09 de julho de 2026
Regional

Câmara reage a fechamento de hospital


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O encerramento dos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) do hospital psiquiátrico Thereza Perlatti, em Jaú, causou comoção em lideranças políticas e médicas de Bauru. Na unidade, 350 leitos atendem pacientes de 68 municípios da região, inclusive Bauru, mas os repasses do governo federal não são suficientes, como mostrou a edição de ontem do Jornal da Cidade. Os vereadores da Comissão de Saúde da Câmara Municipal – todos médicos - devem dar início, amanhã, a uma agenda de mobilizações.


Presidente do grupo, o médico Paulo Eduardo de Souza (PSB) promoveu, no ano passado, audiência pública que discutiu a assistência à saúde mental. Ele afirma que a estrutura hospitalar tem grande importância, pois não existe ainda uma rede de serviços alternativos que suporte a demanda.


Paulo acrescenta que há também muitas barreiras culturais a serem vencidas até que sejam dispensáveis os hospitais. “As pessoas, nem mesmo os familiares, sabem como lidar com os doentes”.


Segundo o parlamentar, a partir desta segunda-feira, a comissão vai tomar providências cabíveis para provocar todos os entes da esfera pública, inclusive Estado e União. No entanto, acredita que o Ministério Público (MP) pode desempenhar papel importante na luta contra o fechamento da unidade.



Unânime


Na mesma linha, Telma Gobbi (PMDB), que também integra a Comissão de Saúde, lembra que o órgão foi essencial para a garantia da manutenção dos serviços do Hospital de Base (HB). “Temos que mobilizar também a classe política, todos os municípios e as famílias que dependem dos atendimentos”.


A médica concorda que os hospitais devem se adequar às novas políticas de saúde psiquiátrica. No entanto, frisa que essas unidades dependem de maior apoio do poder público. “As instituições precisam de prazos e de maiores investimentos. O canal não é fechar, mas elaborar um cronograma para garantir mudanças”, pontua.


Segundo Telma, já existe uma demanda muito grande por esse tipo de atendimento. “Fechar as portas do Perlatti seria um caos. Temos que nos colocar no lugar dos familiares desses pacientes”.


Raul Gonçalves de Paula (PV) diz que a União não faz sua parte em financiar os serviços do SUS, recaindo sobre os Estados e municípios grande parcela das responsabilidades. Ainda segundo o vereador, o conceito das internações psiquiátricas evoluiu.


“Não é como acontecia no antigo manicômio de Bauru. O Thereza Perlatti recebe pacientes com os quais o sistema ambulatorial não consegue mais lidar. Eu tenho certeza de que a internação é a última opção das famílias, quando todas as chances já foram esgotadas”, ressalta.

 

O relato de quem ‘sentiu na pele’

“O hospital Thereza Perlatti não resolve o problema de ninguém, mas ajuda muito a tirar a vida das pessoas do perigo”. O relato é do comerciante Donzílio Quaggio, que acompanhou a doença psiquiátrica de duas familiares.


“Eram problemas muito graves, bem próximos da esquizofrenia. Uma delas tem sequelas físicas até hoje por ter fraturado a coluna quando fez a besteira de se jogar da janela. A doença leva tudo o que a gente tem: perdi meu emprego em uma multinacional e até o prazer de viver”, conta ele.


Donzílio afirma que teóricos e especialistas que defendem o fechamento de hospitais como o Thereza Perlatti não se dão conta de que, sem eles, as casas onde vivem os pacientes e seus familiares é que se tornam verdadeiros manicômios. “É muito fácil conhecer a saúde mental de dentro de uma sala de aula”. O comerciante concorda que deveria haver uma rede de atendimento completa, inclusive com serviços 24 horas, mas a realidade está longe disso. “Quando a crise batia em um final de semana, eu tinha que amarrá-las em casa para esperar segunda-feira. Além disso, frequentemente, não havia vagas no Caps de Bauru. Se leva para o Pronto-Socorro, eles dão injeção de sossega leão”, lembra.


Apesar de as familiares de Quaggio não encontrarem a estabilização definitiva do Thereza Perlatti, o local socorreu ambas em momentos agudos de crise. “Se fechar, não sei o que será da saúde psiquiátrica na região”.


Segundo ele, ambas conseguiram a estabilização, há três anos, em tratamento no Hospital das Clínicas em São Paulo. “A limpeza, o número de profissionais, a qualidade do tratamento são indiscutíveis. Mas o pessoal da luta manicomial prefere enxergar apenas os casos negativos, como o de Sorocaba”, pontua.


Donzílio conta que ambas foram submetidos a procedimentos de eletrochoques. “O pessoal tem uma visão equivocada, de que é feito como antigamente. É tudo muito seguro, com o paciente sedado. E foi a única forma de conseguir a cura. Hoje mesmo, uma delas está fechando negócio para comprar sua casa própria”.

 

Entenda o caso

O hospital Thereza Perlatti anunciou que vai encerrar os atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no próximo 30 de abril. Isso porque os repasses para a entidade que administra a unidade não são suficientes: a diária de internação custa R$ 90,00, mas são aportados, apenas, R$ 42,37. Este valor não é corrigido desde 2009 e culminou no déficit de R$ 1,5 milhão para a associação hospitalar no ano passado.


O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, diz que o valor só será acrescido caso o hospital abandone o perfil atual, postura defendida também por militantes do Movimento Antimanicomial. A diretoria do hospital, por sua vez, garante que funciona seguindo as diretrizes preconizadas pela Reforma Psiquiátrica, de 2002.