08 de julho de 2026
Articulistas

Moderação e ansiedade

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A crítica de que há leniência com a inflação no atual governo apoia-se em boa parte no desconhecimento de suas causas mais complexas e revela, de outro lado, uma grande ansiedade de setores do mercado financeiro que enxergam ótimas oportunidades com o aumento da taxa de juro real, aproveitando o "bom momento" dos choques de oferta agrícola, antes que os preços cedam, como está começando a acontecer... O Banco Central não desconhece que o namoro inflacionário com a banda superior da "meta" (6,2% nos dois anos do governo Dilma, após os 5.1% do segundo mandato de Lula) é um convite à sua persistência. Isso deteriora as expectativas e reintroduz a incerteza na fixação dos salários. A solerte insinuação de que o governo não arriscaria a atual popularidade no combate à inflação, faz pouco da sua inteligência. Quando as condições objetivas mudam, a política muda. Da mesma forma como foi correto reduzir a taxa de juro real absurda à qual sobrevivemos durante as últimas décadas por equívocos da política monetária, será correto, se o Copom achar necessário, elevá-la com a moderação que praticam quase todos os países civilizados.

O que existe entre a autoridade monetária e os seus críticos, principalmente os economistas mais ligados ao sistema financeiro, é uma percepção diferente da realidade nacional e das incertezas que a cercam. Essa percepção não envolve uma diferença do conhecimento entre variação da taxa de inflação e a variação do nível de desemprego. A autoridade monetária estaria tecnicamente inferiorizada diante dos bem "apetrechados" profissionais que assessoram as finanças privadas.

Com relação à qualidade do conhecimento, experiência e sutilezas de funcionamento desse mercado fugidio que é o financeiro, nem os mais sofisticados economistas daquele setor, ou da academia, podem competir com as informações armazenadas nas cabeças dos profissionais que habitam o Departamento de Estudos e Pesquisa de nosso Banco Central. Quem tiver alguma dúvida, deve comparar a "ciência" das assessorias financeiras privadas e da academia, com a ciência do DEPEC, revelada em recente estudo dos competentes economistas Waldyr Areosa e Christiano Coelho, que explora as diferenças das respostas das variáveis macroeconômicas das manobras nas reservas bancárias e na taxa de juros, concluindo que uma redução da relação de reserva tem o mesmo efeito qualitativo de uma redução da taxa de juros do Banco Central, ainda que seu efeito quantitativo seja menor, como era mesmo de esperar.

Acreditamos que a visão do Banco Central tem tanta consistência quanto a do "mercado", o que recomenda sua cautela na manipulação da taxa de juros real. Até agora a visão do Banco Central tem se revelado a mais ajustada à nossa realidade e mais antenada com a situação da econômica mundial. Se o que o Copom previu para o futuro próximo não se realizar e a realidade mostrar a necessidade de uma manobra que sancione o aumento da taxa de juro real, o Dr.Tombini a fará com a mesma tranquilidade e autonomia com que tem recomendado "cautela", em todos esses meses.

O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC