08 de julho de 2026
Articulistas

Viva e deixe viver

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A revolução gay é conservadora. Tudo o que eles querem é um par de alianças e o direito de andar de mãos dadas nos ambientes públicos sem serem molestados. Nem importa que o presidente do Senado Renan Calheiros apareça na televisão, à custa do dinheiro do povo, para anunciar a "libertação" das domésticas. Como se ele, Calheiros fosse uma nova princesa Isabel que assinou a Lei Áurea das Domésticas. O politicamente correto se caracteriza por ser um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social. Muito amplo como fenômeno social, o politicamente correto é autoritário na sua essência. Quem não adere pode ser não só discriminado, como até execrado, como acontece com o pastor-deputado Marco Feliciano. Daqui a pouco nos veremos obrigados a dar um selinho no vizinho, toda vez que nos encontrarmos de manhã para pôr o lixo na calçada, para não parecer homofóbico.

É produto de uma vida democrática, aquela que deu aos idiotas a consciência do seu poder numérico, na observação mais aguda de Nelson Rodrigues. A qualquer um é permitido dizer asneiras porque a liberdade de expressão faz parte do regime político que escolhemos... Aliás, o único que restou. A mídia é o espelho dessa maioria que prefere discutir orientação sexual de determinada pessoa do que saber quem pisou no tomate da inflação. Daniela Mercury postou no Instagram uma foto da esposa e foi o suficiente para que importantes veículos de comunicação abrissem espaço para o tema. Ainda é preciso esclarecer que cada ser humano é livre e tem sua receita de felicidade. O sábio judeu Emmanuel Levinas aconselhava, já no século passado, que não devemos querer saber o que as pessoas são ou para que elas servem, mas sim que são pessoas. Esse tipo de relação é o modo de "Deus operar", porque Deus é o "rosto do outro". A rainha do axé tornou público seu relacionamento com uma jornalista e criticou o pastor Marco Feliciano. Parado aí: cada um na sua. Ninguém é obrigado a aceitar a homossexualidade ou algo que violente a moral arraigada desde criança. A sociedade vive de rótulos e padrões, mas cada qual é dono do seu destino. "Viver e deixar viver" ? é a fórmula simples para a harmonia social. A intolerância deve ser condenada de qualquer ângulo que se queira observar. O deputado Marco Feliciano foi conduzido à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Foi mais uma aberração das muitas que ocorrem no Congresso. Paciência. Temos que separar a parte boa dos sapos da democracia. Querer tirá-lo de lá a pé de cabra é um contrassenso. A Comissão de Direitos Humanos é inodora. O PT abriu mão. A mídia deu importância indevida a um parlamentar que está sendo processado por estelionato, pelo Supremo Tribunal Federal. Feliciano recebeu para uma palestra e não compareceu. Muito menos devolveu o dinheiro dos patrocinadores. Abusou do direito democrático de proferir asneiras quando disse que Satanás vinha dominando a Comissão de Direitos Humanos. Na sua defesa invocou a Bíblia para falar da "maldição" que pesava sobre os negros. O surrado argumento de teólogos para justificar a escravidão dos negros. A "maldição de Cam". Esta se refere ao episódio desse jovem que viu a nudez do seu pai adormecido. Noé tomou um pileque com o vinho da primeira colheita das uvas que plantara. Dormiu pelado. Ao despertar da embriaguês, Noé amaldiçoou o filho caçula que o vira sem roupa. "Que ele seja para os seus irmãos, o último dos escravos". A Bíblia para por aí. O mesmo não se deu com os seus comentadores. Ao texto sagrado acrescentaram-se vários contos, entre os quais o de Cuch, filho de Cam. Este último teria desobedecido a Noé, que proibira seus descendentes de ter relações sexuais na Arca. Mas Cam concebeu um filho durante o dilúvio: Cuch. Deus o amaldiçoou e o fez nascer negro. A partir daí, a maldição de Cam , associando o negror da pele ao negror da alma, manteve-se como o argumento fundamental dos escravagistas. Os negros traziam de modo indelével a marca do pecado que os fizera nascer. Perceba que até em nome de Deus e se criam asneiras.

Nestes tempos modernos o que se está tentando fazer é pasteurizar a classificação dos que são contrários ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. O politicamente correto é estar a favor, desde que os envolvidos sejam os filhos dos outros. Caso contrário você é homofóbico. A polêmica na órbita do deputado Marco Feliciano é ótima para desviar a atenção da Opinião Pública, enquanto os congressistas aumentam seus salários mediante subterfúgios. O escritor irlandês Oscar Wilde já dizia que um ser visto na sua verdade plena é obsceno. Precisamos, mesmo, é parar de espiar o outro e nos concentrarmos no interesse coletivo.

O autor, Zarcillo Barbosa,é jornalista e articulista do JC