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A economia brasileira mudou drasticamente com a abertura de mercados mundo afora. Bauru se beneficia impondo um estilo particular com um parque industrial diversificado, artesanato atraente, um mercado consumidor ávido por importados. A cidade forma e exporta mão-de-obra altamente qualificada e conhecimento gerado nas linhas de produção, em universidades e instituições de pesquisa reconhecidas mundo afora.
Esta é uma face da globalização iniciada há 25 anos evidente nas principais capitais brasileiras, em um primeiro momento, e que os setores produtivos de Bauru assimilaram tão prontamente como o mundo se interessou em entrar com produtos e serviços no Brasil e, principalmente, no mercado consumidor do Interior do Estado de São Paulo, produtor de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.
A globalização no Interior paulista, segunda economia do País, adquiriu contornos de globalização caipira. Impulsionada pela vontade de pessoas nascidas em Bauru e aquelas que chegam constantemente e adotam a cidade de 348.145 habitantes, conforme dados atuais da Fundação Seade. Claudemir de Oliveira, 42 anos, é nascido no Paraná. Profissional especializado no setor de baterias automotivas, o engenheiro químico industrial atuou no parque industrial bauruense do segmento de baterias durante muitos anos até alçar voo para uma carreira internacional.
Em 2010, o movimento do mercado de trabalho altamente competitivo propiciou a Claudemir um cargo executivo em uma empresa norte-americana. Claudemir atendia as exigências técnicas para disputar o processo seletivo. Contudo, sem dominar a língua inglesa, estaria eliminado antes de demonstrar sua capacidade técnica para o cargo. Imediatamente, o profissional recorreu ao setor educacional em Bauru, especificamente para o segmento de escolas de idiomas com inúmeras opções. Optou pela Focus Idiomas se preparando para superar a barreira da língua.
No meio do caminho surgiu uma proposta de uma indústria argentina. Claudemir não hesitou ao receber um convite de emprego no exterior ainda mais atraente para quem já desfrutava de uma carreira bem-sucedida no Brasil, inclusive porque trabalhando na Argentina estaria próximo dos familiares em Bauru. Ele migrou para o espanhol na Focus. Em maio de 2010, foi contratado como gerente industrial por uma empresa argentina levando o know-how assimilado durante cerca de 20 anos desenvolvendo produtos no parque fabril bauruense.
“O único capital estrangeiro lá (na empresa argentina) é o Claudemir”, brinca o engenheiro químico. Na semana passada, ele esteve em Bauru, onde ainda residem sua esposa e filhos. “Aprendi (espanhol) em um mês e saí daqui para assumir uma fábrica de 120 pessoas”, comemora, em tom de agradecimento.
Globalizados
Claudemir integra a força de trabalho especializada globalizada. Já no grande período em que trabalhou em uma indústria de baterias em Bauru manteve contatos com empresas norte-americanas e chinesas, fornecedoras de matéria-prima para a indústria bauruense. Além de contatos para possíveis oportunidades de trabalho no exterior também já se familiarizava com a língua estrangeira com o constante vaivém de documentos e manuais técnicos.
Sua visita a Bauru, na última semana, também foi a negócios. Claudemir iria buscar em Santa Cruz do Rio Pardo uma máquina soldadora industrial brasileira para equipar a indústria argentina. Ele comenta que existem empresas na Argentina que fabricam maquinário similar, porém a preferência é pelo produto brasileiro mais durável. “Representa um investimento alto”, salienta.
Bauru recebe um grande número de estudantes de pós-graduação e especialização vindos também de outros países e que contribuem para globalizar a cidade com sua cultura. Da mesma maneira, centros de excelência em pesquisa, como o Centrinho da USP, Hospital Lauro de Souza Lima e o Instituto Branemark de Bauru colaboram mundialmente para o desenvolvimento da ciência e tecnologia.
Marca de Bauru se consolida na importação de produtos
O exemplo de que a bússola da globalização apontava para o Interior vem da dupla de comerciantes Carlos Alberto, 50 anos, e César Eduardo Prando, 47 anos. Ambos criaram um dos ícones da globalização no aspecto de conceito de comércio de importados. Os irmãos Prando juntaram sua expertise de negociantes para criar a marca Comprando, cristalizada na importação de produtos, mas que adentrou a outros segmentos de serviços e produtos. César relembra que o Comprando foi a primeira loja de conveniência da cidade dispondo de 300 marcas de cervejas importadas e vindas de diversas partes do mundo.
A estratégia dos Prando sempre foi de gerar o hábito de consumo para fidelizar a clientela. Ele cita como começo de tudo o ano de 1989. No ano seguinte, eles investiram em um ponto na avenida Duque de Caxias. “Abrimos em 1990 uma portinha”, pontua. O consumidor tinha cerveja importada para degustar com queijos suíços, vinho alemão, engarrafado em vasilhame da cor azul. “São Paulo estava começando a entrar essas coisas. Isso criou hábito de consumo de coisas diferentes do mundo inteiro”, acrescenta.
A dinâmica social de Bauru integrando o segmento educacional à economia local também fez de Bauru uma cidade de cultura receptiva e propícia ao processo de abertura, uma marca da globalização. César cita que a clientela engrossou com os professores universitários seguindo para o exterior para estudar ou participar de eventos acadêmicos, condição que os estimulava a adotar novos hábitos de alimentação de produtos, até então nunca imaginados nas prateleiras brasileiras.
Segundo o comerciante, o pessoal retorna sedento para tomar um vinho apreciado na viagem. Situação que coloca Bauru em uma condição excepcional de divulgação enquanto cidade globalizada, no aspecto econômico de consumo. “A pessoa traz esse hábito que apreciou na Itália, Espanha, Portugal, Estados Unidos e vem procurar onde tem importados para ver se acha esse mesmo vinho. Só para oferecer aos amigos e dizer que tomou lá e o Comprando também tem”, comemora.
César ressalta que o trânsito de pessoas indo e vindo acaba diferenciando Bauru em relação a muitos municípios. “Isso divulga e amplifica esse negócio da globalização. O próprio cidadão bauruense indo para fora. Isso não acontece em uma cidade muito interiorana que não tem universidade. Esse pessoal viaja muito para fora e transita. Mas agora também barateou muito ir para fora. Mas, tempos atrás, só viajava quem tinha condição”, frisa.
Anos 90
Carlos adquiriu know-how com venda de vinhos nacionais em Piracicaba, antes de iniciar a sociedade com o irmão no Comprando. O cenário de importação ganhou impulso no início dos anos 90, do século passado, com a abertura do mercado brasileiro e com dólar acessível. César relembra que, passados dois anos da fixação da loja como marca de importados, os supermercados iniciaram sua abertura para o produto vindo do exterior, quando apareceram as primeiras sessões de importados.
Ambientação
Os irmãos Prando também trabalharam o conceito de localização de loja. Em 1996, o comércio famoso na Duque de Caxias migrou para a avenida Getúlio Vargas, zona sul. Há nove anos, ocorreu outro salto no negócio com a mudança, agora para um prédio próprio na Praça Portugal.
O conceito de importados diversificou os produtos e o Comprando expandiu o portfólio de serviços. Atualmente, o espaço combina convivência e espaço de alimentação integrados à loja de importados. “Crescemos em Bauru, devemos essa loja a Bauru. Muitas pessoas pedem para a gente sair. Mas aqui é que crescemos. Claro que é uma cidade que você não tem o poder aquisitivo que você desejaria. Mas mesmo assim, Bauru deu retorno, valoriza e crescemos juntos com Bauru”, contextualiza César.
O nome da loja Comprando veio para Carlos em um sonho. César explica que todo mundo falava “vai com os Prando”, quando procurava um produto. “É um nome sugestivo de comprar”, risos.
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