09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Mariza Campo Basso

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Em suas mãos, objetos aparentemente sem graça, como luvas, baldes e vassouras ganham vida e encantam adultos e crianças por onde a companhia de teatro de bonecos passa. A bauruense Mariza Campo Basso, que com o teatro de objetos leva o nome de Bauru para todo o País e até para fora dele, conta ao JC como tudo começou na semana em que o “Boneco Gira Boneco  -  Festival Internacional de Teatro de Bonecos” chega a Bauru.


Uma das realizadoras do festival, a companhia Mariza Basso Formas Animadas nasceu em 2004 com o espetáculo “O Circo dos Objetos”. Mas a história de Mariza com os bonecos começou antes, quando ela subia aos palcos pelo teatro contemporâneo.


Menina tímida, a entrevistada de hoje optou pelo curso de teatro para vencer a vergonha e conhecer um pouco da arte.  Encantada com o universo artístico, seu desejo foi ao encontro dos bonecos. “Meu mestre no teatro, Evaldo Barros, que já morava em Portugal, me ensinou a construir meus próprios bonecos em uma de suas vindas a Bauru. Depois do primeiro, comecei a experimentar. Na época eu trabalhava na companhia do Márcio Pimentel e o chamei para fazer um espetáculo de bonecos. Ele topou e fizemos o primeiro”.


Descoberto o caminho, ela se aventurou com sua própria companhia e ganhou os palcos do Brasil e do mundo, onde fez muitos amigos e conquistou plateias. Confira, a seguir.



Jornal da Cidade - Quando você subiu aos palcos com os bonecos?


Mariza Campo Basso - Eu guardava em mim a vontade de trabalhar com bonecos e contei para o Evaldo Barros, meu mestre no teatro, em uma de suas vindas a Bauru. Mas eu disse a ele que queria comprar alguns bonecos e ele não deixou, porque acreditava que eu deveria confeccioná-los. Disse que bastava que eu arrumasse uns jornais e pedaços de panos velhos, fita crepe e meia dúzia de cervejas que ele me ensinaria. Aí fomos para um bar, juntamos duas mesas e, depois de duas horas, fiz a minha primeira marionete. Depois do primeiro boneco, comecei a inventar, pesquisar, experimentar e, na época, eu trabalhava na companhia do Márcio Pimentel e o chamei para fazer um espetáculo de bonecos. Ele topou e fizemos o primeiro, que foi o “Causos de Pescadô”.


JC - A companhia Mariza Basso Formas Animadas há alguns anos encanta o público dentro e fora do Brasil. Como essa história de sucesso teve início?


Mariza - Eu fui me aprimorando e curtindo muito isso.  O Pimentel, como era do teatro contemporâneo, começou a desfocar e me aconselhou a montar minha própria companhia de bonecos. Ele seguiu a trajetória dele e eu a minha. E eu me perguntei como montar um espetáculo sozinha e sem grana. Foi então que surgiu a história dos bonecos feitos com objetos. Descobri um texto do Luiz Vítor Martinello, o “Sapato que sabia andar”, peguei uns sapatos da sapateira de casa e fiz uma contação de histórias. E gostei da linguagem.


JC - Qual foi a maior dificuldade dessa época?


Mariza - Eu queria transformar a contação em espetáculos, mas faltavam mãos. Fui até o Centro Cultural ver se alguém queria trabalhar com bonecos e ninguém quis. Fui aconselhada a conversar com Tato Ananias e o Claudinho Santana, de Agudos. Eles toparam e passamos a ensaiar em um galpão da bicicletaria da minha família (risos). Isso em 2002. Depois de muito trabalho, em 2004, nasceu o espetáculo “O Circo dos Objetos”, o primeiro da companhia que, na época, era uma parceria minha com o Catapimba Teatro Circense, dos meninos de Agudos.  


JC - E o espetáculo se destacou logo no início?


Mariza - O espetáculo teve uma grande repercussão em Blumenau (SC) e fomos classificados no Fenatib, um dos mais importantes festivais brasileiros de teatro infantil. Mas manter essa história foi complicado, porque os artistas saíam da equipe e o espetáculo acabava. Então eu decidi que eu seria a companhia e, independente de sair um artista e entrar outro, o espetáculo seguiria. Eu acredito muito nessa coisa da continuidade, tanto é que esse espetáculo já está na 11ª substituição.  


JC - A troca de elenco prejudica o trabalho?


Mariza - Para mim foi uma escola. Cada um que chega mostra um outro olhar do objeto. Quando eu acho que as possibilidades se esgotaram, vem uma pessoa de fora e faz uma cena diferente. “O Circo dos Objetos” foi uma grande escola para mim.


JC - Foi a sua estreia na direção?


Mariza - Eu sempre fui atriz, fui dirigida e fazia o que me mandavam. Quando eu tive de assumir a responsabilidade da criação e da direção, eu fiquei muito insegura. Achei que seria um fiasco, mas me atirei e as pessoas gostaram do meu trabalho, inclusive os críticos. Essa aceitação me trouxe segurança e eu percebi que havia achado o meu caminho. Foquei nessa ideia do teatro de objetos, que existe desde a década de 1980, mas tem poucas companhias atuantes. Essa ideia de transformar uma mochila, um balde, causa estranheza ao público no primeiro contato, mas depois funciona. Descobri que o óbvio é o mais legal e passei a buscar cada vez mais esse óbvio.


JC - E quais foram os resultados dessa busca?


Mariza - Fui mandando projetos para os festivais e cada vez mais a companhia passou a participar desses eventos. Já percorremos todo o Estado de São Paulo e praticamente todo o Brasil. A nossa entrada no Sesc também trouxe grande visibilidade para a companhia. A nossa primeira apresentação internacional foi em Portugal e rendeu histórias. Eu não tinha dinheiro e nem cartão de crédito, mas o gerente do banco me emprestou para a passagem. Fui com o dinheiro contado e meu amigo Evaldo me ajudou até com a comida. Depois fomos para a Colômbia. Ficamos receosos por não conhecer o país e tem essa coisa do narcotráfico... Mas conheci um colombiano em Curitiba e ele nos convidou. Fomos e adoramos. Temos grandes amigos lá e nos apresentamos outras vezes. Também já passamos pela Argentina, Caribe...


JC - Ao todo são três espetáculos, certo?


Mariza - Sim: “O Circo dos Objetos”, “O Sítio dos Objetos” e “João Come Feijão”. Agora estou voltando com “O Sapato que Sabia Andar”, mas com a versão original do texto.


JC - Quando você se descobriu artista?


Mariza - Meu pai queria que eu fosse pianista. Eu fiz aulas de piano, até gostei, mas optei pelo violão. Eu estava me voltando para a música quando a Casa de Cultura abriu um curso de teatro. Eu tinha 17 anos e era muito tímida, tinha vergonha de tudo. Fui para saber como era e para me soltar um pouco. Conheci figuras incríveis que mantenho como amigos até hoje e me encontrei. Eram pessoas despojadas, irreverentes e eu me encantei com elas. O teatro foi e é muito importante em minha vida, mas o início foi difícil.


JC - Por questões financeiras?


Mariza - É. Eu fazia teatro, mas não conseguia viver dele e não tinha família que me bancasse. Por isso eu atuava e trabalhava como garçonete, jardineira... Meu pai achava que eu precisava de um emprego fixo e minha mãe me apoiava. Mas isso até eu completar 30 anos de idade, depois disso ela me perguntou se não era melhor eu arrumar um trabalho (risos). Por outro lado, eu tinha um terapeuta que me aconselhou a focar no meu objetivo, mesmo que o começo fosse sofrido. Foi o que eu fiz e valeu a pena. Tudo o que eu fazia era voltado para o teatro. Podia até ser garçonete, mas garçonete performática. Fiz teatro empresarial e foi o que me manteve por um bom tempo, mesmo com dificuldade.


JC - Um sonho.


Mariza - É o sonho do patrocínio fixo para ter condições confortáveis de trabalhar, me manter e investir no trabalho. Ainda é muito difícil para um artista se manter no Brasil. O mercado é muito competitivo. É preciso ter muita disciplina e cuidado, já que para levar um tombo é rápido. Também é preciso ter qualidade e continuidade. E não se pode esquecer que há concorrência desleal, inveja e picaretas que prejudicam os que têm alma de artista.