08 de julho de 2026
Geral

Feirantes prometem impacto no comércio

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 11 min

As feiras livres de Bauru buscam uma fase de revitalização do mais charmoso e tradicional estilo de comercializar produtos fresquinhos no mundo. A Associação dos Feirantes de Bauru (AFB) busca apoio junto à Prefeitura de Bauru para tirar do papel o projeto “Vida Nova para as Feiras Livres”.


A feira é o lugar em que verdadeiramente o consumidor gasta saliva ao praticar sua habilidade de “pechinchar”, enquanto o feirante usa do marketing popular para vender seu produto. No final da negociação, ninguém sai da feira de sacola vazia ou com produto perecível encalhado.


Feira livre tem enredo próprio com começo, meio e fim e todos satisfeitos. Quem perdeu a feira tem que esperar uma semana ou correr para outra no dia seguinte no bairro vizinho ou na mesma região. Há quem prefira pagar mais caro indo nas primeiras horas da manhã. Outros deixam para chegar no “fim de feira” com a promessa de aproveitar os preços de ocasião.


Atualmente, atuam nas feiras livres de Bauru somente 37,5% dos feirantes que integram o cadastro da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra). Esse número corresponde a 150 comerciantes de um total de 400 cadastrados, conforme os arquivos da Sagra. Matéria do JC de 2007, registra existência de 220 famílias atuando em 25 feiras livres distribuídas em 19 bairros. Atualmente, a cidade possui 33 feiras em 23 bairros e funcionando de terça-feira a domingo. O Centro e o tradicional Jardim Bela Vista concentram nove pontos de comercialização ao ar livre.


A Associação dos Feirantes contabiliza em média de 100 a 110 associados. O presidente da Associação dos Feirantes Moisés Bastos admite certa evasão de feirantes nas últimas décadas. Contudo entende que o número não é significativo já que outras pessoas iniciaram no comércio.


A motivação para encerrar o negócio na feira livre é a ida da nova geração de descendentes para o Japão nos anos 80 e 90 em busca de uma condição de trabalho mais lucrativa. No entanto, parte desse pessoal voltou e retomou o negócio da família na feira livre, conforme constatou a reportagem do JC ao contar um pouco da trajetória de um ramo da família Okama.  


Projetos


A Associação dos Feirantes se mobiliza para implementar projetos que dinamizem a relação feirante-consumidor. Bastos cita que segue o projeto de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS) para incrementar a apresentação dos produtos e os serviços oferecidos ao consumidor. Moisés conta que o DRS já possibilitou, em uma primeira etapa, financiamento para os associados da AFB.


O próximo passo é a padronização das bancas e uniformização dos feirantes. As bancas ganhariam as saias, harmonizando o conjunto visual de barracas distribuídas pelos quarteirões das ruas. Há também a intenção de arborização dos espaços de feiras livres. “Já encaminhamos para o pessoal (poder público) o ‘Vida Nova para Feiras Livres”, ressalta Bastos. Ele espera contar com a parceira da Prefeitura de Bauru, mas compreende que o novo secretário municipal de Agricultura Chico Maia ainda está estabelecendo contato com todos os setores produtivos ligados à agricultura em Bauru, inclusive conhecendo a realidade de feiras livres em Bauru.

 

Novas feiras

O JC obteve informação de que os comerciantes interessados em atuar nas feiras procuram a Sagra. Segundo apurou a reportagem, 20 novos feirantes se cadastraram na secretaria nos últimos 40 dias. De acordo com a Sagra, há o maior interesse da pasta de atender as reivindicações dos feirantes pelo interesse do município em escoar a produção da agricultura familiar em Bauru.



‘Praça é tendência das feiras’


Enquanto os associados da Associação dos Feirantes de Bauru (AFB) e os independentes reivindicam melhorias de estrutura, a Sagra também revê seu conceito para implementar novos pontos de feiras livres.


Em contrapartida, os consumidores também solicitam a instalação de novas feiras. Uma nova começou a atender os consumidores do Jardim Brasil no final de abril. A mais nova feira livre funciona em uma praça, na quadra 29 da rua Joaquim da Silva Marta, esquina com a Travessa Nereid Arruda dos Santos e rua Piauí.


Outra feira já tradicional no Jardim Europa deverá mudar para uma praça. De acordo com a Sagra, a realocação da feira, mudança acordada com fregueses e feirantes, pretende aproveitar a estrutura do espaço das praças inaugurando uma nova tendência em Bauru.  


Exemplo dessa nova tendência é a Feira Agroecológica instalada na quadra 1 da rua doutor Fuas de Matos Sabino, próximo da avenida Getúlio Vargas, que acontece todas às quintas-feiras a partir do meio da tarde até por volta das 20h.


A novidade de produtos orgânicos atrai gente de todas as partes da cidade. Feirantes e frequentadores se beneficiam dos bancos e da sombra das árvores da praça Nabih Gebara.

 

Feira é dinheiro à vista

Uma razão para que a feira livre não acabe é a vantagem econômica peculiar da atividade de comercialização. Moisés Bastos, presidente da Associação dos Feirantes de Bauru (AFB), cita o fato do comerciante não pagar aluguel, receber à vista e vender um produto de qualidade a um preço justo.


O feirante e o consumidor assíduo das feiras mantêm uma relação especial de barganha e negociação. Bastos comenta que há casos de pessoas que têm crédito com o feirante e levam a mercadoria para pagar na semana seguinte, numa situação de confiança.


Ele defende que, para a saúde do negócio familiar, o produtor não deveria fornecer mercadoria para receber com prazo muito alongado, como ocorre com o produtor fornecendo para o varejo. Ele próprio vivenciou a experiência dramática para as suas finanças ao comercializar seus ovos de codorna com até 45 dias de prazo para receber o cheque.   


“Teve uma rede supermercadista que foi embora de Bauru e ficou devendo para um monte de produtor. Hoje, tem vários que estão vendendo na feira e nem para mercado entregam mais. É o caso do pessoal que planta na Barra Grande (região rural de Bauru). Donos de mercados pequenos imploram para eles um pouco de verdura”, descreve Bastos, em defesa dos produtores com comercialização direto nas feiras.


Bastos esclarece que é normal, como nas últimas semanas com queda da temperatura no outono, feirantes não terem produto para colocar nas bancas. Ele cita que um grande produtor de verduras que vem de Duartina fazer o circuito de feiras em Bauru teve escassez do produto e não compareceu durante alguns dias. Esse produtor ilustra bem a situação de que não é vantajoso percorrer grandes distâncias com pouca mercadoria pois não compensa o prejuízo do deslocamento.



Evasão de feirantes


Para enraizar os descendentes e frear a evasão das novas gerações de feirantes, o atual governo e a Associação dos Feirantes de Bauru (AFB) desenvolveu o Jovem Aprendiz do Campo, juntamente com outras parcerias. O gosto pelo comércio ao ar livre, além da boa rentabilidade, caracteriza-se pela atividade que passa de geração em geração. São pequenas propriedades que os netos tocam após aprenderem com os pais que receberam os ensinamentos dos avós. Em um ciclo natural, as famílias consolidam nas novas gerações a cultura que mantém viva as feiras livres, diariamente nas cidades.


Além de presidir a AFB, Moisés Bastos Bastos integra o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Comsea), fórum de participação comunitária em que já solicitou a continuidade do Jovem Aprendiz do Campo em recente reunião do órgão.


O curso, promovido de 2009 a 2012, atendeu jovens de 14 a 18 anos incompletos (ambos os sexos), filhos ou parentes de agricultores.


O curso disseminou práticas agrícolas e veterinárias, como a horticultura, fruticultura, criação de frangos, suínos e ovinos, produção de leite, manejos de pastagens, de maquinários e implementos agrícolas, até a inseminação artificial.


Bastos comenta que o curso incentiva a implementação de novas atividades produtivas, não necessariamente, as mesmas desenvolvidas pela família. Isso se dá com o aprendizado de técnicas que podem agregar valor aos produtos. Como exemplo cita a safra da goiaba que pode virar uma goiabada.


Uma das práticas comuns atualmente é o produtor de mandioca comercializar nos restaurantes o produto descascado. De acordo com Bastos, o pessoal da feira entrega várias toneladas de mandioca com valor agregado a cada mês. “Isso é o que a gente almeja na luta por melhoria para as feiras livres”, salienta.

 

Filhos da feira ao ar livre

Comércio familiar mantém tradição que passa de pai para filho e renova o ciclo de vida das feiras livres

 

Os jovens Ricardo Okama, 42 anos, e Ariane Onohara, 27 anos, representam a continuidade familiar da barraca na feira livre. Ricardo é descendente da linhagem Okama com pequenos produtores rurais. Ele é filho do casal Kaname e Missa Okama e neto de Dioa Okama, que tinha uma chácara hoje tocada pelo tio de Ricardo.


O jovem conta que nasceu na feira. Relembra que entre 8 e 10 anos de idade começou na feira. Ele guarda muitas recordações dessa época em que mais corria entre as bancas do que ajudava. Às terças-feiras, seus pais montavam a barraca na rua Sete de Setembro, em frente à Igreja Santa Terezinha. Posteriormente, o comércio ao ar livre migrou para a 13 maio.  


Ricardo seguiu os passos da família de feirantes. No meio do caminho, ele passou uma temporada trabalhando no Japão. Ao retornar a Bauru assumiu a banca de hortifrúti dos pais. Ele abastece a banca no Ceasa. Seu tio seguiu outro caminho e fornece para supermercados couve, hortelã e cebolinha produtos que saem da chácara em Bauru.


Moisés Bastos se refere a Ricardo Okama como uma bem-sucedida transição de pai para filho na feira. “É nosso xodó”, pontua.


Imortal


A feirante Terezinha Onohara, 51 anos, garante que a feira não morrerá. Na família, os cunhados têm bancas. Terezinha trabalha com a filha Ariane na barraca de hortifrúti há pelo menos 15 anos. Mãe e filha são o elo de continuidade da tradição de família de feirantes. “As vendas estão boas”, comenta a feirante, enquanto a filha arruma dos legumes nas caixas.


Os feirantes Terezinha e Ricardo admitem que a concorrência dos sacolões nos supermercados  atrapalhou um pouco a frequência da freguesia.

 

Químico que virou feirante

O feirante Moisés Bastos, 48 anos, vem de família de pequenos produtores rurais. Como sua irmã tinha uma propriedade nas proximidades de Piratininga, ele manteve contato eventual com produtores que vendiam na feira. Em conversa com o pessoal, ouvia que a atividade financeiramente era garantida. “Era como café com leite: ‘pinga mais não seca’”, relembra.


O cunhado vendeu a propriedade rural. Bastos trabalhava como químico em uma indústria de baterias automotivas de Bauru. Porém ele não leva o nome “Bastos por acaso. O município de Bastos é considerado “Capital do Ovo” pela grande produção do produto que tem tradicional festa anual.


Moisés Bastos aceitou um convite de sociedade com um amigo para produção de ovos de codorna. Pegou gosto pela atividade rural e constituiu seu próprio negócio adquirindo uma chácara e instalando uma granja na propriedade.


Um amigo de Piratininga orientou Bastos a vender suas frutas na feira livre. Ele já completou 20 anos de feira livre com uma banca que oferece aos clientes ovos caipira e de codorna, frango caipira e temperos diversos.

 

Ambiente eclético

 

A feira livre é um espaço propício para comercialização de produtos frescos e uma variedade de outros produtos e serviços. Tem queijos, doces e produtos em conserva além dos hortifrutigranjeiros. Pode agregar banca de roupas, acessórios a utensílios domésticos.


A feira nas manhãs de domingo na rua Gustavo Maciel, Centro de Bauru, pode ser considerada o protótipo mais bem acabado do que se denomina feira ao ar livre. Mais completo porque possui fregueses cativos e o desfile de personagens que batem ponto todos os domingos. Todo tipo de gente frequenta os quarteirões da feira mesmo que não vá adquirir alimento algum ou somente para comer o famoso pastel de feira.


A advogada Andrea Ferreira, 43 anos, prefere compras nas feiras livres. Aos domingos, ela vai na da rua Gustavo Maciel. Na última terça-feira, aproveitou a proximidade do trabalho com a feira na quadra 2 da rua Manoel Bento Cruz, nos Altos da Cidade, para compras. Adquiriu verduras frescas e outros produtos. Ela considera que seria interessante melhorar a estrutura das feiras de Bauru.


Pastel


O comerciante Ivan Ribeiro, 27 anos, foi à feira para comprar massa de pastel para o seu comércio – um café – que fica nas proximidades da Manoel Bento Cruz. Na semana passada, ele antecipou a compra da massa para o saboroso salgado servido em seu estabelecimento. Ivan costuma adquirir o produto semanalmente às quintas-feiras, na feira montada na rua Floriano Peixoto, uma quadra acima da avenida Duque de Caxias.


A estudante Giedra Cancian, 19 anos, frequenta a feira para comer o delicioso pastel. Sua preferência é adquirir o produto aos domingos na da Gustavo Maciel. Mas como trabalha perto da feira da Manoel Bento Cruz aproveitou para levar ao escritório deliciosos pastéis de feira.



Política


A feira é ambiente de encontro e os políticos de Bauru criaram um ponto fixo na Gustavo Maciel suprapartidário para troca de ideia, lançamento de candidaturas e debates.


Na época de eleição municipal, principalmente, a feira é espaço de corpo a corpo dos candidatos com a população. É também para que o político sinta a temperatura da campanha e a percepção do eleitorado de como será o voto.