Que papel as mães de hoje estão exercendo na educação dos filhos? Com a vida corrida e exigente, o esforço para manter o lado profissional e social, a mulher moderna ainda busca na maternidade a sua realização pessoal e vive na corda bamba para dar conta de tantas responsabilidades de maneira plena e satisfatória. Mas para onde caminha a relação mãe/filho? Qual educação está sendo dada às crianças que nascem em meio a esse borbulhar de informações e perspectivas?
Especialistas ouvidos pelo Ser são unânimes em afirmar que o que falta não é tempo, mas sim dedicação ? a chamada "qualidade" no relacionamento, o saber ouvir e o ensinar. Faltam também coragem e força para impor limites. Sobram culpa e medo de errar (leia mais nas páginas a seguir).
As mães de hoje recebem uma série de informações junto com aquele "pacotinho" que sai da maternidade embrulhado numa linda manta bordada. São livros, sites, blogs, aplicativos no smartphone e uma enxurrada de dicas e manuais de instruções para os momentos críticos... Ainda assim (ou por isso mesmo), a insegurança aumenta e a firmeza diminui. E mesmo aquelas que se consideram rígidas nas regras e planejamentos admitem que às vezes cedem à pressão e se perdem em meio à postura exigida na criação de um filho.
A psicóloga clínica Sandra Zanetti, mestre e doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP), observou, em sua dissertação de mestrado, um aspecto interessante desse novo modo de criação dos filhos. Ela levantou a questão de que o excesso de informação recebida pelos pais sobre a maneira de educar os filhos os têm tornado fragilizados diante da criança. "Os estudos ressaltaram as necessidades e os direitos dessas crianças, procurando a todo custo sensibilizar os pais que outrora lidavam com seus filhos com autoridade e autoritarismo. Nessa busca pela sensibilização dos pais, não se deram conta de que estavam combatendo autoritarismo e autoridade de uma forma indiscriminada e acabaram por deslegitimar um ?saber natural? dos pais de agir como achavam que tinham que agir com a criança", ressalta.
Hoje em dia, segundo ela, discursos especializados em todo canto da mídia ditam as normas para esses pais. "Temendo ser mais firmes ou severos com as crianças em função dessa falta de saber o que é certo, os pais sentem-se culpados e ficam paralisados em suas funções de educadores, como aquele que se responsabiliza pelo outro com base num conhecimento que o outro não tem."
Em sua dissertação, Sandra Zanetti conclui que "os va lores contemporâneos de democracia, igualdade e de maior liberdade à criança passaram a compor o cenário que caracteriza a família contemporânea, levando os pais atuais, naturalmente, a questionarem princípios que se opõem àqueles: de hierarquia e autoridade."
No entanto, ela ressalta que esse fenômeno de fragilização ocorre quando os pais não tem discernimento para assimilar os novos padrões da sociedade. "Acredito que se esses princípios nunca tivessem sido questionados pelas ciências do comportamento, é provável que os índices de crianças com grandes dificuldades frente à imposição do limite não fossem tão altos hoje em dia. Porque dar maior liberdade à criança não seria um procedimento ?naturalizado? ou aceito culturalmente e os pais que assim agissem seriam questionados pela sociedade e estimulados a repensarem suas práticas educativas ou suas dificuldades frente a elas."
Reavaliando necessidades
Depois de conquistar o mercado de trabalho, num processo que levou décadas e vem se consolidando dia a dia, a mulher, agora, chegou a um momento de reflexão. Nota-se um movimento de regressão a antigas posturas. "Vejo muitas mulheres optando por diminuir o ritmo de trabalho para poder passar mais tempo com os filhos", destaca a psicóloga Flávia da Silva Ferreira Asbahr, docente do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru .
A estudante de psicologia Adriana Serrano passou por esse processo recentemente. Jornalista, ela conciliava sua profissão com a faculdade de psicologia, os cuidados com a casa e a pequena Julia, sua filha que atualmente tem 5 anos. Mas numa decisão muito bem ponderada e avaliada, ela decidiu pedir demissão do emprego e focar nos estudos e na educação da filha. "Foi difícil, porque desde que me formei (há 11 anos) nunca tinha ficado sem trabalhar. Tive que reorganizar o orçamento, fiquei meio perdida no começo, sem rotina, parecia que aquela vida não era minha. Mas hoje, um ano depois, tenho certeza absoluta que tomei a melhor decisão da minha vida. Não me arrependi um dia sequer", conta.
Hoje, prestes a concluir a segunda graduação, Adriana ainda corre bastante e não fica o tempo todo com Julia, mas a rotina das duas preserva momentos de muita cumplicidade e dedicação. "Logo na primeira semana em que eu saí do emprego, a professora dela me perguntou o que tinha acontecido que ela estava tão radiante. A Julia ficou muito mais segura com a minha mudança de vida. Ela era um botãozinho e agora desabrochou", revela a mãe.
A maternidade responsável requer uma retomada de valores, mas tudo bem dosado ao modelo atual. Embora não fique boa parte do dia com os filhos, os pais precisam ter consciência que é deles o dever de formar os valores éticos e morais nos filhos. À escola, cabe a educação acadêmica e a socialização secundária, ou seja, a introdução desses pequenos a um novo meio, o coletivo, que inclui escola, grupos de amigos, clubes.
"Quando cada um desempenha bem seu papel, a criança se torna mais segura e tranquila", afirma a psicóloga infantil Marly Bighetti.