08 de julho de 2026
Geral

Esgoto: qual é a melhor tecnologia?

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Nélson Gonçalves

Renato Rossetto, Marco Santos e Rovério Pagoto apontam o sistema de reatores em ampla desvantagem em relação ao tratamento por membranas

Qual a melhor tecnologia para o tratamento de esgoto em função da eficiência, manutenção e custo-benefício? Para iniciar a discussão, o JC foi a Campinas conhecer os três sistemas mais discutidos no segmento nas últimas décadas: lodo ativado, reator anaeróbio e o sistema realizado por membranas filtrantes.

A tecnologia de reator anaeróbio (UASB), prevista no projeto executivo contratado pela Prefeitura de Bauru, é questionada por especialistas em diversos municípios brasileiros em relação à eficácia, manutenção e eficiência, além da liberação de gás que “alimenta” o efeito estufa. A “vedete” do segmento é apontada para o sistema por membranas filtrantes, adotado em larga escala nos EUA. A reportagem inicia a discussão sobre as tecnologias que vão definir o futuro do tratamento de esgoto e da maior licitação pública

Aceituno Jr.

Tratamento de esgoto em Bauru terá investimento de R$ 118 milhões

em Bauru das últimas décadas.

Com 1,098 milhão de habitantes apontada no último Censo do IBGE, Campinas trata 88% de seu esgoto e instalou a primeira ETE com membrana de ultrafiltração em abril de 2012, a primeira da América Latina. O primeiro módulo trata 180 l/s de dejetos. O segundo módulo está em construção. Ao final, a ETE terá capacidade para tratar o esgoto produzido por 500 mil pessoas. Mas o projeto prevê até quatro módulos, com vazão total de 720 l/s.    

Em razão da eficiência de 99,6% no final do processo, o planejamento da Sanasa prevê a substituição dos reatores anaeróbios em algumas das atuais 27 ETES existentes pelo método por membranas durante os próximos cinco anos. Por lá, o programa de tratamento teve início na década de 70. Os sistemas por lodo ativado já foram descartados.

Prós e contras

Renato Rossetto, gerente de operações de esgoto da Sanasa, e Rovério Pagoto, do planejamento, estudam as tecnologias para tratamento de esgoto há mais de 15 anos. Para ambos, o sistema UASB está superado. “Sozinho o reator UASB dá somente 70% de eficiência. Para atingir o mínimo de 80% exigido pela legislação ambiental, esses processos têm de associar outros elementos. A eficiência no processo por membrana chega até a 99,9%”, aponta Pagoto.

Rossetto acrescenta: “O UASB libera gás que compromete o meio ambiente e produz cheiro forte em seu entorno. Outra dificuldade no UASB é o confinamento. A segurança de manejo é muito complicada. O processo também agride muito os reatores e isso exige cuidado meticuloso com a manutenção do equipamento. Tem de contar que é preciso retirar sempre a crosta, uma espécie de grande caixa de gordura que não tem solução”.

A baixa eficiência em relação à membrana, o odor, o custo elevado para impermeabilização e a turbidez são as desvantagens mais elencadas no UASB. “Mas o reator também não retira nem amônia e nem fósforo, enquanto que na membrana não passa nada, nem protozoário. Outro problema do reator: como queimar o gás metano que vai para a atmosfera?”, indaga Rovério.

Rossetto, por sua vez, pondera que a tecnologia anaeróbia por reator consome menos energia elétrica que o processo por membranas e também menos lodo. “Mas o lodo hoje é receita agregada e o custo com manutenção e a eficiência são tão superiores com as membranas que a despesa com energia do UASB se perde. E tem mais. A membrana gera água para reuso com 99,9% em relação ao lodo inicial, o processo é todo automatizado, você não para nunca o processo e o sistema não usa químicos. Uma vez por semana usa só hipoclorito para limpeza da membrana. O UASB tem de um operador entrar no meio do sistema insalubre e o custo é muito superior em manutenção”, aborda Rossetto.

Na EPAR em Campinas, o sistema por membranas utiliza três operadores por turnos de oito horas para funcionar. E o custo total do projeto? O diretor técnico da Sanasa, Marco Antonio dos Santos, disse que o sistema por membranas teve orçamento R$ 10 milhões a mais que uma ETE do mesmo porte com reator UASB.


Etapas do tratamento

A estrutura física principal de uma ETE com tecnologia de membranas é muito parecida com a prevista para Bauru, com reatores anaeróbios (UASB). O “meio” do processo distingue as duas tecnologias.

O esgoto chega à ETE por gravidade, como em Bauru, por onde passa pelo chamado tratamento preliminar. O gradeamento grosseiro retém o material mais “pesado”, acima de 15 milímetros. “Aqui chega lata, plásticos, tecidos, restos de materiais diversos, além de despejos irregulares de químicos diversos. Isso precisa ser retido na origem porque senão o sistema não funciona. Após o gradeamento, uma espécie de tanque de areia retém os itens não sólidos. Uma peneira com malha com furinhos de dois milímetros também está no processo. O desanerador se incumbe de tirar todo material que poderia paralisar o sistema. Isso se repete em uma ETE com reator UASB. A questão é verificar o dimensionamento desses itens”, explica a engenheira Renata de Gasperi, coordenadora da estação EPAR em Campinas.      

Uma diferença na origem, entre o sistema UASB e o de membranas, é que o último não utiliza decantadores. A membrana faz esse serviço. O processo também não se vale de ingredientes químicos em seu percurso de tratamento. “Retirado o material grosseiro o sistema remove nitrogênio e a primeira etapa de fósforo e outros materiais por um processo bioquímico, na fase secundária”, continua. A areação (uso de oxigênio) é feita por difusores, quebrando as moléculas. À frente, o nitrogênio amoniacal se transforma em nitrato.

Na ação, a bactéria é “quebrada”, gerando a liberação de nitrogênio na atmosfera. Na última etapa entram os “trens” de membranas, fileiras de fibras ocas que ficam submersas com o lodo. A superfiltragem completa o processo. A EPAR gera 200 toneladas de lodo por mês. O material pode ser utilizado para adubação. Até 2014, o lodo não poderá mais ser descartado em aterros.

 

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