08 de julho de 2026
Ser

A educação pelo olhar do filho

Rose Araujo - Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisas, estudos, feeling dos pais... tudo isso foi abordado até aqui. Mas, como os protagonistas dessa história enxergam o modelo de educação que estão tendo hoje? O Ser reuniu seis adolescentes na faixa de 11 a 16 anos e ouviu a opinião deles sobre o comportamento dos pais. Da conversa nasce um alerta: o diálogo é fundamental sempre!

Dos seis jovens, apenas um tem a mãe em casa em tempo integral (embora ela faça alguns trabalhos voluntários e precise sair durante a semana por conta disso). Os demais sempre conviveram com a ausência da mãe ao longo do dia, tendo avós, babá ou empregada como cuidadores. "Eu estou acostumada com isso, mas meu irmão de 6 anos sente muito a falta da minha mãe", revela Bianca Contador Paschoal, 16 anos.

No geral, eles dizem que queriam que os pais ficassem mais em casa. No entanto, comentam que o grande dilema é a falta de aproximação. Segundo disseram, no pouco período que passam em casa, os progenitores estão sempre cansados e estressados. E eles sentem isso por parte dos amigos também. "Eles querem descansar a cabeça e ficar em silêncio, colocando a casa em ordem. Não dá para ficar perguntando as coisas nem pedindo nada", queixa-se um dos entrevistados.

De acordo com os adolescentes, os pais andam com o "pavio curto" e não conseguem aproveitar o tempo que ficam com os filhos. Essa situação melhora nos momentos de lazer, quando sentem os pais mais descontraídos e abertos a conversas e brincadeiras.


Regras inconstantes

A maioria dos jovens ouvidos é unânime em afirmar que os pais são rígidos com relação à educação. "Lá em casa, as refeições têm de ser feitas na mesa, com todo mundo junto. Minha mãe faz questão", frisa Bianca. O mesmo afirma José Américo Neto, 13 anos.

Ficar no Internet o tempo que quer? Nem pensar! Os pais vigiam e colocam horários para navegar na rede, bem como fazem questão de ter senha das mídias sociais e acompanhar de perto o que eles andam fazendo no mundo virtual. Claro que, sendo adolescente, é difícil aceitar isso. "Os pais deviam confiar mais nos filhos e na educação que estão dando, e não ficar proibindo", diz um dos entrevistados.

Por outro lado, às vezes as regras tornam-se flexíveis demais e confundem a mente dos meninos e meninas. "Não vejo sentido em algumas cobranças. Uma hora minha mãe manda sair da frente do computador e ir jogar bola, andar de skate; quando faço isso, ela reclama que só fico na rua. Não sei o que fazer!".

Noé Ferreira de Amorim, orientador psicológico do colégio onde o grupo de entrevistados estuda, acompanhou o bate-papo e opinou: "Os pais - e não me refiro aos dos entrevistados, mas à maioria - não estão sabendo como lidar com essa nova geração. Houve uma mudança muito rápida de algumas décadas para cá. A tecnologia fez tudo evoluir de forma intensa e apressada e gerou uma insegurança grande no que diz respeito à educação dos filhos", frisa.

Ele comenta que a educação rígida de antigamente não cabe mais nos dias de hoje, pois as crianças têm um entendimento mais amplo do mundo e cobram sua liberdade de escolhas. "Porém, é extremamente necessário passar valores para os filhos, propiciando que eles, no futuro, saibam resolver sua vida de forma independente", esclarece.

Ah, a adolescência...

Essa fase da vida é marcada por muitos conflitos, como todos sabem. Saindo da infância e prestes a alcançar a difícil vida adulta, os jovens que estão nessa fase começam a colocar à prova tudo o que aprenderam em casa. E, embora rejeitem ser tratados como crianças, sentem falta do modelo de educação que era vigente até então.

Um dos entrevistados questionou justamente esse ponto: "Quando a gente é criança, os pais dão tudo na mão, não cobram nada, dão carinho e atenção. Daí a gente cresce e, de repente, não tem mais nada disso! Ficam só as cobranças, tem que acertar em tudo, não pode pedir, questionar nada que os pais perdem a boa", comenta.

Noé Ferreira de Amorim, orientador psicológico, lembra que os pais precisam investir na relação com o filho, mesmo depois que ele deixa de ser criança. "Eles também querem atenção, querem ser ouvidos e ter mais liberdade para fazer as coisas. Mas os pais precisam avaliar e considerar o que eles já são capazes de fazer."

E, na hora de ter um posicionamento mais austero, a conversa ainda é o caminho mais eficaz. "Quando levo bronca, sofro mais do que quando apanho. Bate aquele peso na consciência, sabe? Acho que entendo melhor o que meus pais estão querendo me passar. Tapa não resolve", destaca um dos entrevistados.

Outro comentou, em tom de brincadeira, que prefere apanhar da mãe do que ouvir o sermão do pai. "Meu pai pega pesado, fala umas coisas que me fazem refletir e tentar mudar. Fico mal. Agora, apanhar dá raiva e não surte o efeito que eles querem".

Noé ressalta que o mais importante na hora de educar é transmitir princípios de honestidade, respeito, cuidado com o outro e com o patrimônio. "Os princípios são passados pelos exemplos e pela conversa. "Temos que refletir sempre: qual o legado estou deixando para o meu filho? O que vamos deixar ?nele? e não ?para ele?".