Aspecto de quem não é saudável foi uma imagem associada aos vegetarianos por muito tempo. Nas últimas décadas tabus difundidos no Ocidente caem em relação à adoção de uma alimentação sem proteína animal encontrada nas carnes e derivados. O que resta é a precaução de uma dieta balanceada e o acompanhamento de um profissional de nutrição, recomendação que serve a qualquer pessoa e não somente aos adeptos do vegetarianismo.
Aos 35 anos, o prefeito de Bauru Rodrigo Agostinho comeu carne pela última vez aos 14 anos. “O que existia era um tabu de que quem era vegetariano tinha cara verde. E vivia com anemia. Dá para se alimentar superbem e eu não como nenhum tipo de carne”.
Então de onde vem a vitalidade conhecida do prefeito de Bauru? Ele receita como suas fontes de proteína animal, basicamente, retiradas do consumo de leite, queijo e ovo. Rodrigo ficou mais de 10 anos sem consultar um médico. Para disputar no ano passado a Maratona de São Paulo, o prefeito passou por um checkup. Ele garante que vegetarianos não têm necessidade de acompanhamento médico. Rodrigo ressalta que não se utiliza de orientações de um profissional de nutrição, contudo recomenda aos iniciantes no vegetarianismo o acompanhamento de um nutricionista.
Rodrigo se encaixa no perfil dos ovolactovegetarianos, por consumir ovos e leite. O prefeito garante que com uma alimentação superbalanceada é completamente dispensável carnes de peixe, porco, bovino e aves. Além da qualidade alimentar, Rodrigo comenta que obteve outro benefício prazeroso ao preparar seus alimentos. O prefeito do maior município da região central do Estado também é “cozinheiro”. “Gosto de cozinhar para os meus amigos”, salienta.
Ele assume que a exigência da sua vida política acarreta deficiência de proteínas em seu organismo, ainda que em raras ocasiões. Quando ocorre o descompasso é associado à uma alimentação desequilibrada. Rodrigo cultiva o hábito de correr pela manhã diariamente e a agenda política o obriga a refeições fora de casa. “Hoje as pessoas vivem de maneira tranquila sem precisar ingerir carne. Eu não sinto falta nenhuma”, garante.
Proteína é vida
A nutricionista e farmacêutica Eliana Arena não vê problemas na alimentação vegetariana desde que exista um equilíbrio nutricional. A questão, conforme a nutricionista, é que a proteína animal – de alto valor biológico – atua nas reações bioquímicas e enzimáticas do organismo. As reações não ocorrem de maneira ideal na ausência dos aminoácidos essenciais.
A nutricionista acompanha vários vegetarianos em seu consultório. Arena ressalta que alguns vegetarianos consomem proteína vegetal e têm deficiência de alguns aminoácidos. A nutricionista comenta que os vegetarianos conscientes mantêm uma alimentação equilibrada. Porém algumas pessoas não comem carne e nem proteína vegetal. “O comprometimento nutricional é muito grande”, alerta a nutricionista.
Nesses casos, os vegetarianos trocam a proteína pela massa. Para ela, tal alternativa é demasiadamente arriscada porque o metabolismo precisa de aminoácidos para que ocorram a reações enzimáticas. O organismo necessita de vitaminas e sais minerais para produzir as enzimas. O resultado é anemia, queda de cabelo, unha fraca e imunidade baixa.
Arena justifica a necessidade de acompanhamento nutricional para o vegetariano com avaliação física (bioimpedância) para se adequar a quantia e a qualidade do alimento a ser consumido para evitar desnutrição.
Recém-nascido
Arena comentou as implicações ao recém-nascido pela falta de proteína animal em um caso em que a mãe do bebê era vegetariana e não manipulava carnes em hipótese alguma. O caso exposto à nutricionista é extremo e envolto, muitas vezes, no abismo da desinformação. A sogra da mulher passou a preparar porções garantindo a alimentação do neto.
A nutricionista destaca que proteínas são fundamentais para o desenvolvimento do bebê. Arena cita que, a partir do sexto mês em média, o recém-nascido espicha graças a um ganho de massa muscular proveniente da ingestão de papinhas ricas em proteína animal.
“Infelizmente para os vegetarianos, a melhor fonte de ferro existente é a carne vermelha”, destaca. A nutricionista ressalta que o ferro presente na carne vermelha está pronto para absorção sem a necessidade de outros nutrientes. “Sendo que a proteína presente na couve, brócolis e outros é preciso da vitamina C para que seja transformada na forma adequada”, explica.
Comer carne socialmente
A bauruense Regina Maria Reche, 49 anos, convive com vegetarianos, simpatizantes e naturalistas há muito tempo. Antes de abrir um restaurante vegetariano em Bauru, ela já era vegana. Cultivou os hábitos alimentares vegetarianos por 10 anos. Nos últimos 10 anos, passou a ser naturalista. Ela explica que come carne socialmente, assim como quem bebe socialmente.
Reche explica que adotou o modo de vida vegano por questões espirituais . A comerciante comenta que adotou o vegetarianismo para integrar uma escola espiritual, primeira etapa para ser aceita no grupo. Posteriormente, se desligou da escola espiritual. Reche comenta que em seus estudos e pesquisas, principalmente em livros, concluiu que poderia manter carne em sua alimentação. “Lendo livros sobre a prática alimentar eu cheguei à conclusão de que, eventualmente, eu comer carne vermelha não necessariamente me faria esse mal medonho que o pessoal prega”, ressalta.
A comerciante explica que o naturalista mantém o cardápio vegetariano consumindo farinha integral, frutas, legumes, arroz integral e folhas. Duas vezes por semana, ela acrescenta peixe. “A carne vermelha fica por conta do social”, arremata.
O vegano integra à sua prática alimentar não apenas a qualidade de vida como também a ética de respeito aos animais. Reche explica que os conceitos éticos sempre a acompanharam em relação à produção da carne. No entanto, ela define que a carne adquirida em um supermercado vem embalada em uma mensagem desassociada da morte do animal. “Eu nunca vi matar um bicho. Talvez se eu ver, eu realmente nunca mais coma nem mesmo socialmente”, define.
Seu restaurante em Bauru disponibiliza cardápio vegetariano e naturalista. Ela frisa que o importante é a maneira de preparar o alimento. Neste aspecto, Reche ressalta os cuidados no manejo que preserve as propriedades nutricionais – vitalidade – de cada diferente alimento. Para Reche, o preparo possibilita à pessoa não comer carne. “Se tirar a vitalidade do alimento, ela vai comer um alimento sem muita energia vital. Não estou falando em caloria. Falo em energia vital que é outra coisa. A pessoa acha que fica fraca e acha que, porque não comeu carne, que é isso que está fazendo mal”, pontua.
A experiência vegetariana e naturalista vivenciada por Reche certamente influencia sua condição de saúde. Há cerca de dois anos, uma médica se surpreendeu com a resposta do organismo dela a uma cirurgia. A naturalista conta que passa semanas sem comer carne, inclusive peixe. “A cicatrização interna foi até melhor do que muita gente que come carne. Mas eu sei o que tem que fazer para repor porque não como carne”, acrescenta.
Pensamento versus crueldade
Como o ser humano é educado na convivência, alguns hábitos ganham status de normalidade por convenção. O vegano Alexandre de Oliveira Alexandre argumenta que seu modo de vida passa pelo contato e renovação constante com informações. “E não da minha opinião”, frisa.
De acordo com um relatório emitido pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), de todas as atividades humanas, a pecuária é a maior responsável por problemas ambientais, principalmente a contaminação de mananciais.
As controvérsias da produção de carne e seus derivados são alvo de reflexões constantes dos veganos. Alexandre cita que as fêmeas de mamíferos produzem leite diante de uma necessidade excepcional de amamentar o filhote. Ele questiona a necessidade do consumo de leite e seus derivados, fora do cardápio do vegano. “É normal até você desmamar, como todo mamífero, não é mais normal você tomar leite”, salienta.
Alexandre esclarece que para produzir leite sem parar, a vaca leiteira fica constantemente prenha. O bezerro é apartado e, segundo Alexandre, é um animal subnutrido, situação que entende como extremamente cruel. Além disso, a vaca consumirá hormônios para o aumento da produção do leite destinado ao consumo humano. “Vamos ignorar tudo isso”, raciocina Alexandre. Ele volta seu olhar para outra situação em que o bezerro, fruto de mais uma cria, irá virar produto nas gôndolas de supermercados e açougues. “Dá um pouco de água com farinha para ele e mantém ele vivo criado no escuro. Mata ele depois de uns três meses. É baby bife, a carne de vitela”, relata o vegano. Ele acrescenta que a carne é vendida como muito boa por sua maciez obtida de um animal que não teve a musculatura exercitada. “É de um bezerro. Você vai comer carne de baby bife. Coisas que a gente não para para pensar”, adverte.
Ele recusa o ovo de granja pela maneira como é conduzida a criação da galinha. O vegano comenta que a ave fica confinada, comendo e botando ovos. Alexandre cita que a galinha cisca porque busca no solo nutrientes. De acordo com Alexandre, na granja, a ave em confinamento possui baixa imunidade com tendência a ficar doente. “Como você segura essa galinha. Tucha antibióticos nela. O antibiótico e metabólicos vão para o ovo e para a carne dela. E você está comento tudo isso”, avalia.
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