09 de julho de 2026
Bairros

Paixão sobre quatro rodas

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 11 min

Os automóveis fascinam e despertam desejo no ser humano desde a sua criação. Se na origem de sua invenção os carros foram pensados para encurtar distâncias de forma mais fácil, rápida e confortável, hoje ele é capaz de expor o estilo de vida e as paixões de seus proprietários.

 

Malavolta Jr.

Mais do que encurtar distâncias e proporcionar conforto, os automóveis fascinam e despertam paixões

Em Bauru, o total de veículos registrados até março de 2013 era de 239.218, segundo dados do Departamento de Trânsito (Detran) do Estado de São Paulo. Na véspera do Dia do Automóvel, uma das grandes paixões nacionais, o JC aborda o lado lúdico dessa história com depoimentos de amantes das quatro rodas.


 “Gosto de todos os carros. Os modernos são velozes e fazem parte da vida cotidiana das pessoas. Já os carros antigos, para mim, são sonhos realizados. Eles desaceleram a vida”, define o médico oftalmologista José Carlos Tosi, que tem nos carros antigos mais do que um hobby: uma paixão.


Os sonhos que hoje se tornam reais nasceram na infância de Tosi, mais precisamente dentro dos carros que seu pai usava para trabalhar, como uma “baratinha” ano 1929. “Ele viajava e, quando voltava para casa, era aquela alegria. Eu e meus irmãos não saíamos de dentro do carro. Mas era um carro com motor fraco e eu ficava mentalizando que teria um igual, porém mais forte. E realizei esse sonho. Hoje tenho um carro como o do meu pai, mas três vezes mais potente”.


Um Ford 1940 também foi “montado” pelo médico para relembrar o do pai. Para deixar o carro 100% original, ele precisou comprar quatro exemplares. E assim os sonhos de infância de Tosi vão se realizando a cada automóvel montado. “Tenho até uma Romiseta restaurada que dizem ter sido dada de presente por Pelé ao seu pai, Dondinho. Já fui procurado por uma assessora do Pelé que queria levá-la para Santos. Não tenho certeza se é ou não. O homem que me vendeu disse que é, mas em todo caso, ela é minha agora”, brinca.

 

A paixão que virou profissão

 

Tudo começou quando o veículo foi comprado em 1999, em Brotas, onde estava em estado de abandono. “Restauramos tudo com nossas próprias mãos e hoje é a nossa relíquia”.


Mas o interesse de Frederico por antiguidades sobre quatro rodas surgiu ainda há mais tempo, quando ele viu algumas caminhonetes velhas restauradas e colecionadas em uma fazenda. Os exemplares chamaram a atenção do rapaz e ele comprou uma lambreta em um ferro velho.


“Restaurei a lambretinha e meu interesse pelo assunto só aumentou. Hoje tenho cinco carros restaurados por mim e meu pai”, conta. E foi quando o hobby virou profissão.



Profissão


Arrebatado pelo amor por carros antigos, Frederico passou a comprar e vender peças para esse tipo de veículo. Em 2009 ele montou uma loja especializada no Jardim Nicéia, onde também vende peças para decoração para bares e restaurantes, além de miniaturas de carros do passado. “É um comércio que atrai muita gente de Bauru e toda a região. São pessoas apaixonadas e fascinadas pela história automobilística”, destaca.



Especial


O modelo Chevrolet 1952 de Frederico brilha muito além da garagem do rapaz. O charme de seu automóvel embeleza encontros de carros antigos, desfiles e até casamentos, já que constantemente ele é usado para conduzir noivas à igreja. “É um carro que não tem preço, ou melhor, as pessoas não pagariam o valor dele. Eu até já restaurei carros para venda, mas não vale a pena”.  

 

Faz parte da família

Que atire a primeira pedra quem não tem um objeto de estimação guardado como verdadeira joia devido ao valor sentimental que representa para a família. Muito mais do que um meio de transporte, há automóveis que são considerados “membros da família” exatamente pelas histórias e caminhos percorridos por lembranças felizes.


Em muitos casos, esses carros são passados de geração a geração como herança dos bons tempos e como forma de perpetuar a memória dos que se foram. E há quem diga que é possível até matar a saudade e ver neles um pouquinho do ente querido já falecido.


O jornalista Luiz Teixeira cuida, atualmente, de uma relíquia de valor sentimental para a família, um Fusca 1973, 100% original e comprado pelo sogro, Agostinho Souza Lima, falecido há cerca de três anos. “Ele comprou o carro e o transformou em seu xodó. Ele o ‘alisava’ o dia todo”, lembra com bom humor.


E foi exatamente por essa paixão do sogro pelo Fusca que Teixeira e a família decidiram não vender o carro, mas sim mantê-lo em bom estado para, provavelmente, passar para o neto de “seo” Agostinho. “Meu sogro sempre gostou de Fuscas e este foi o segundo carro da família. Antes dele, quem reinou na garagem foi um modelo 1959. Como o carro ficou muito tempo parado, agora está em reforma, mas faço questão que todas as peças trocadas sejam originais”, ressalta.



Como fotografia


O modelo 1973 é como um álbum de fotografias da família, cheio de boas lembranças que não se perdem com o tempo. E há lembranças para todos. “Com minha filha, por exemplo, meu sogro gostava de pegar a estrada para um parque de diversões em São Paulo, o famoso  Playcenter. Fizeram isso muitas vezes. E ela adorava”, lembra Teixeira.


Em Bauru, a história da família com a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil também é lembrada quando se fala no Fusca. “Isso porque minha esposa e minha sogra trabalharam na Noroeste e meu sogro as buscava no trabalho todos os dias com o Fusca. E por cada caminho passado ficou uma lembrança do meu sogro. Impossível vender o carro. Faz parte da família”, aponta.  

 

Origem do Dia do Automóvel

 

Há muitas teorias sobre a criação do Dia do Automóvel, também conhecido como Dia da Estrada de Rodagem e comemorado no dia 13 de maio. A data foi criada no ano de 1934, por Getúlio Vargas.


Uma das versões diz que a data seria uma homenagem a Bertha Benz, esposa de Karl Benz, um dos criadores do primeiro carro para venda do mundo, o Benz Patent-Motorwagen - ou Motorcar.


Outra hipótese é de que a data comemoraria a produção do Belcar, tido como o primeiro carro de passeio brasileiro. O modelo da Vemag -Veículos e Máquinas Agrícolas S.A. teria motor 1.0 de dois tempos com bloco da também nacional Sofunge. A unidade número 1 do automóvel teria saído da linha de produção em 1958, ou seja, 24 anos depois do decreto de Getúlio Vargas.


Ainda há a terceira versão que fala sobre a abertura da primeira estrada pavimentada do Brasil. A rodovia que liga a cidade do Rio de Janeiro a Petrópolis, com cerca de 66 quilômetros e que foi inaugurada em 13 de maio de 1926.


O primeiro automóvel da história foi um veículo construído por Joseph Cugnot, em 1771. Tinha três rodas e era movido a vapor. Podia atingir a velocidade de 3,5 km/h. Em 1862, Étienne Lenoir desenvolveu o primeiro motor de combustão interna, utilizando gás. Seguindo essa sequência de sucessos nos experimentos, os alemães construíram, em 1889, aquele que é considerado o primeiro carro moderno: um automóvel movido a gasolina, já preparado para ser comercializado.


Entretanto, a popularização do automóvel só aconteceu em 1908, quando o norte-americano Henry Ford desenvolveu o famoso Ford T, chamado de “Fordinho”, que apresentava um custo muito mais reduzido devido à concepção da linha de montagem idealizada por Ford. Em cinco anos foram vendidas 250 mil unidades, mais do que todos os carros que circulavam antes da sua invenção. Foi esse o modelo que serviu de base à criação dos atuais automóveis.


 

A adrenalina da vida

Quando o assunto é automóvel, ou melhor, a paixão pelos carros, há opções para todos os gostos. Há quem não tire o automóvel da garagem e tome todo o cuidado do mundo para não sujar ou riscá-lo, e há quem goste mesmo é de pegar a estrada em busca de aventuras, seja por terra firme ou trilhas.  


O médico ultrassonografista Antônio Carlos de Araújo Telles Nunes pode ser chamado de “doutor aventura” porque descobriu no jipe uma maneira de escapar da rotina de diagnósticos que, muitas vezes, traz más notícias. “Eu uni o meu gosto por viagens com o prazer proporcionado pelas aventuras off-road. Canso-me fisicamente, mas libero a minha mente”.


Ele descobriu o prazer do off-road há muitos anos, quando o filho o convidou para rodar no jipe de um amigo. E Antônio Carlos confessa que, a partir daquele momento, foi picado pela mosquinha da aventura que o induziu a comprar um jipe bom de estrada para viagens longas.


E entre as rotas já percorridas por ele estão a Terra do Fogo, o deserto do Atacama, a Bolívia... “A gente sempre vai também para a Serra da Canastra, além de fazer muitas trilhas pelo Interior de São Paulo e de participar de encontros de jipeiros com o Jeep Club de Bauru”.



América Latina


A bordo de seu companheiro de quatro rodas, Antônio Carlos já desbravou a América Latina e afirma que a possibilidade de conhecer os costumes e a cultura de diferentes povos aumenta ainda mais a sua paixão pelo jipe.


“Quando estive na Patagônia, por exemplo, olhei para o céu e vi aquela imensidão de estrelas. Quando isso acontece, você se coloca no seu devido lugar e percebe como não é nada diante da grandeza da natureza”, afirma.  



Na estrada


E para quem pega a estrada em busca de aventura, histórias não faltam no roteiro. Entre as já colecionadas pelo “doutor aventura” estão os acampamentos no “meio do nada”, as visitas às pequenas cidades e vilarejos no meio do caminho, a descoberta de novos sabores com os pratos típicos dos povos desses lugares e a paz de espírito. “Os argentinos e os chilenos são pessoas muito hospitaleiras”.


Em terras desertas, a aventura é ainda maior. Nesses casos, a dica do médico para os aventureiros de primeira viagem é não esquecer o fogareiro e as sopas enlatadas.


“Uma dessas viagens eu fiz com um filho meu, uma oportunidade para estreitar o nosso laço de amizade. Com essas viagens, eu descobri que a humildade é uma virtude adquirida”, finaliza.

 

Neide Carlos

Aposentado, Jorge Oliveira se dedica integralmente à restauração de carros antigos

Fuscas de coração

Um, dois, três. Essa é a quantidade atual de Fuscas que o aposentado Jorge Oliveira tem em sua garagem. A paixão pelo modelo é antiga e o primeiro exemplar de “seo” Jorge foi adquirido em 1975: “Mas ainda não era um carro do jeito que eu queria ter”.


Carros especiais, diferentes, com peças originais e para exposição. Assim são os atuais Fuscas do aposentado que dedica o seu tempo livre ao hobby de comprar peças e “mexer” nos carros, transformando-os em itens de colecionar e para exposição.


Você já pensou sobre o que vai fazer depois da aposentadoria? Jorge contou os dias para se aposentar e se dedicar integralmente aos automóveis antigos. Ele mesmo compra os carros velhos, as peças e monta e restaura os veículos. E o aposentado não mede tempo nem dinheiro para colocar as mãos na lataria.


“Tudo o que sobra eu invisto em carro velho. Recentemente, eu comprei um caminhão ano 1966 e estou trabalhando nele, além de uma Brasília. Passo o dia todo com eles. Mas tenho sorte, porque minha esposa não briga comigo, ao contrário, ela também gosta muito de carros antigos”, revela, com bom humor.


Segundo ele, a razão desse amor todo por carros antigos vem do passado, porque são coisas que remetem à sua fase de menino, época em que ele queria ter, mas não podia comprar.



Atração do bairro


Um dos automóveis de “seo” Jorge, talvez o mais especial da coleção, está com ele há 13 anos: um Fusca 1963 que é atração no bairro onde ele vive, nova Esperança, principalmente entre os adolescentes. “Ah, os meninos ficam loucos. E eu gosto de incentivar o gosto dos jovens pelos carros antigos, porque hoje as pessoas tendem a dar valor apenas ao que é novo e moderno”.


E por falar em atração, ele junta a esposa e os netos para levar o “Fusca xodó” a eventos como exposições e encontros de carros antigos por toda a região. “O bom de participar desses eventos é que eu faço muitas e boas amizades com pessoas que têm o mesmo gosto”.


Entre as atrações do veículo estão as rodas de Audi, o capô dianteiro equipado com som e imagem, além do espaço destinado aos bancos traseiros que também receberam som.


“Também participei ativamente do Clube do Fusca de Bauru, onde tive a oportunidade de ajudar muitas entidades carentes da cidade com os eventos que fizemos”, acrescenta.  

 

Você sabia?

São considerados carros antigos os veículos que têm mais de 30 anos de uso. A placa preta identifica um veículo de coleção e para obtê-la, conforme as resoluções do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), o carro precisa ter sido fabricado há mais de 30 anos, conservar ao menos 80% de suas características originais de fabricação e, no mínimo, 70% do estado de conservação, integrar uma coleção que pode ser particular ou de um clube e apresentar certificado de originalidade reconhecido pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).


Os veículos portadores de placa preta (veículos de coleção) têm livre trânsito em todo o território nacional, dispensa da inspeção veicular e do uso de equipamentos obrigatórios homologados posteriormente à fabricação do veículo - ou seja, deverá manter apenas os itens obrigatórios originais, além de ter o seu valor histórico reconhecido.



Fonte: www.carroantigo.com

Neide Carlos

O carro preferido do comerciante Frederico Costa Munhoz não é o mais potente ou o mais moderno do mercado, mas sim um charmoso e elegante Chevrolet ano 1952, carro restaurado por ele em parceria com o pai

Malavolta Jr.

Romiseta restaurada que dizem ter sido dada de presente por Pelé ao Sr. Dondinho, pai do oftalmologista José Carlos Tosi.