09 de julho de 2026
Articulistas

O "perdão" está na moda e na mídia: será?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Todos ficaram com os pensamentos embaralhados e as línguas paralisadas quando foram indagados: o que é perdão? Muitas pessoas, inclusive eu, já disseram como o ex-presidente Lula: a mágoa só faz mal ao hospedeiro! É verdade, mas tirar a mágoa pode ser apenas uma das etapas desta difícil atitude chamada perdão. O perdão está na mídia! Virou moda o repórter perguntar às vitimas dos crimes: você o perdoa? O Judiciário alivia as penas de quem confessa e pede perdão publicamente. O cidadão embriagado que arrancou o braço do ciclista em São Paulo e o jogou no rio, inviabilizando o reimplante, foi perdoado, e parece que sinceramente, pela vítima. O "cidadão" que cometeu os vários crimes monstruosos de estuprar e matar, identificado e preso esta semana em Bauru foi "vítima" da pergunta do repórter: você pede desculpas ou perdão? Ele responde: eu já fiz, então para que pedir perdão? Se ele pedisse, ninguém acreditaria mesmo, nem o repórter que fez a pergunta!

Perdão tem validade se for sincero interiormente, consigo mesmo, se não vier acompanhado de qualquer retaliação e especialmente se for primariamente para o bem do outro, ou seja do agressor, e não esperando o alívio para si mesmo. O perdão me parece verdadeiro quando é para o próximo e apenas secundariamente para si mesmo. Perdoar é não se vingar, não retaliar, não tripudiar ainda quando isto for totalmente possível. Perdoar não significa necessariamente abraçar o agressor, conviver com ele e partilhar a vida cotidiana com aquele que lhe fez mal, e nem mesmo, perdoar significa abrir mão de seus direitos civis e indenizatórios.

Perdoar passa por sublimar e não se mortificar pelo sentimento da mágoa, tristeza e solidão. Perdoar sinaliza ao agressor que na vida ele não ganhou um inimigo, apenas indica que ele encontrou alguém com um grau muito maior de compreensão do mundo e suas leis naturais. Se o agressor perceber isto se sentirá perdoado e dirá: fui mal! Aí se arrependeu mesmo. Caso ele não tenha esta sensibilidade para tanto, o tempo o conduzirá necessariamente para este caminho: apenas o tempo e nada mais! E pode demorar anos. O marido da vítima grávida, estuprada e assassinada que deixou duas crianças pequenas órfãs respondeu ao repórter: sim, eu o perdoo pelo que fez! Por sua vez, o profundamente sincero e experiente taxista, do alto de seus 72 anos de vida, esfaqueado no peito pelo mesmo frio agressor, respondeu: este cara tem que ser morto! Não o perdoou.

Perdoar não é indenização do tipo: "perdoo porque senão vai fazer mal para mim; fica prejudicando a gente mesmo." Isto não é perdão no sentido maior do cristianismo e ou do humanismo, pois está perdoando para obter-se benefícios próprios. Perdoar de verdade não é fácil, é muito difícil por que é para o próximo e não para si mesmo. Estes pensamentos refletem minha singela opinião, apenas isto, mas eu sei que alguns reagirão e por isto já peço seus perdões verdadeiros antecipadamente! Se colocar no lugar destas vítimas e de seus parentes mais próximos que ainda assim perdoam seus agressores pode representar um exercício de humildade e reflexão sobre nosso autoconhecimento. Aliás, feliz Páscoa!

Alberto Consolaro, articulista e colunista do JC Ciências - Professor Titular da USP em Bauru