi o anúncio oficial confirmando a notícia da fumaça branca. E o novo sumo pontífice apareceu na sacada da residência papal, diante da multidão exultante na Praça de São Pedro. Pela primeira vez na milenar história da Igreja é eleito um papa das Américas, um papa religioso jesuíta. Um papa argentino, de família humilde, filho de um ferroviário, até poucos dias cardeal arcebispo de Buenos Aires onde nasceu. Seu nome de Batismo: Jorge Mario Bergoglio. Agora, Francisco é o seu nome. Primeiro papa com esse nome. Discreta e timidamente, com sorriso paterno, ele estende os braços para a multidão como que abraçando a Igreja toda. E quebra o gelo da timidez dizendo, com bom humor, que "os cardeais foram buscar um papa quase no fim do mundo"! Lembra-se do bispo emérito de Roma, Bento XVI, e com todo o povo ora por ele. Saúda a diocese de Roma "que preside a todas as Igrejas na caridade" e da qual tornou-se bispo como sucessor do apóstolo São Pedro. Em seguida convida todos a orarem "pelo mundo inteiro, para que haja uma grande fraternidade". O novo papa vai surpreender a todos quando, antes de dar sua primeira solene bênção "Urbi et Orbi" (para Roma e para o mundo), pede ao povo de Deus que o abençoe, num momento de silenciosa oração. Há gestos que falam mais forte do que as palavras. Uma pergunta curiosa aflorou sobretudo na mídia: por qual razão o papa optou pelo nome de Francisco?

Creio que os jornalistas e muitos de nós estão bem interpretando o simbolismo desse nome que, de imediato, nos remete a São Francisco de Assis, o grande gênio de santidade do século XIII. Francisco de Assis foi inovador, vivendo radicalmente o ensinamento evangélico da pobreza e da simplicidade, em contraposição a todo tipo de consumismo, de luxo e de apego desordenado à riqueza. Foi o santo do amor fraterno sem fronteiras, o cantor da natureza e do meio ambiente que deve ser respeitado. Na perspectiva do "poverello" de Assis, o nome Francisco torna-se certamente questionador do mundo moderno. O papa Francisco, jesuíta, como cardeal vivia na sua arquidiocese uma espiritualidade de conotação franciscana. Forte era sua preocupação com os pobres das "villas" (favelas) de Buenos Aires. Frequentemente se deslocava nessa cidade, servindo-se do metrô e do ônibus. Frugal era sua vida na residência episcopal. Muitas vezes se tornava cozinheiro, preparando sua refeição. Imitando São Francisco que um dia abraçou e beijou um leproso, numa cerimônia de Quinta-Feira Santa lavou os pés de doze portadores do vírus do HIV. O papa certamente imprimirá um estilo de vida mais simples na cerimoniosa Cúria romana

Tenho comigo que na mente do novo papa esteja presente também a figura do grande missionário jesuíta espanhol do século XVI, São Francisco Xavier, patrono universal das Missões. Francisco Xavier vem lembrar que a Igreja é missionária por sua própria natureza. Convenhamos que não faltarão os mais diversos comentários sobre o passado e o futuro de Francisco. O que importa é vivermos o momento eclesial presente que é de alegria e de esperança teologal em novos tempos para a Igreja. Esperança alicerçada no Cristo. "Esperança que não decepciona", como afirma o apóstolo São Paulo. O Cristo colocou na massa da história da humanidade o bom fermento que tem a força de levedar e transformar as realidades humanas. É preciso acreditar, esperar e atuar fazendo o bem, somente o bem. Deus nos livre de sermos derrotistas e pessimistas, de sermos obstáculo à ação desse fermento. Nas mãos de cada um de nós pesa, pois, a responsabilidade de dias melhores para a Igreja do Senhor e nossa. Que o Senhor do tempo e da história proteja, inspire e ilumine o Papa Francisco e a todos nós abençoe.

Frei Lourenço Maria Papin, OP