10 de julho de 2026
Política

Ato em Bauru pede ?Fora Feliciano?

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr.

Fernando, 20, e Felipe, 23, mobilizaram cerca de 400 pessoas através no Facebook, mas esperam adesões

Após ocorrer em diversas cidades do País, a mobilização contra o deputado federal Marco Feliciano (PSC) à frente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal chega a Bauru. Uma passeata vai sair às 14h30 de hoje, do Parque Vitória Régia, pedindo que ele deixe a presidência do grupo, por conta de declarações e posicionamentos classificados como racistas, homofóbicos e sexistas.

O ato foi organizado por dois estudantes de engenharia da Unesp-Bauru: Fernando Ribeiro, 20 anos, e Felipe Pisaneschi, 23 anos. O segundo já participou de três manifestações em Ribeirão Preto, sua cidade de origem. “Elas tiveram repercussão muito boa. Agora resolvemos que está na hora de Bauru mostrar a sua voz”.

A mobilização acontece, majoritariamente, pelo Facebook e, até a tarde de ontem, aproximadamente 400 pessoas já haviam confirmado participação. A ideia é que os contrários à permanência de Feliciano na comissão levem cartazes, apitos, buzinas e panelas.

O movimento conta com o apoio do Observatório de Educação em Direitos Humanos (OEDH), do Levante Popular da Juventude, da Associação Bauru pela Diversidade (ABD) e dos centros acadêmicos das faculdades da Unesp-Bauru.

A passeata vai até o local informado pelo site oficial do PSC como a sede do diretório municipal da sigla. O endereço é o mesmo da residência do presidente da legenda em Bauru, o pastor Celso Nascimento.

O vereador Markinho da Diversidade (PMDB), apoiador do movimento, afirma que o comando da sigla deve ser pressionado, pois a presidência da Câmara Federal deixou nas mãos do partido a decisão sobre a permanência do polêmico deputado no cargo. A posição da sigla deve ser tomada até terça-feira. “A população precisa deixar claro que vai boicotar os candidatos do PSC nas próximas eleições caso isso não mude”.

Principais pontos

O estudante Felipe Pisaneschi argumenta que o perfil racista, homofóbico, machista e sexista de Marco Feliciano não condiz com o cargo que ele ocupa. “Como ele vai discutir os direitos das minorias tão condenadas por ele?”, questiona.

O organizador do ato aponta ainda que as posturas do deputado ferem e violam o princípio constitucional da laicidade. “Somos agredidos quando decisões tão importantes são tomadas com base em dogmas religiosos. Em um País laico como o nosso, já seria inaceitável admitir a existência de uma bancada evangélica”.

Simbólico

Coordenador do OEDH, o professor Clodoaldo Meneguello Cardoso acredita que a manifestação transcende ao desejo de que Marco Feliciano saia da presidência da Comissão de Direitos Humanos. “Será um ato simbólico, assim como todas as vezes em que a sociedade marcar posição contra qualquer tipo de preconceito”.

Segundo ele, este tem sido um momento importante na luta pelos direitos humanos. “Já avançamos, mas a violência contra a mulher persiste e mulheres continuam sendo maltratadas”, observa.


Para presidente do PSC, motivação é apenas política

Presidente do PSC de Bauru, o também pastor evangélico Celso Nascimento acredita que as mobilizações contra Marco Feliciano giram em torno de “questões políticas” e não dos direitos humanos. Ele afirma que militantes LGBT estão aproveitando o momento para se fortalecerem nas discussões de projetos que criam privilégios para este segmento.

“Se existe o direito deles, existe o direito dos outros. O que não pode é responsabilizar o PSC pelas declarações de um indivíduo. Não há orientação partidária para discriminar. Somos sociais cristãos e defendemos os direitos humanos, independentemente de cor, crença ou preferências. Nós pregamos o apreço e não o desprezo”, pontua.

Segundo Nascimento, quando se discute direitos humanos, devem ser consideradas as questões relativas às mulheres, crianças e negros. “Não pode focar apenas em uma coisa”, alega, ignorando que a Feliciano também são atribuídas declarações racistas e sexistas.

O presidente do PSC local pondera que o deputado não teve oportunidade de se defender. “Ele teria que ser consultado para explicar se suas declarações tiveram intenções discriminatórias, pois pode ter sido mal interpretado”.

Na opinião de Celso, caso a discriminação seja admitida, Marco Feliciano deve, de fato, deixar a presidência da Comissão de Direitos Humanos. “Só quero deixar claro que temos como premissa respeitar os direitos humanos”, finaliza.

Não é o pastor

Na contramão do que entende Nascimento sobre o movimento contra Marco Feliciano, Felipe Pisaneschi, organizador do ato em Bauru, deixa claro que seu caráter não é exclusivamente LGBT. “Tentam nos acusar disso. Mas somos todos: religiosos, ateus, brancos, negros, héteros e gays”.

Ele frisa também que a mobilização não é antirreligiosa. “O problema não é o que ele faz como pastor. O problema são as posturas dele como cidadão e políticos, que não são coerentes à presidência da Comissão de Direitos Humanos”, encerra.


Entenda o caso

A polêmica em torno de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara Federal começou antes mesmo de sua posse, no dia 7 de março. Deputados ligados a movimentos sociais, como Jean Wyllys (PSOL-RJ), Luiza Erundina (PSB-SP) e Domingos Dutra (PT-MA) abandonaram a sessão que elegeu o pastor.

Pela primeira vez na história, uma frente parlamentar foi criada para atuar paralelamente à CDH. O grupo oficial ainda não conseguiu dar início aos trabalhos, pois as reuniões têm sido canceladas por conta dos protestos contra Feliciano.

A polêmica mais recente foi a divulgação de um vídeo encomendado pela assessoria de Marco, que atribui a parlamentares militantes dos direitos humanos a iniciativa sobre o que seria uma ‘campanha anticristã’.

O PSC conquistou o direito de presidir a comissão após PT abrir mão da tarefa, em troca da Comissão de Constituição e Justiça.

 

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