|
Neide Carlos |
|
|
|
Em três meses e meio, Bauru registrou seis mortes por atropelamento; número supera a estatística do ano todo de 2012 |
“Atenção”. Essa é a palavra da vez para os pedestres em Bauru. O poder público está com o sinal de alerta aceso por conta do número de atropelamentos graves na cidade este ano. Em meio à frota crescente de carros e motos e à imprudência tanto do motorista quanto de quem está a pé, já foram seis mortes pelas ruas da cidade.
Segundo dados da Polícia Militar (PM), as ruas e avenidas de Bauru já foram o cenário de sete mortes no trânsito em 2013. Dessas, apenas uma não foi por atropelamento. Para se ter uma ideia de como a situação preocupa, 2012 inteiro teve o mesmo número registrado em apenas três meses e meio de 2013: seis vítimas fatais por atropelamento.
E essa estatística alarmante se refere só aos acidentes dentro da cidade. Nas rodovias que cortam Bauru, o perigo é igual ou ainda maior. A mais recente vítima foi José Natalino Guedes, 66 anos, morto anteontem na Bauru-Iacanga (leia mais abaixo).
Segundo o primeiro tenente José Sérgio de Souza, comandante do Pelotão de Trânsito da PM, não é possível apontar um único fator para esse crescimento exponencial dos atropelamentos graves. “É difícil definir isso. Mas o aumento da frota é, com certeza, uma das causas”.
Ele explica que, dos seis atropelamentos fatais este ano, metade envolvia motocicletas. “Estamos chegando a uma frota de 50 mil motos na cidade. Sabemos que muitos motociclistas trafegam em alta velocidade e são imprudentes. É um dos fatores”, teoriza.
Contudo, a imprudência não é só de quem está dentro do veículo. Basta andar algumas quadras pelas ruas da cidade para ver a desatenção e o desrespeito dos próprios pedestres. No cruzamento da Rodrigues Alves com a Gustavo Maciel, a reportagem presenciou várias pessoas falando e até digitando no celular enquanto atravessavam a movimentada via.
“O celular é algo que nos preocupa muito. Eu vi recentemente duas pessoas que quase foram atropeladas quando digitavam no celular. Estamos realmente muito preocupados com o pedestre”, confirma o presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), Nico Mondelli.
A poucas quadras, mais pedestres colocando a vida em perigo. No horário de rush, eles atravessam fora da faixa e não respeitam o semáforo destinado para eles, disputando as ruas com os carros.
Os motoristas também não fazem sua parte. No horário de rush, excedem o limite de velocidade e aceleram sobre quem está a pé.
Solução?
O presidente da Emdurb afirma que estão sendo instalados mais semáforos de pedestres na cidade. “Iremos inaugurar um na Marcondes Salgado esta semana e, logo depois, perto do shopping”. Contudo, o consenso é de que a solução é mesmo a educação. “Estamos adiantando algumas ações por conta desses números”, afirma.
A gerente de educação para mobilidade da empresa municipal, Fabiana Trevisan de Lima, explica que, entre essas ações, serão ampliados os programas educativos nas escolas. “Além da Semana Nacional do Trânsito, iremos fazer a Semana da Mobilidade. Nossas atividades são mesmo para criar mais a educação. Essa é realmente a única saída”.
Enquanto isso, a PM afirma que está nas ruas tentando coibir os abusos dos motoristas. “No primeiro trimestre deste ano, o radar móvel teve uma média de 850 autuações por mês. Foram 522 só em abril. A PM está tentando coibir estes abusos que colaboram para essa realidade preocupante”, conclui o tenente José Sérgio de Souza.
‘Ele estava voltando para casa’, afirma irmã da 13.ª vítima fatal
A Polícia Militar (PM) identificou ontem a 13.ª vítima fatal (número referente às ruas e rodovias) de acidentes na cidade. José Natalino Guedes, 66 anos, era solteiro e residia há cerca de três anos, junto ao irmão mais velho, Alexandre Guedes, 70 anos, em uma pequena casa de madeira ao final da quadra 12 da rua Henrique Mingardi, no Jardim Pagani.
O irmão do aposentado, que trabalhou a maior parte de sua vida como tratorista em fazendas na região de Bauru, era o único familiar mais próximo da vítima, que também deixa a irmã, Maria Benedita Guedes dos Santos, 61 anos, além de quatro sobrinhos, todos residentes em Arealva.
Conforme Maria Benedita, atualmente, José Natalino fazia “bicos” como servente de pedreiro em uma obra na cidade vizinha e estaria voltando para casa no momento da tragédia. “A última vez que o vi foi no começo de março, quando vim passear na casa deles. Meus irmãos eram muito unidos e sempre moraram juntos, desde que nossos pais morreram”, conta Maria Benedita, comentando a tristeza do irmão mais velho com a perda do companheiro. “Ele trabalhava em uma obra aqui em Arealva e, naquele horário, estava voltando para casa. Infelizmente, aquela rodovia perigosa acabou levando a vida dele”, lamenta a irmã.
O corpo do aposentado foi velado no Terra Branca e sepultado ontem no cemitério do Jardim Redentor.
O acidente
Conforme o JC noticiou na edição desta quarta-feira, o acidente aconteceu por volta das 18h no quilômetro 345 da rodovia Cezário José de Castilho (SP-321), a Bauru-Iacanga, cerca de 200 metros antes do trevo de acesso ao bairro Colina Verde.
José Natalino cruzava a pista quando uma motocicleta, que seguia sentido Arealva-Bauru, o atropelou.
Na ocasião, o condutor da motocicleta, Antônio Alves da Silva, morador do Pousada da Esperança 1 e seu filho de 11 anos, Antônio Augusto Santos da Silva, estavam na motocicleta, uma Honda/CG 125 verde, e tiveram ferimentos leves.
A reportagem entrou em contato com a família, e a esposa do condutor informou que seu filho sofreu apenas escoriações e já estava em casa. Já Alves continuava internado no Hospital de Base (HB) à espera de exames. “Foi uma fatalidade. Ninguém esperava que isso acontecesse. Estamos muito tristes por saber que o José não resistiu. Que Deus conforte essa família”, lamenta Janaína Aparecida dos Santos ao JC.
O agricultor Leonardo Passoni Capuaro, 46 anos, foi o responsável pela identificação do corpo no Pronto-Socorro Central (PSC) e deu a notícia sobre a morte do aposentado à família. “Ele era meu amigo há sete anos. Era uma pessoa muito boa e trabalhadora, vai fazer falta”, lamenta. “Ele não deve ter visto a moto vindo. Essa estrada é muito perigosa, enquanto não derem um jeito pessoas vão continuar morrendo ali”, completa com a reclamação.
Emdurb vai promover bloqueio educativo
Justamente para ampliar a educação no trânsito, a Emdurb tem feito uma série de bloqueios educativos pela cidade neste primeiro semestre. Amanhã, a atividade ocorre entre 10h30 e 11h30 em frente à Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Etelvino Rodrigues Madureira, no Jardim Pagani.
“São intervenções educativas que fazemos em áreas de risco. Nossa intenção é abordar as pessoas, principalmente os pedestres, e mostrar a necessidade de que elas tenham mais consciência e respeito no trânsito”, explica a gerente de educação para mobilidade da Emdurb, Fabiana Trevisan de Lima.
O presidente da empresa, Nico Mondelli, afirma que outra iniciativa é a elaboração de vídeos curtos mostrando quais os melhores pontos e maneiras para atravessar as vias mais perigosas de Bauru. “É algo que estamos estudando e que é simples de fazer”, completa.
E a duplicação?
Na semana passada, após a morte de Claudemir Aparecido de Souza, 39 anos, atropelado na altura do trevo de acesso aos bairros Vila São Paulo e Quinta da Bela Olinda, a cerca de um quilômetro à frente do acidente que matou o aposentado anteontem, moradores queimaram pneus como forma de manifestar a indignação frente aos acidentes frequentes que acontecem na rodovia.
Ao longo do trecho no perímetro urbano, é possível notar a presença de vários cartazes e faixas pregados nas imediações das pistas pedindo respeito no trânsito e a duplicação urgente da via. “Em nome dos que morreram, duplicação já!”, diz uma das faixas.
Conforme o JC antecipou em edições anteriores, a licitação para duplicar a Bauru-Iacanga foi aberta no dia 14 de fevereiro de 2013. O valor da obra é orçado em R$ 100 milhões e será custeado pelo governo do Estado.
O trecho em questão terá 11 quilômetros e receberá vias marginais, exatamente com o objetivo de reduzir o número de acidentes no local. A expectativa é a de que as obras comecem em junho, após o processo licitatório. O prazo para a conclusão das obras é de 15 a 18 meses.