"É possível fazer mais" é o slogan do aspirante a candidato a presidente Eduardo Campos, governador de Pernambuco. E a já candidata à reeleição Dilma Roussef, por sua vez, complementou o slogan acrescentando a expressão ?cada vez? ? "É possível fazer cada vez mais." Essas expressões são típicas dos governos populistas, aqueles que, no dizer de Tzvetan Todorov, procuram "identificar as preocupações do maior número de pessoas e propor, para aliviá-las, soluções fáceis de compreender, mas impossíveis de aplicar". É pura demagogia, que é o discurso populista.
É possível, cada vez mais, melhorar muita coisa, como vem sendo feito. O presidente Sarney iniciou a Ferrovia Norte-Sul e está sendo possível fazer mais, como os 800 quilômetros feitos com trilhos de qualidade inferior, ?made in China?. É possível fazer mais no transporte rodoviário, como caminhões andando a 20 quilômetros por hora, para desviar dos buracos, nas estradas asfaltadas ou atolados nas estradas de terra. É possível fazer mais com os portos, como as filas gigantescas de caminhões, congestionando as estradas, a espera de lugar para descarga, e navios cargueiros ao largo, por semanas, aguardando oportunidade de atracar, a ponto de importadores da China suspenderem as compras. É possível fazer mais com a segurança, como os presídios superlotados, com os presos amontoados como nos porões dos antigos navios negreiros, e pessoas sendo assaltadas e queimadas vivas. É possível fazer mais com educação, como escolas onde é preciso a presença da polícia para os professores poderem trabalhar. É possível fazer mais com a saúde, como doentes morrendo nos corredores de prontos-socorros ou de hospitais, ou até na rua, a espera de atendimento. É possível fazer mais com moradia popular, como as casinhas de material de terceira, que racham ou desabam antes de serem ocupadas. É possível fazer mais com a economia, tornando o país mais competitivo, como a indústria puxando o PÌB para baixo. É possível fazer mais para melhorar as regiões das secas do Nordeste, como os trechos do canal de transposição do Rio São Francisco abandonados, depois de escoarem milhões de reais. Como se vê, não só dá para fazer mais, mas cada vez mais, inclusive propaganda de governo com dinheiro que faz falta aos programas essenciais.
Depois desse resumo do que está na mídia, se não é discurso populista ou demagogia, o que é este contraponto Lula/Dilma, em vídeo? "L: Os brasileiros já aprenderam? D: que é possível ter sempre mais... L: depois da geladeira, a casinha, o carro... D: a casa mais confortável, com transporte, posto de saúde e escola perto... L: o curso médio, a universidade, depois, o doutorado no exterior... D: nosso governo também aprendeu? L: com o Brasil e os brasileiros? D: que é possível fazer cada vez mais? Lula e Dilma (juntos na tela): Tem sido assim. Vai ser assim."
Vejam que não estamos pensando só no governo federal, porque esses assuntos envolvem os três níveis de governo e, infelizmente, o populismo vai de prefeito a governador e presidente; de secretários municipais e estaduais a ministros e de vereadores a deputados estaduais, federais e senadores. Nestas últimas décadas os governos têm feito um esforço maior pela manutenção do poder do que para melhorar o país. Parlamentares são cooptados, inclusive com a compra de venais, não para as reformas de base ou projetos fundamentais para o desenvolvimento, mas para garantir reeleição. Quando se fala tanto em desenvolvimento sustentável, se desejarmos relacionar os projetos realmente importantes, que foram implementados integralmente e se tornaram duráveis, o que teremos para relacionar?
Para Todorov, em ?Inimigos Íntimos da Democracia?, o populismo é um deles e a "demagogia é tão antiga quanto a democracia, mas recebeu uma formidável impulsão na época moderna, graças às comunicações de massa e particularmente a televisão.O jornal impresso também se dirige a todos, mas pelo menos você pode parar, reler o artigo e refletir. O jornal televisivo passa de pressa, favorece as frases curtas e claras, as imagens impressionantes e fáceis de reter, e nossos contemporâneos têm dificuldade de concentrar-se por mais de um minuto. Nesse campo a contaminação é geral, principalmente se as mensagens forem reduzidas a slogans." Isso explica a atual disputa pelo horário de televisão.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras