Há 20 anos na luta pelos direitos femininos, Haydée das Dores de Souza é uma das fundadoras do Conselho Municipal da Condição Feminina de Bauru e a única fundadora na atual gestão. “No dia 26 deste mês, o Conselho completa duas décadas de vida e me orgulho por fazer parte do movimento nacional de mulheres. Eu me envolvi tanto que 20 anos se passaram e eu não consigo me desligar”, conta.
Haydée também participa ativamente do movimento de mulheres do PMDB, partido pelo qual já foi candidata a vereadora. “Mas não quero mais me candidatar porque não tenho mais pique para isso. Você ouve muito desaforo. Inclusive, acho que a política é a arte de se ganhar inimigos gratuitamente”, diz, com sinceridade e bom humor.
Nascida na cidade de São Paulo, a militante chegou a Bauru no início da década de 1980 por causa do trabalho do marido. Aqui, fez amigos e construiu uma história de luta em defesa da mulher. “Em 2007, quando eu estava presidente do Conselho, tivemos a segunda conferência municipal, estadual e nacional de políticas públicas para mulheres e eu tive muita sorte por ter participado das três”, enumera.
Com o grupo, a entrevistada de hoje oferece palestras para os mais diversos públicos, como adolescentes em colégios, associações de moradores, comunidades carentes, universidades etc. São orientações sobre os direitos femininos, além de estimular as denúncias de violência doméstica e divulgar a Lei Maria da Penha. “Mostramos às mulheres que elas não têm somente deveres, mas também têm diretos. Muitas apanham e ficam caladas, e o índice desse tipo de violência ainda é altíssimo”, preocupa-se.
Jornal da Cidade - Neste mês, o Conselho Municipal da Condição Feminina completa duas décadas. Como começou a sua história na luta pelos direitos femininos?
Haydée das Dores de Souza - No dia 26 de abril comemoramos 20 anos de fundação. Sou uma das conselheiras fundadoras e a única daquele grupo na atual gestão. Entrei no Conselho por incentivo do meu marido que, na época, era assessor de gabinete do prefeito Tidei de Lima e ficou sabendo da formação do grupo. Eu fui e fiquei tão envolvida que 20 anos se passaram e eu não consigo me desligar.
JC - O que motivou o grupo a formar o Conselho?
Haydée - A gente observava que o índice de violência contra a mulher era muito alto e, na época, não havia nenhum órgão que defendesse a causa. Foi pensando nisso que um grupo de senhoras se juntou, com o apoio de alguns vereadores, e levou a proposta para o plenário. A proposta foi aprovada, a lei sancionada e o Conselho criado. Uma vez criado o Conselho, fizemos um fórum de debate para saber quais eram as reivindicações das bauruenses. Convidamos mulheres de todos os segmentos e classes sociais da cidade e o resultado foi unânime: todos os grupos que discutiram os problemas femininos chegaram à conclusão de que o maior problema era e ainda é a violência doméstica. Por isso, até hoje essa é a nossa maior luta.
JC - Como a senhora avalia essa questão atualmente?
Haydée - É um problema que não diminui e que precisa de mais políticas públicas. Mas já avançamos bastante. Em 2007, quando eu estava presidente do Conselho, tivemos a segunda conferência municipal, estadual e nacional de políticas públicas para mulheres e eu tive muita sorte por ter participado das três. Eu fui para Brasília representar o órgão de Bauru que, por sinal, é um dos mais ativos e respeitados do estado de São Paulo. Todas as atividades que foram iniciadas na Secretaria Especial de Mulheres, em Brasília, teve uma participação bastante ativa do conselho de Bauru.
JC - Quais são os frutos dessas participações?
Haydée - São vários. Por exemplo, fizemos uma campanha no Calçadão e mandamos muitas assinaturas de mulheres bauruenses para a criação da lei de aposentadoria para empregadas domésticas. O aumento da licença-maternidade é outra vitória que ajudamos a conquistar. Com essas idas a Brasília, eu pude ver o quanto a mulherada do Brasil corre atrás dos seus direitos e é muito bom saber que nós participamos desse movimento. Posso dizer com segurança que a aprovação do financiamento de casas próprias para as famílias com renda mensal de até três salários mínimos, o Minha Casa Minha Vida, é mérito do movimento feminino. A luta é lenta, mas gera frutos.
JC - Em que consiste o trabalho do Conselho?
Haydée - Efetuamos palestras em colégios, associações de bairros, comunidades carentes, universidades... São palestras de orientação que mostram às mulheres que elas não têm somente deveres, mas também têm diretos. Muitas apanham e ficam caladas, e o índice desse tipo de violência ainda é altíssimo. Estimulamos as denúncias, falamos sobre a Lei Maria da Penha.
JC - Por que a senhora deixou a capital do Estado?
Haydée - Eu vim para Bauru em 1981 por causa do trabalho do meu marido. Ele era gerente regional e procurador da Fiat Automóveis e eles criaram um escritório na cidade. Viemos já com os filhos e eu não conhecia ninguém aqui. Ele viajava o Brasil todo e eu ficava sozinha com as crianças. Foi um período muito difícil, eu chorava todos os dias. Mas, no final das contas, acabei me envolvendo com a cidade, que era muito tranquila. As crianças brincavam nas ruas, nas avenidas como a Getúlio Vargas, por exemplo. A gente precisa de força, coragem e personalidade para encarar os desafios da vida. E, de repente, eu descobri uma força que não sabia que tinha.
JC - Como era a vida em São Paulo?
Haydée - Era boa. Lá ficou toda a minha família e eu trabalhava como secretária bilíngue. Hoje, eu trabalho como esteticista na minha própria casa porque não dá para ficar parada (risos). Quando meu marido se aposentou, eu entrei em um curso de estética e é uma delícia atender as clientes e as amigas. Faço o meu próprio horário, faço as minhas coisas...
JC - E quanto à pintura?
Haydée - Eu tenho uma cliente que pinta muito bem. Um dia, fazendo uma limpeza de pele e conversando com ela, eu confidenciei a ela que uma de minhas frustrações era o fato de eu não pintar, embora tivesse muita vontade disso. Ela me propôs um trato, ensinar-me a pintar em troca de um tratamento de pele. Eu tive dez aulas e desenvolvi o restante sozinha. Esse é o meu hobby. Eu gosto de presentear os amigos e os familiares com o meu trabalho.
JC - Política.
Haydée - É a arte de se ganhar inimigos gratuitamente. Eu fui candidata a vereadora em 2000 pelo PMDB. Eu e meu marido nos filiamos ao partido e, na época da formação do Conselho, um grupo de mulheres fazia parte do partido. Dessa forma, eu fui conduzida ao movimento de mulheres do PMDB, do qual ainda participo ativamente. Mas não quero mais me candidatar porque não tenho mais pique para isso. Você ouve muito desaforo e eu sou muito pé no chão. Sou como uma águia, ou seja, só alço voo quando tenho certeza que vou acertar o alvo (risos).
JC - E qual foi o seu maior alvo atingido?
Haydée - A minha maior conquista é a minha família. Com o meu trabalho no Conselho, eu vejo tanta família destruída, tanta família separada, que cada vez mais dou valor à união da minha.
JC - A senhora se considera uma feminista de carteirinha?
Haydée - Com muito orgulho. Uma feminista é uma mulher que luta por seus direitos, pelos direitos femininos, e fim de papo. Isso nada tem a ver com essa história que criaram de que uma feminista é uma mulher amarga, solteirona, chata, pouco feminina, ou qualquer outra besteira.
JC - Qual é o seu conselho para quem sofre com a violência doméstica?
Haydée - É preciso denunciar e ir à luta. Precisamos lutar pelos nossos direitos. Quem precisar de orientação ou desejar levar uma palestra para o seu bairro, escola, etc, pode nos procurar na Casa dos Conselhos, que fica na Manoel Bento Creuz, 7-60. Um de meus sonhos é desenvolver um projeto para mulheres carentes, como uma cooperativa, por exemplo. Mas precisamos de apoio e parceria do poder público. Outro desejo diz respeito ao desenvolvimento de cursos profissionalizantes para mulheres que não podem sair de casa e desejam trabalhar. Cursos de manicure, cabeleireiro, corte e costura... São coisas simples que podem melhorar muito a vida de famílias carentes, mas as pessoas não olham para isso.
Perfil
Nome: Haydée das Dores de Souza
Idade: 65 anos
Local de Nascimento: São Paulo
Marido: Altivo
Filhos: Lígia e César
Hobby: Pintura
Livro de cabeceira: “Minutos de Sabedoria”
Filme preferido: Gosto de comédias românticas
Estilo musical predileto: Gosto de música boa
Time: Corinthians
Para quem dá nota 10: Para minha família
Para quem dá nota 0: Para o balcão de negócios que virou a política nacional
E-mail: haydeedors@hotmail.com