08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Vá em paz, padre


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Acredito que foi cometida uma imensa injustiça neste caso do padre Beto. Quem acompanha os sermões dele já o ouviu dizer várias vezes que a coisa mais importante para o cristão é o amor. E também já o ouviu dizer sobre o fato de Cristo ter sido um transgressor. Tal palavara era utilizada pelo sacerdote em seu sermão para ilustrar os fatos de que Cristo conversava com os leprosos (que eram afastados do convívio), mulheres (seres inferiores) adúlteras (que merceiam ser apedrejadas), prostitutas, estrangeiros (como o samaritano) e tais atitudes provocavam grande repúdio por parte da sociedade da época, que o viam como uma ameaça, pois transgredia as norma vigentes da sua época. Mesmo assim, com tais atitudes Cristo dava o exemplo do maior de todos os ensinamentos que nos deixou, qual seja, de que não importa as diferenças o que vale é o amor incondicional não importando a quem fosse dirigido.

Entendi que o padre Beto, em sua entrevista, transportou para os dias atuais esse ensinamento de Cristo que para ele é o maior dogma da igreja (o amor). Apenas trocou os discriminados da época para os homossexuais. Assim, disse ele que caso exista amor fiel e verdadeiro ainda que em pessoas do mesmo sexo tal prática não poderia ser condenada, pois existe amor. Posicionando-se dessa forma, contrariou o que pensa a maioria dos católicos, que comportam-se hoje comos fariseus daquela época o fizeram. Mas mesmo assim padre Beto foi fiel ao que sempre pregou em suas missas. O amor incondicional ainda que não convencional. Em relação à traição, relatou que se o cônjuge traído sabe da traição, esta não existe, pois não houve engano.

Tal raciocínio é óbvio, pois se não houve engano não se pode alegar traição, mas a maioria não entendeu, preferiu acreditar que ele incentivava tal prática. Como resposta a tais pensamentos transgressores para o tempo atual, não foi crucificado literalmente como Cristo, mas foi alvo de inúmeras ofensas e deselegâncias de toda ordem perpetradas pelos próprios católicos que, se vivessem naqueles tempos de Cristo, certamente anuiriam com sua crucificação. Chegou a ser chamado de traidor, herege, canalha entre outras ofensas e sua saída foi requerida aos quatro ventos.

Fico triste, pois passados mais de dois mil anos da vinda de Cristo, mostra que a sociedade continua intolerante as diferenças e comete os mesmos erros por não seguir o maior de todos os ensinamentos que é praticar o Amor. Padre Beto sempre disse que amar o que se gosta é fácil. Difícil é amar os diferentes. Ir na igreja é fácil, o difícil e pôr em prática o que se escuta. Eu não esperava outra atitude dele que não fosse a de entregar o "cargo" ao bispo. Pessoas com o perfil que o padre Beto são raras e jamais renunciariam ao que pensam apenas para manter o status quo. Padre Beto é um transgressor (quiçá todos os homens fossem transgressores como ele e tivessem um décimo de seu caráter, um centésimo de sua inteligência e um milésimo se sua coragem de colocar o dedo na ferida e entregar sua igreja). Atitude louvável.

Antes que comecem a me acusar por acreditar que sou mais um gay defendendo a causa, digo que sou católico, casado, hétero e não me ofendi com o que ele disse. Concordo com tudo. Tento amar o difrente para tentar ser um pouco melhor. Sou um cristão transgressor como Beto. Sentirei-me triste de ser privado do sermão direto e que nos faz pensar do padre Beto. E mais triste ainda de saber que o afastamento foi motivado pela intolerância de seus superiores e da enorme hipocrisia de grande parte de seus seguidores que antes o aplaudiam e hoje o abandonaram.

Curioso é que a igreja exigiu retratação de uma pessoa que apenas expôs seu pensamento em consonância com o que sempre disse e pregou tanto ele em seus sermões como Cristo em várias passagens o amor incondicional. Mas essa mesma igreja não mostrou a mesma energia para expulsar os pedófilos, coibir os ladrões de dinheiro (no próprio Vaticano) e introduzir as mulheres a posição de destaque (pois continua sendo dominada exclusivamente por homens em pleno século XXI). Vá em paz, padre Beto. O seu sacerdócio será exercido de uma outra forma, pois jamais deixará de ser padre. Pessoas como o senhor sempre serão úteis.

Fique em Bauru. Saiba que nem todos os católicos lhe viraram a cara. Aqui fica meu abraço e como disse um leitor neste mesmo espaço no sábado poderemos ir aos domingos embaixo da Copaíba da Getúlio Vargas ou em qualquer outra sombra grande para ouvi-lo. E como já dito várias vezes, onde estiverem reunidas pessoas puras de coração Deus estará presente ainda que não seja no interior da Igreja de São Benedito.

Júlio César Rocha Zimermann