08 de julho de 2026
Política

?Improviso? de pediatras é questionado

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Mesmo com o déficit de pediatras na região e em todo o País, a proposta da Secretaria Municipal de Saúde de capacitar clínicos gerais para os atendimentos de urgência a crianças em Bauru é alvo de críticas da classe médica. O “improviso” foi discutido, na última sessão legislativa, por dois dos três vereadores que exercem a profissão e gerou reação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

O consenso entre todos é de que o atendimento pediátrico realizado por clínicos faria disparar o número de encaminhamento de crianças para a internação. “Até mesmo pelo resguardo jurídico do profissional, que não estará exercendo sua especialidade”, aponta o parlamentar e oftalmologista Raul Gonçalves de Paula (PV).

Na tribuna, Telma Gobbi (PMDB) citou seu caso como exemplo. Ela é endocrinologista, mas tem experiência como plantonista. “É claro que, em uma emergência, todos nós médicos temos condições de dar o primeiro atendimento. Mas tornar isso uma rotina é complicado. Eu mesma não lembro como calcular a dosagem de determinados medicamentos para uma criança”, diz a médica.

A vereadora entende que, com o improviso proposto pela secretaria, a possibilidade de que profissionais incorram em erros é muito maior. “A qualificação é menor porque o médico não fez aquela residência”, pontua.

Raul lembra que o atendimento pediátrico exige maiores cuidados e um tipo de atendimento especializado. “Crianças, no geral, não relatam o que sentem. Na maioria das vezes, apenas choram”.

Segundo o vereador, 80% dos pediatras são do sexo feminino. Este seria um dos motivos para que o número de especialistas nesta área seja reduzido, pois muitas mulheres, após constituírem família, deixam de fazer plantões e buscam caminhos para se dedicar mais aos filhos.

Ele ressalta ainda que a capacitação de clínicos para o atendimento pediátrico geraria um novo problema, que seriam as filas e o aumento do tempo de espera nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). “Se uma unidade dessas atende a 400 pessoas por dia. A demanda passaria para 600 ou 700. Como fazer? Vão contratar mais médicos? Existe estrutura física para isso?”, questiona.

O vereador do PV aponta como alternativa a criação da carreira de socorrista na Prefeitura de Bauru. “Dessa forma, a secretaria terá como exigir, já no edital do concurso, que o profissional estivesse apto a atender crianças, adultos e idosos”, cita Raul.

Já Telma Gobbi acredita que a medida não resolveria o problema. Ela entende que este profissional até prestaria um primeiro atendimento de qualidade, mas em seguida, solicitaria o encaminhamento para internação ou para o médico especialista. Na estrutura atual da pasta, existe apenas a carreira de médico, que não é subdividida em especialidades, segundo o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti.


Resistência

O secretário Fernando Monti admite que há resistência de médicos clínicos gerais, que alegam a falta de conhecimento e prática. “Nós poderíamos decidir isso de forma arbitrária, mas estamos respeitando as dimensões técnicas dessa resistência, embora saibamos que alguns dos profissionais que as alegam prestam atendimentos a crianças em outros empregos”, pontua Fernando.

Ele diz também que a prefeitura estuda formas de compensar financeiramente este “acúmulo” de atividades, o que pode acontecer diretamente no salário ou no valor pago por plantões extras, que é de R$ 1.200,00 e, até 2011, era de R$ 600,00.

A proposta do secretário prevê ainda a disponibilização de um pediatra que atue no Pronto Atendimento Infantil (PAI) para auxiliar os médicos recém-capacitados das UPAs. “Se houver maior dificuldade, esse profissional poderia ser acionado por telefone. Em casos mais emergenciais, a criança seria transferida para o PAI”.


Cremesp: banalização da profissão médica

O médico Carlos Alberto Monte Gobbo, chefe da delegacia regional de Bauru do Cremesp, critica o discurso de que um curso da capacitação pode qualificar um profissional para o atendimento pediátrico. “Amanhã ou depois, com a alegação de déficit, vão oferecer cursos para pessoas que não são médicas e transformá-las em pediatras. É a banalização da profissão médica”, afirma.

Gobbo pontua que todos os médicos possuem autorização legal para atuarem em qualquer área. Isso, porém, não significa que tenham competência para tal. “Já trabalhei em pronto-socorro, atendendo a adultos e não me sinto apto para atender a rotina de crianças”, admite.

O médico questiona ainda a “moralidade” da proposta da Secretaria Municipal de Saúde. “É legal, será que é moral? Temos tantos avanços e especificações. O clínico está muito distante da pediatria. Em uma UPA, seria não mais que um triador. E um mau triador. Já foi o tempo em que existia a figura do médico que atende toda a família, desde o bebê até o avô.”.

Nesta mesma linha, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) já encabeçou, inclusive, uma campanha para a inclusão de profissionais especializados em pediatria no Programa Saúde da Família.

Gobbo frisa que, por trás do déficit de pediatras, há uma política de má remuneração, que torna a especialidade pouco atrativa.

Ele acredita ainda que os clínicos da rede de urgência e emergência do município não vão se submeter à “política equivocada” da secretaria. “Quero assistir de camarote para saber qual médico vai aceitar colocar seu diploma em risco”, finaliza.


Em números

A rede municipal conta, hoje, com 45 pediatras, mas apenas 21 estão no Departamento de Urgência e Emergência (DUE). Atualmente, este tipo de atendimento para crianças está concentrado no Pronto Atendimento Infantil (PAI).

Para garantir atendimento pediátrico nas três UPAs em funcionamento, seriam necessárias 30 contratações. Mesmo no PAI, há déficit de profissionais. Por essa razão, há um concurso público em andamento.

“Nem que pudéssemos chamar todos esses profissionais não haveria essa quantidade disponível. A forma que encontramos é o único caminho para garantir que as crianças sejam atendidas nessas unidades, o que julgo importante”, explica Monti.

Desde a inauguração da primeira UPA, no Mary Dota, a população cobra esse tipo de atendimento, até mesmo por conta do longo tempo de espera, frequentemente registrado, no PAI. “A intenção é que, em meados do segundo semestre, a gente possa ter isso estabelecido”.