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João Rosan |
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O cartunista Carlos Latuff esteve em Bauru em palestra no colégio D´Incao nesta semana |
Nascido em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, o cartunista Carlos Latuff virou militante da causa palestina desde que esteve em territórios ocupados na Cisjordânia, em 1999, quando passou a publicar com regularidade desenhos, em diversos países, atacando a política adotada pelo Estado de Israel contra os palestinos.
Logo de início, Latuff ironiza a classificação que a organização internacional com sede em Los Angeles (EUA), o Centro Simon Wiesenthal, lhe deu, como o terceiro entre os 10 mais antissemistas no mundo. “Eu fiquei atrás somente da irmandade muçulmana e do presidente Mahmoud Ahmadinejad e estive nesta lista sem o menor sentido na frente até de partidos neonazistas”, diz com o sorriso largo no rosto.
Profissional ligado à imprensa sindical de esquerda carioca, ele classifica sua “classificação” antissemita como “estratégia do lobby que opera no mundo em favor da associção do ódio racional e religioso na direção de Israel. Ação neocolonialista é questão política e não questao religiosa”, defende.
Da entrevista e de sua palestra a estudantes e convidados, no Colégio D´Incao, nesta semana, leia as abordagens que fizeram os desenhos de Latuff ganharem fronteiras, pelo bem e pelo mal, no sentido da discussão das temáticas políticas que ele retrata em seus recortes da realidade no papel:
Jornal da Cidade - O que você desenhava na infância em São Cristóvão?
Carlos Latuff - Eu brincava na rua e desenhava muito mais do que estudava na escola. Mas não tenho nenhuma formação política. A leitura, porém, sempre esteve presente. Eu desenhava na infância muito os seriados do Ultramen, do Spectromen. Era muito influenciado por esse conjunto ce imagens de heróis, como todo menino da época que assistia muito televisão. Eu assistia muito TV até os anos 80. A partir da vida adulta não mais. A TV era para entretar as massas e eu era entretido como muitos (risos).
JC - E para que serve a TV hoje?
Latuff - A TV serve para fazer o cidadão não pensar. O maior indicativo da TV a serviço do conteúdo pobre é a quase ausência de programas infantis. E a concessão pública, esse formato na TV, está a serviço da desconstrução de ideias quando a TV usa seu precioso tempo para tratar de algum conhecimento. O poder público é culpado direto nisso, porque não interessa a ele romper essa lógica e sim reproduzi-la. Entreter é muito melhor do que fazer o sujeito pensar. O Brasil, enquanto nação poderia se libertar dessa lógica em vários setores e, com isso, levar junto toda a América Latina, até pela força de nosso País. Mas mudar não é o que quer a lógica colonialista. Precisamos romper com a lógica oligárquica. Somos comos os EUA. Muda o síndico de tempos em tempos, mas o condomínio continua como está.
JC - Por que você diz que a questão palestina é neocolonista e não religiosa?
Latuff - Depois que eu vi como os palestinos vivem sob o regime de apartheid é que decidi apoiar a causa. A pecha é de que todos os que decidem apoiar são antissemitas. O neocolonialismo é uma questão política. O que acontece no território palestino não é questão religiosa. Isso é pano de fundo e apropriado como estratégia para eliminar o debate. O que tem é a eliminação do debate associando crítica ao Estado de Israel como ódio, o que é falso. Quem é vítima nesse processo é o palestino. Israel tem exército, armas, mísseis. O palestino tem no máximo uma milícia. Os curdos são perseguidos na Turquia.
JC - Então pra você quem faz crítica ao governo de Israel é tachado de antissemita?
Latuff - Exatamente. Basta você iniciar crítica ao governo de Israel que lá vem a estratégia e você é tachado de antissemita. Israel sempre respondeu com mão pesada às manifestações. Eu faço crítica ao terrorismo de Estado e não só lá, mas em todo lugar, no Brasil também. O ódio aos judeus existe, mas se manipula isso em favor de Israel. E quem mais fatura com essa situação é o stablichment de direita de Israel. Os cionistas de esquerda, pacifistas, discutem a formação de dois estados. Mas o problema é que ninguém chega até o governo de Israel, ele é inatingível, monta uma barreira a esssa discussão porque não interessa a eles. Eu nao tenho nada a ver com antissemita, mas ao ver isso tudo por lá eu passei a provocar essa discussão através de minhas charges sim.
JC - O cartunista é um provocador pela própria natureza.
Latuff - Mas eu posso tão somente agredir com meus desenhos, fazer bullyng gráfico colocando apenas uma garegalhada no meu desenho. Mas posso ter a veia da provocação de um tema em que o diretor do jornal não permitiria que isso fosse diretamente discutido pelo repórter em uma matéria. É assim em todo veículo. Quem paga a banda escolhe a música. No Interior isso muda pela questão geográfica, mas a essência é a mesma. O que acontece no Interior é que você encontra o prefeito na lanchonete, na festa e ele e seus assessores vão chegar em você e dizer que não gostaram. Alguns apelam e chegam até a te xingar. Agora tem o problema da proximidade, em que o jornalista tem de lidar com alguma reação ignorante do outro lado.
JC - Por que em sua visão o debate de temas latentes na imprensa é contaminado?
Latuff - É uma questão de apontar para o tema sem discutir a essência, ficar na superficialidade. Você tem programas, apenas para exemplificar, como o do Datena odne ele todo dia fica repetindo que o problema é que é preciso reduzir a maioridade penal, ter leis mais duras e mais polícia na rua. Tá, mais polícia precisa mesmo, mas nossas leis não são brandas não. O problema é que quando começamos a discutir isso não colocamos na mesa a corrupção de origem no estado brasileiro em todas as suas vertentes. Só entra arma russa no morro por causa da corrupção. Em Roraima eu estive em acampamentos e por lá grupos de grandes latifundiários matam pessoasque discutem a questão da terra como se fossem animais. E odne está este debate nesses programas de TV? Isso quase não existe. Se não é feita a discussão pela origem, e de cima em baixo, ficamos sempre no superficial. Discute-se o policial corrupto com a mesma história de tirar a batata podre do saco, mas fica nisso e a discussão do sistema que perpetua a oportunidade de corrupção fica de fora. Violência policial é tema tabu no Brasil e eu tive de ir três vezes em delegacia de polícia para explicar por que estava retratando isso em meus desenhos.
JC - Me diz, os traficantes deram sumiço dos morros no Rio de Janeiro com as UPPS?
Latuff - (Risos). É rapaz, veja sumiram todos. Onde eles se esconderam? Os traficantes form embora depois que os mocinhos da polícia subiram em procissão e montaram um posto por lá. Sim, foram embora para debaixo do tapete. Olha, vamos chamar a imprensa internacional e mostrar a eles nossa maior vitrine para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016: o único caso da história mundial em segurança pública onde a polícia subiu o morro, montou um posto pacificador e fez sumir os traficantes! (risos) Isso é uma piada, mas a TV mostra. O tráfico de drogas não vai acabar com UPP. Essa história já foi feita lá atrás. Outro debate em que os donos da imprensa fazem pela superficialidade. Não adianta. Enquanto houver a droga for proibida o tráfico vai existir. Mas eu vou ser escomungado porque no Brasil os debates são rasos e sempre moralistas. Tráfico é produto direto da corrupção.
As charges de Latuff
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“Neste desenho eu retrato o exemplo de como o estado do Rio de Janeiro vão li dar com os quilombolas e os favelados por conta da Copa e das Olimpíadas. O Sérgio Cabral e o Eduardo Paes querem, em nome do mercado imobiliário, os terrenos onde estão esses caras a qualquer custo, porque há um negócio bilionário de investimento nisso”
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“Aqui o papa aparece em uma caricatura que se não me falha a memória foi retratada em um dos filmes de O poderoso chefão, onde em uma parte o pontífice é colocado como que prestando contas com don Corleono, porque a máfia, no filme, faria lavagem de dinheiro através do Banco do Vaticano. Mas o que eu retrato aqui é que o papa tem papel cada vez mais político, ao invés de líder espiritual, e esse papel é reacionário e não libertário”
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“Eu retrato em muitas charges o tema da chantagem ao palestino na discussão antissemita. A carta nesse desenho é uma alegoria àquelas cartas de pedido de resgate, onde o sequestrador utilizava letras recortadas para não ter sua escrita reconhecida” |