08 de julho de 2026
Articulistas

Isso é Brasil!

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

O que a redução da maioridade penal, o (baixo) salário mínimo, o (baixo) salário dos professores, a morte de um traficante após operação de guerra em uma área residencial, o auxílio-reclusão, a pena de morte e a "bolsa crack" têm em comum? Nada e tudo. Nada porque... realmente não tem nada em comum. Tudo porque, nas redes sociais, são as peças que se encaixam perfeitamente em um quebra-cabeça boçal. Basta percorrer sua timeline (para aqueles que não tem facebook, a timeline é uma... opa... alguém ainda não tem facebook no mundo?) para encontrar exemplos de tal postura. No facebook, todo mundo pede e exige justiça. Lá, eles dizem que adolescente infrator merece cadeia e que bandido deve ser morto. Quando o bandido é morto, a ira se volta contra a imprensa, que defende os direitos humanos daquele que só teve o que merecia.

Em relação ao auxílio-reclusão, dizem que é melhor ser preso para ganhar mais do que o salário mínimo. Sequer sabem dos detalhes do auxílio, como o fato de ele ser direcionado ao dependente do detento e concedido somente àqueles que já contribuíram com o INSS antes da prisão. Sem falar da frase de efeito que todo militante de facebook adora usar para fechar sua indignação. Ao fim, sempre vem um "Reforma na Constituição Já", "Acorda Brasil" ou o meu preferido: "Isso é Brasil". Sempre com letras maiúsculas, contrastando com a ação daqueles que estão apenas compartilhando algo que não procuraram entender (sem falar dos que reproduzem, com a mesma pompa e indignação, notícias falsas).

Agora, a bola da vez é criticar o "bolsa crack" - alcunha, por sinal, dada já para desvalorizar o projeto - e dizer que o usuário de droga é a "bandidagem que entrou nessa porque quis".

Ao contrário do que muitos - até grandes jornais da Capital ? publicaram, o valor não é para a família do dependente. O valor vai diretamente para as entidades cadastradas. Bauru, felizmente, faz parte do piloto. Já que o "bolsa crack" é o foco, ressalto uma reportagem que escrevi esta semana apontando que os traficantes começaram a vender tragadas. Conversei com um jovem de 21 anos que usa crack desde os 16. Com a camisa do Corinthians e "limpo" há dois meses, ele quer ver o time dele ganhar do Santos e do Boca Júnior. Eu também quero. Fica muito claro que ele não é um "sem vergonha". Ele não é "bandidagem". Ele tem uma doença. E qualquer tentativa para curar essa doença é válida.

Seja no facebook ou não, deixo bem clara minha opinião. Sou contra: diminuir a maioridade penal com sistema penitenciário na bancarrota, pena de morte e metralhar casas com pessoas dormindo para matar ? executar - um traficante. Sou favorável: "bolsa crack", aumentar o salário mínimo e garantir mais qualidade de vida à população. Só que usar gato pra justificar sapato não faz o menor sentido. É um quebra-cabeça reducionista e emburrecedor.

E tenho dito: isso é Brasil!

O autor, Vitor Oshiro, é repórter do JC e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia