08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A prática religiosa e o respeito ao ser humano


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Comento a carta da senhora Iris, publicada em 7 de março. Lamentavelmente, dona Iris, o que se vê é uma prática religiosa que há muito perdeu a afeição pelos seres humanos. Faz parte da lista de deveres do sujeito espalhar as leis do Deus dele por todos os cantos e, ao que parece, em alto volume, de repente pra aliciar algum desavisado, convencendo-o que as suas verdades são superiores às verdades dos outros ou então no susto mesmo, pintando a imagem de um mundo de maldições e de um deus malvado e rancoroso. Em Bauru ainda se vê padre que toca sino (seis horas da manhã bicho!) como na idade média e reza ave-maria por alto-falantes! Olha, prática espiritual é realmente algo muito pessoal; sem problemas cada um escolher a que quiser, sem problemas ser orgulhoso dela, sem problemas usar camisetas e colar adesivos em automóveis, sem problemas seus encontros e rezas, excentricidades e até espontâneas mensalidades. Inaceitável é forçar quem está fora desse universo a submeter-se às suas regras, desrespeitando a laicidade do estado, fazendo proselitismo religioso em escola pública, enleando religião com política, escrevendo leis baseadas nas verdades e normativas que são apenas religiosas, afinal, não há verdade absoluta: já chegaram a pensar que a Bíblia é verdade apenas para os cristãos, assim como outros livros de outras religiões devem ser verdades apenas para os seus sectários?

Aproveito para comentar um episódio recente, o qual tomei como uma grande violência.

Quinta-feira, 7 de março de 2013, o pastor evangélico Marco Feliciano, dada determinada jogadela de partidos políticos, foi eleito como presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias; o mesmo pastor que se envolveu em algumas polêmicas bastante sérias, valendo-se de sua interpretação da Bíblia para dizer que os negros são amaldiçoados, metendo-se a explicar por meio deste devaneio as agruras do continente africano - palavras do próprio pastor: "A maldição de Noé sobre Canaã (o neto) toca seus descendentes diretos, os africanos" e "africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato". Além disso, indo na direção contrária do exemplar programa de combate à aids do governo brasileiro, que só foi possível ignorando as verdades da igreja católica, que proíbe o incentivo ao preservativo, o mesmo pastor diz que a aids é uma doença homossexual, entre outros absurdos. Estou escandalizado com este sujeito presidindo a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias. Se quiser também se aborrecer sugiro que pesquise pelo nome do pastor Marco Feliciano, principalmente em provedores de vídeos online. Infelizmente o que vemos é um retorno histórico da prática religiosa como mecanismo de manipulação para concentração de poder, desonestamente alimentada pela falta de senso crítico e pelo desamparo de pessoas com menos acesso a informações, ignorando o que já acumulamos de conhecimento e reproduzindo os preconceitos e as besteiras anticientíficas já usadas no passado.

Não sou muito dado às estatísticas, mas segundo o IGP 2012 (Índice Global da Paz), 9 entre os 10 países mais pacíficos do mundo aparecem na lista dos 50 países menos religiosos, e os lugares mais violentos do mundo são lugares onde a prática religiosa é destacada, países onde escrevem leis baseadas em religião e lugares onde a prática religiosa é tão importante a ponto de gerar conflitos e guerras de ordem religiosa.

Também existe uma pesquisa das organizações Gallup feita em mais de 100 países (apenas em inglês - http://www.gallup.com/poll/142727/religiosity-highest-world-poorest-nations.aspx), que indica que quanto mais pobre é um país maior a dedicação de seu povo a uma crença religiosa. Aproveitei para incluir entre parênteses, na frente do nomes dos países, suas posições no índice de educação da ONU.

10 países mais religiosos: Bangladesh (163), Nigéria (143), Iêmen (153), Indonésia (102), Malawi (136), Sri Lanka (107), Somália (?), Djibouti (156), Mauritânia (158), Burundi (155).

10 países menos religiosos: Estônia (?), Suécia (17), Dinamarca (1), Japão (34), Honk Kong (86), Reino Unido (30), Vietnã (113), França (13), Rússia (42), Bielorússia (27). A relação é direta entre aumento da prática religiosa e piores índices em educação. Tínhamos avançado no sentido da tolerância e do respeito, mas o que vemos são religiosos propagando o discurso do ódio, da segregação e da violência ideológica.

Então, meu camarada, reze como quiser e para quem quiser, mas reze baixo; escolha o livro de prática religiosa mais aderente às suas convicções e aplique-o inteiro para sua vida, mas para a sua vida, não nas nossas leis. Se continuarmos não respeitando as verdades individuais veremos novamente convicções religiosas como protagonistas dos maiores horrores da história da humanidade. Quem quer uma guerra religiosa no Brasil? Eu não quero.

Luiz Miguel Axcar - miguel@axcar.com.br