Fundada por volta de 1900 por causa das estradas de ferro Sorocabana, Noroeste e Paulista, a Batista de Carvalho abrigava moradias de famílias pioneiras e o comércio dividido, sobretudo, entre os segmentos de secos e molhados, tecidos, cafés e alfaiatarias.
Em 1962, a rua comercial recebeu o primeiro asfalto e, em 1991, as sete quadras iniciais foram transformadas em Calçadão. Hoje, nele estão instaladas cerca de 130 lojas dos mais variados segmentos e tamanhos. E mesmo sem o glamour de outros tempos, a Batista atrai uma multidão de pessoas da região.
Além da mudança visual, a evolução trouxe ao Calçadão e região alguns problemas crônicos dos grandes centros urbanos. O trânsito e a falta de vagas incomodam durante o dia, mas quando as portas das lojas se fecham, a prostituição, a insegurança, o consumo de drogas e o vandalismo são motivos de preocupação.
Para o projetista aposentado Adelmo Bertussi, que atuou por meio século na Prefeitura Municipal, o Centro da cidade mudou pouco em relação à região alta da cidade quando o assunto é o visual urbanístico. “Por lá, as avenidas melhoraram, ficaram mais bonitas e trouxeram progresso à cidade, como a Getúlio Vargas, por exemplo. Isso não aconteceu na região central. O que mudou mesmo foi a construção do Calçadão e a (praça) Rui Barbosa, mas ainda falta muito para alcançar o ideal do projeto inicial”, diz.
Ainda segundo Adelmo, é possível reativar a noite da região reduzindo impostos e atraindo novos prédios comerciais e até residenciais. “Mas precisamos de prédios modernos e bonitos para atrair as pessoas. Lembro-me dos restaurantes que ficavam cheios de casais na Primeiro de Agosto. A Rui Barbosa também precisa de atrações, mais segurança e beleza”, enumera.
Revitalização
A diretora da divisão de comércio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Maria Ester Fontes Nóbrega, também defende a revitalização do Centro e ressalta que um projeto com este fim está em estudo na prefeitura. “Estamos estudando o que pode ser feito para reavivar a área. Inclusive aceitamos sugestões de pesquisadores”, afirma.
Ester avalia que o êxodo de moradias, além de deixar a região deserta, aumentou a insegurança no lugar. Ela projeta que atividades culturais e de lazer, comércio noturno voltado para os moradores, como padarias, farmácias, por exemplo, ajudam a afastar o vandalismo e atrair moradores. “A cidade se expandiu e muitos foram para condomínios ou para perto de seus trabalhos”.
“O movimento traz vida nova e a volta de moradores para o Centro pode, inclusive, contribuir com a segurança. A reforma da estação ferroviária está sendo planejada como parte dessa revitalização. De imediato, os arcos do Calçadão receberam nova pintura”. Até maio, as sete quadras passarão por um processo de lavagem e os vasos existentes serão substituídos.
‘O Centro era uma festa’
As vitrines da Batista eram todas bem iluminadas e com os produtos à mostra. As famílias passeavam por lá com seus filhos e os casais namoravam de mãos dadas. Na quadra 6 havia a sorveteria do Jorge, a Padaria Central e a quadra 7 abrigava a confeitaria Lalai. Andei muito por lá com a minha esposa. Ah, os jovens praticavam o footing, a paquera de antigamente, onde as moças passavam de um lado e os rapazes faziam o caminho contrário para olharem uns para os outros”, recorda o jornalista, relações públicas e memorialista Luciano Dias Pires sobre o Centro de outros tempos.
A banda da Polícia Militar, que tocava músicas clássicas e populares no coreto da Rui Barbosa, praça onde as crianças corriam livres, as sessões no Cine Bauru da rua Primeiro de Agosto toda quarta e domingo, além dos cines São Paulo e Bandeirantes também fazem parte das memórias de “seo” Luciano.
Para o jornalista, o radioteatro da Bauru Rádio Clube, na Dante Alighieri, que ficava entre os pontos mais bonitos da cidade com seus bares famosos que concentravam reuniões políticas, esportistas e artista, também é inesquecível. “Os bares eram muitos. O Centro era uma festa. Mas tudo foi mudando aos poucos. E bem perto de todo esse palco social localizava-se a “rua do pecado”, onde Eny também esteve. Ficava perto da Rio Branco com a Kennedy. As histórias sobre a Bauru daquela época são inúmeras”.