10 de julho de 2026
Articulistas

Um ponto do mundo chamado Bauru

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Diante de certas pessoas e de certas situações, nossa Bauru se converte no epicentro do mundo e aquilo que aqui ocorre ganha fama e perene localização no mapa do mundo. São muitas as situações e os exemplos. Aqui foi ponto de partida de Cândido Rondon em missão nacional de progresso e paz. Ernesto "Che" Guevara passou por aqui para implantar um Vietnã boliviano. Aqui nasceram Osires Silva, inconteste pai do sonho aeronáutico nacional, e Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro, e aqui na nossa ITE bacharelou-se o poeta, jurista e advogado José Saulo Pereira Ramos, cuja morte choramos nestes dias. Aqui nosso Tio Gastão sonhou e construiu nosso notável Centrinho. E vamos por aí afora. Aqui também nasceu, educou-se, conviveu e pregou sua fé como sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana nosso Roberto Francisco Daniel, elevado como primeiro personagem de dolorosos acontecimentos, aparentemente iniciado com reflexão falada e documentada em ambiente impróprio, com desdobramentos detalhados de posições pessoais espalhadas na mídia eletrônica que evoluiu com extremados radicalismos e culminou com fulminante excomunhão cautelar assentada no Direito Canônico. Isso expõe inócua armadilha de vida que, há muito tempo latente, explodiu de modo inesperado, sem sinais de alerta ou que aconselhassem prudente desvio. O episódio, mesmo ganhando manchetes, em nada contribuiu para aliviar situações preconceituosas, em nada afetou consciências pouco obedientes às prescrições da Igreja e nem teve força para desencadear debate produtivo que recomendasse em curto tempo modificações de prescrições e condutas. A armadilha que ganhou espaços na mídia apenas apontou posturas, exibiu transgressões e justificou conseqüências. Mais nada ou pouco mais que nada. Talvez gere um mártir.

O caboclo amazônico que caminha pela floresta quando observa jaboti no alto de uma árvore espertamente corta volta e passa ao largo com muita prudência. Jaboti não sobe em árvore e quem o colocou lá pode ter preparado armadilha que convém evitar. Nosso Roberto Francisco Daniel não viu jaboti e nem suspeitou de armadilha. Não teve para alertá-lo seu falecido pai, homem bom e de muita fé, nem teve para aconselhá-lo seu falecido incentivador, Cândido Padim que foi exemplar na justa rebeldia de toda sua vida sem descurar de sua fé e dos valores de sua Igreja. Caiu, infelizmente, com ansiosa ingenuidade em armadilha que comprometeu deveres juramentados de obediência sacerdotal, sem conceder ao Papa Francisco mínimo tempo para empreender as reformas justificadoras de sua investidura. Com isso acentuou divergências latentes e carregou de desconforto as pregações de sua Igreja e de seus irmãos e colegas de sacerdócio e principalmente trouxe perplexidade e orfandade para o rebanho que suas pregações cativaram. Esse estrago tem mínimas conseqüências para a Igreja Católica no perde e ganha de fieis e praticamente se exaure na aplicação de seu direito singular. Mas tem desagradáveis impactos pessoais exigentes de compreensão e humildade.

A irreversibilidade da excomunhão marca tragédia pessoal que, além de fechar portas e ambientes da vida, retira visibilidade de vocacionado para servir a Deus e o priva de acesso às tribunas eclesiais de pregação e dos sacramentos da Igreja em que foi criado e à qual serviu. E carrega para o universo de seus fieis amargos tempos de frustração e de dúvidas que demandarão longas reflexões pessoais. Este acontecimento, mesmo sem culpados, uma vez mais põe Bauru como epicentro do mundo e reclama o cultivo da tolerância, o repúdio a egoísmos, o exercício da paciência e cobra de todos esforços para que cada um reencontre seus próprios rumos, reerga a fé abalada, recupere seus valores e reconquiste sua felicidade pessoal. Na dimensão de cada vida parece ser este o caminho de Bauru e sua gente para que se reforcem laços abalados de fraternidade e se reiterem até a exaustão os testemunhos de humildade, compreensão e amor neste difícil momento comunitário. O tempo e a vontade de Deus farão o resto.

O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado