08 de julho de 2026
Ser

A era dos pequenos tiranos

Rose Araujo - Especial para o JC
| Tempo de leitura: 2 min

A educação moderna passa por uma crise de valores. Para muitos filhos, não está claro de quem é a autoridade na relação e o que vemos é o surgimento de uma legião de pequenos tiranos, crianças que não aceitam ordens e estabelecem seus próprios princípios. "Saímos de uma educação tradicional para tentar chegar a uma educação democrática, mas muitas famílias não conseguiram alcançar esse objetivo. Deixamos para trás um modelo patriarcal para termos hoje o filharcal, no qual a criança é quem manda", ressalta a professora Ester Petroni, do Departamento de Psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC).

Muito disso se deve à falta de firmeza na hora de educar. Sem tempo para se dedicar à casa e aos filhos, muitos pais acabam fazendo as vontades dos pequenos sem questionar para satisfazê-lo momentaneamente e ter um pouco de paz enquanto estão em sua companhia. Esperando ser um bom pai, uma boa mãe, muitas pessoas estão cedendo às vontades dos filhos sem colocar limites, regras, questões morais. Os pais renegam o autoritarismo do passado, mas não encontraram ainda o modelo de autoridade necessária. "Todo ser humano precisa da autoridade da família. Isso dá segurança. É através disso que os pais realmente demonstram o quanto o filho é importante para ele", frisa Ester.

A psicóloga Flávia da Silva Ferreira Asbahr, docente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, lembra que muitos pais têm dificuldade de falar não para os filhos, o que é um grande equívoco. "As crianças precisam de firmeza e segurança em sua educação. Quando percebem que há uma brecha, elas jogam com isso e invertem os valores."

Para exemplificar, ela cita a questão da chantagem emocional como um grande deslize de pais e mães. Isso ocorre, por exemplo, quando o pequeno não quer se alimentar direito e, para fazer o filho comer, os pais acabam prometendo presentes ou pequenas recompensas a eles. Nesse momento, a questão da autoridade desmorona, pois a criança percebe que a vontade dela é soberana e começa a jogar com os pais. "Essa crise de autoridade se espalha pela sociedade. Hoje, os professores reclamam muito dos ?pequenos reizinhos? que chegam à escola sem aceitar não como resposta", frisa.


É importante lembrar que a formação do caráter e da ética dos seres humanos acontece justamente na socialização primária, ainda no seio da família. "A família educa, a escola ensina", resume Flávia. Assim, é necessário que os pais tenham tempo e disposição para passar valores e ensinamentos aos filhos desde muito cedo. E isso se dá também pela negação e pela autoridade. "Os pais precisam deixar claro o que esperam dos filhos, mostrando que existem consequências para todos os atos. Isso tem que ser colocado de forma dialogada, mas com firmeza", explica Ester.

As crianças de hoje crescem em um ambiente mais aberto a diálogos e no qual suas opiniões são valorizadas, diferentemente do que ocorria há décadas passadas, quando existiam determinações mais rígidas de espaço entre adultos e crianças. Essa porta aberta tem permitido até que os pequenos influenciem diretamente em assuntos que seriam de total responsabilidade dos adultos, como aquisição de bens e decisão de ter outro filho. "Existem pesquisas que mostram que 40% das compras feitas pelas famílias são demandas das crianças. Elas determinam até a cor do carro ou para onde a família deve viajar", ressalta Flávia.

Toda essa força precisa ser bem medida e discutida, já que esse ser ainda está em formação intelectual e de valores. Teria ele tanta propriedade e entendimento para fazer esses tipos de escolha?

"Trocamos o ser pelo ter, tudo pode hoje em dia!", salienta a professora Ester. Isso está fazendo com que as crianças fiquem sem um direcionamento claro de sua vida. Ao chegar na escola, onde começa a viver os primeiros conflitos sociais, ela se perde e não sabe lidar com as adversidades, não respeitando ordens e regras.

Como será o amanhã?

A psicóloga clínica Sandra Zanetti, mestre e doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, ressaltou em seu artigo "A ausência do princípio de autoridade na família contemporânea brasileira" que a família passa por um momento de perda de referenciais. "O modelo recebido nas gerações anteriores parecem obsoletos e novas estratégias ainda não parecem eficazes", destaca. Buscando não repetir padrões antigos, os pais tentam imprimir uma nova ordem em casa, mas ainda não sabem muito bem qual seria ela.

A redução da autoridade gera indivíduos que assimilam ser "sujeitos de direitos, dentro e fora da unidade doméstica, ficando em segundo plano a condição de sujeitos de deveres", cita a autora.

Sem ter um referencial em casa, os filhos acabam buscando modelos de autoridade em qualquer parte. Até mesmo na televisão, a grande companheira durante boas horas do dia. "As propagandas nos canais infantis mostram que a felicidade está no ter, e não no ser. Se você não tem aquela bota, aquele brinquedo, você não vai ser feliz. Esse é o modelo que as crianças acabam absorvendo quando não têm uma estrutura forte em sua família", ressalta a psicóloga - e mãe - Flávia da Silva Ferreira Asbahr.