Tem muita gente que sente saudade da inflação nas alturas. Um período em que se privilegiava o ganho fácil, a especulação financeira, em detrimento ao investimento no setor produtivo. Inúmeros profissionais e empresários tinham uma missão no dia: conseguir aplicar o mais rapidamente os recursos no chamado overnight, garantindo correção do dinheiro em 1% ao dia. Isso mesmo, ganhos que chegavam a 1% ao dia.
Estoques eram sinônimos de investimentos. Virava o mês e com ele todo estoque era valorizado. Os sistemas de controles internos eram desenvolvidos com inúmeras moedas. Para o controle contábil e atender ao fisco usava-se a moeda oficial; para saber o valor real dos estoques utilizavam-se outras moedas como o dólar, Ufir, entre outras. O pensamento no controle dos custos das mercadorias era fundamentado no valor de reposição. Assim o valor de venda fixado levava em conta não o custo de aquisição atual, mas sim qual seria o valor futuro a ser reposto. Esta maneira de pensar e agir na questão dos preços realimentava a inflação. Foi o auge da conhecida indexação da economia. A inflação era inercial, em que, o que ocorreu no passado era reproduzido para o futuro e com isso a inflação só se realimentava até atingir mais de 70% em um único mês no início dos anos de 1990.
Debates eram realizados em torno desta prática. Com a queda da inflação este tipo de discussão ficou em plano secundário e o tema voltou ao cenário econômico neste momento de inflação em alta. Recentemente o governo Federal anunciou a redução tributária em produtos da cesta básica que foi ampliada. Quedas em média na casa dos 10% ao mês. A expectativa é que, senão a totalidade, ao menos parte desta queda pudesse chegar rapidamente ao preço final, pago pelo consumidor.
Neste momento ressurgiram as questões aqui colocadas. Primeiramente admitisse-se que o sistema tributário brasileiro é traiçoeiro e complexo. Uma redução de tributo se não for acompanhado de mudança na legislação, na forma de escrituração, é inócua. É que temos um sistema que opera pelo valor agregado. Ao reduzir tributos e não impactar em toda cadeira produtiva, ou seja, do produtor ao consumidor final, interferindo nos regimes tributários existentes, tais créditos se perdem no caminho, não atingindo seu objetivo final.
Além deste aspecto a questão de utilizar o preço de reposição como parâmetro para considerar o custo de aquisição veio à baila. Empresários questionados sobre o motivo em não repassar parte da vantagem tributária ao consumidor final vieram com esta justificativa do século passado: "com inflação em alta, receio reduzir o preço de venda e não ter fôlego para comprar novos produtos que poderão vir com reajustes" colocam.
Como assim? Todo produto comprado tem um ciclo de custo, venda e lucro. Ao adquirir um produto pelo custo de R$ 10,00, por exemplo, este valor base terá deduções do crédito de imposto, incorporação dos demais custos produtivos, impostos na venda, margem de lucro e até mesmo custo financeiro caso a venda seja efetuada a prazo, chegando assim ao preço final, ao consumidor. Vamos imaginar que o valor de venda atinja R$ 20,00. Ao vender este produto o empresário saltou de um custo de R$ 10,00 para um valor de venda de R$ 20,00 e após vender e receber encerrou este ciclo realizando seu lucro. Se, ao repor este produto e o mesmo estiver custando R$ 15,00, novo ciclo terá inicio e o preço final será outro, não mais os R$ 20,00, podendo ser, no exemplo, R$ 30,00 e após vender e receber, novo ciclo terá se encerrado com nova realização de lucro. Se o argumento fosse na direção da maior necessidade de capital de giro e eventual dificuldade em vender os produtos talvez até fossem aceitáveis tais argumentos, mas comprar um produto e querer ganhar com o preço futuro, é voltar a um período de especulações que em nada contribuiu para que a economia nacional pudesse trilhar o caminho da estabilidade. Chamamos este raciocínio de um dos pecados capitais na formação do preço de venda. Fica a observação: quem constrói seus custos de maneira correta, respeitando os ciclos de compra, venda e lucro, terá maior mercado, pois será mais competitivo, deixando para trás os saudosistas que usavam da inflação como uma forma fácil de ganhar dinheiro.
Se esta prática é um dos pecados capitais, o consumidor precisa rezar e agir, ou seja, rezar para que estes especuladores abram seus olhos e agir no sentido de evitar comprar, sempre que possível, produtos, cujos preços estejam fora do aceitável.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC