Ensinar um bebê a andar é um prazer para a maioria dos pais. É um tal de cai e levanta sem-fim, mas que proporciona um imenso prazer quando o pequeno ganha o mundo com seus passinhos inseguros e determinados. Assim também deveria ocorrer na educação de maneira geral. O papel dos pais é bem claro, mas hoje anda se confundindo com o dos avós, da babá e da escola, pois esses acabam participando por mais tempo da vida das crianças.
"A socialização primária é dever do pai e da mãe. São eles que vão passar os valores da família, a ética, o que pode e o que não pode fazer. Eles são a referência do filho para qualquer padrão de comportamento", explica a psicóloga Flávia da Silva Ferreira Asbahr, docente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
É nesse processo que se formam os conceitos de mundo, de sociedade, do outro e, quando essa mecânica falha, deixa marcas profundas no desenvolvimento da criança. Por isso, é preciso alertar: "família educa, escola ensina", frisa Flávia.
Deixando mais claro esse processo, segue uma pequena divisão de tarefas, diferenciando o papel de cada um na educação das crianças:
? Pais: referência de vida para as crianças. Mesmo fora de casa o dia todo, é nos gestos e na postura diante da vida que eles passam valores para os filhos. Tem o dever de ensinar o que é certo e o errado, colocar limites e mostrar o caminho da boa convivência em sociedade. "Os pais têm de educar, formar (o indivíduo) dentro dessa educação e acompanhá-lo por toda a vida", frisa a professora Ester Tereza Senger Petroni, do Departamento de Psicologia da Universidade do Sagrado Coração (USC).
? Avós: taí um assunto que gera polêmica. Com os pais trabalhando o dia todo, muitos avós assumem os cuidados com o neto quando ele ainda é bebê. São eles que conversam, explicam noções de convivência, precisam colocar limites... Nesses casos, não há como diferenciá-los dos pais. "Se são os avós que assumem essa responsabilidade, eles terão a mesma função dos pais. Não podem ?deseducar?, deixar a criança fazer o que quer", ressalta Flávia. Mas ela faz uma ponderação: a responsabilidade principal ainda é dos pais. Os avós irão auxiliá-los na tarefa, mas ainda continuam sendo uma figura mais "branda" na vida da criança. "São eles que costumam contar a história da família, ser o elo entre o passado e o presente, fazer os mimos que os pais geralmente não conseguem por falta de tempo...".
? Professores: figura importantíssima no desenvolvimento da criança. Passa boa parte do dia com ela, tem a obrigação formal de ensinar e abrir os horizontes, mas será que é deles também a função de educar e incutir valores morais e éticos? "O professor colabora na formação da criança, mas não podemos delegar a ele a responsabilidade do educar. Temos que caminhar juntos ? família e escola", ressalta Ester.
? Babá: grande parceira dos pais na educação, é dela a função de dispensar cuidados básicos às crianças. Na fase em que ainda são bebês, ela vai se responsabilizar por trocas de fraldas, banho, alimentação. Porém, quando chegam ao período de desenvolvimento intelectual, surge a dúvida: cabe a ela ensinar o comportamento ideal para a criança? Segundo Flávia, num primeiro momento, ela não teria essa função, mas como fica boa parte do tempo com a criança, não tem como separar as coisas. "Elas acabam sendo educadoras também, pois estão ali, no dia a dia da criança. É de extrema importância passar a ela o que se espera da educação dos filhos, mostrar os valores da família para que ela possa colaborar e ser parceira", explica a psicóloga.
Quantidade x qualidade na educação dos filhos
És um senhor tão bonito / Quanto a cara do meu filho / Tempo, tempo, tempo, tempo...". A música de Caetano Veloso resume uma relação de angústia e prazer com esse velho conhecido: o tempo. Na vida em família, ele é cada vez mais raro e precioso. Por isso, hoje, muitos pais se apegam na velha máxima de que qualidade é melhor que quantidade quando o assunto é ficar com os filhos.
Essa qualidade pode ser definida como momentos de total interação e sintonia com os filhos, quando a mãe para para escutá-lo, dá atenção, ajuda nas tarefas escolares, brinca ou simplesmente faz carinho e assiste um filme com os pequenos. Gestos simples e corriqueiros, mas que acabam não tendo espaço nas agendas cada vez mais atribuladas de pais e filhos.
"Não é necessário passar as 24 horas do dia com o filho para conseguir suprir essa necessidade de contato. Basta se dedicar", ressalta a professora Ester Tereza Senger Petroni, do Departamento de Psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC).
E como conseguir colocar mais hora no dia para esses momentos fundamentais com os pequenos? Christian Barbosa, maior especialista no Brasil em administração de tempo e produtividade, mostra o caminho: "planejamento e execução". É preciso focar nessa necessidade de contato com as crianças e reservar momentos exclusivos para elas. "Se você não preenche o tempo dos seus filhos, alguém vai fazer isso por você. Faça do hoje um tempo que, quando você tiver 90 anos de idade e olhar para trás, tenha orgulho", aconselha.
A estudante de psicologia e jornalista Adriana Serrano planejou, executou e hoje colhe os louros desse processo. Há um ano, ela tomou uma decisão radical, mas que mudaria sua vida. Pediu demissão do emprego para ter mais tempo para outros setores da sua vida: a faculdade (que estava entrando na reta final), a casa e o principal: os cuidados com a filha Julia, de 5 anos. "Estou muito satisfeita com a qualidade da nossa relação - e acredito que ela também. Sinto que somos realmente muito amigas. Não sinto que haja excesso nem falta. Estamos seguras da presença e da amizade uma da outra, e isso traz muita paz", salienta.
Isso não significa que ela fique o dia todo com a menina. Adriana ainda mantém uma rotina atribulada, que inclui as aulas na faculdade, atendimento aos clientes, relatórios, leituras, e precisa recorrer à ajuda do marido, da babá e até da faxineira para dar conta de tudo. Mas aprendeu a valorizar os momentos com a filha. "Nossa vida continua corrida, não fico com a Julia o tempo todo, às vezes tenho que ficar menos, às vezes posso ficar mais, mas nós duas sabemos que o nosso tempo uma na vida da outra está garantido. Não quero que isso mude jamais!"
Filho único
Mãe de quatro filhos, Vera Cristina Cardoso arrumou um jeito criativo de dar mais atenção à prole. Ela instituiu o Dia do Filho Único. Nesse dia, ela dedica atenção total para apenas um deles: leva no shopping, no cinema, passa uma tarde toda ao lado da criança, conversando, brincando e se divertindo. "Tive essa ideia depois que percebi que sair com todos juntos era complicado. Todos exigiam atenção ao mesmo tempo e eu acabava estressando. E também tem o lado financeiro. Levar a turma toda no cinema ou na lanchonete fica uma fortuna", frisa.
Ela acredita que isso valorizou bastante a relação com cada um dos filhos, pois eles se sentem especiais nesse dia e aguardam com ansiedade a sua vez de curtir a mãe.
Já a jornalista Glauciana Monteiro Nunes foi mais radical. Mãe de Eduardo, 5 anos, e Luca, 3, divorciada e vivendo na loucura da capital paulista, ela tomou uma decisão que mudou totalmente a sua vida. Deixou tudo para trás e foi morar num vilarejo tranquilo no litoral da Bahia.
Rompi com o meu mundo para ser mãe de meus filhos
Não dava mais para acordar e não ver meus filhos antes de ir para o trabalho. Não era mais suportável não fazer nenhuma refeição com eles. Não ver como comiam, como acordavam, de que forma brincavam. Deixar a minha responsabilidade a cargo da babá e da professora estava sendo penoso demais para mim. Mais que responsabilidade, eu chamo a maternidade de missão, já que é o papel que eu mais gosto de desempenhar. E aí o tal papo de que vale mais o tempo de qualidade do que o de quantidade não fazia o menor sentido.
Como resolver isso no esquema de vida que levávamos? Sem ter família em São Paulo e trabalhando de sol a lua para manter uma estrutura milionária. Foram meses gestando uma mudança. Rezei, pesquisei, conversei, chorei, viajei, ponderei, conheci, andei, sonhei. E então veio a decisão. Para a maioria das pessoas, partir foi um rompante irresponsável e quase inconsequente. Para mim, uma atitude planejada e estudada.
Quando tomei a decisão de me mudar para Imbassaí, uma praia no litoral norte da Bahia, vendi o carro, retirei um dinheiro da poupança, pedi demissão de um emprego formal, coloquei meu apartamento para locação, doei pares de sapato, cobertores, cachecois, brinquedos, travesseiros, roupas, utensílios domésticos. Tudo em excesso. E fui de mala, cuia e filhos viver de forma mais saudável, sustentável e tranquila com meus eles.
Mas, por que essa mudança? Eu precisava ter as rédeas da minha vida e da de meus filhos em minhas mãos novamente. Romper com isso teve um papel fundamental na recuperação do nosso laço, da nossa intimidade e de nosso vínculo. Os hábitos que estou desenvolvendo aqui com minha família vão muito além de "morar na praia".
Desde que nos mudamos fiz questão de adquirir algumas práticas sistemáticas para viver melhor. Hoje eu e os meninos separamos todo o lixo que consumimos. Optei por cuidar de nossa alimentação não tomando mais refrigerantes e sucos de envelope ou caixinha. Deixei de comprar temperos industrializados e nossa comida tem gosto de alho, cebola, sal e ervas. Risquei também da lista do supermercado itens como biscoito recheado e salgadinho. A verdura e os legumes que comemos vêm diretamente da horta perto de casa, sem agrotóxicos. Os ovos são do quintal de uma vizinha. Por opção, não temos carro, andamos a pé para todos os lugares ou pegamos carona.
O vínculo que eu estou retomando com Luca e Eduardo me ensina também, como mãe e ser humano. Eu, exercendo a maternidade novamente de forma tão ativa, saio do papel de mera ensinadora para também me colocar como aprendiz. Em nossa troca sobre o novo, observando, analisando, conversando e surpreendendo-nos, vamos reforçando nossos vínculos, ensinando e aprendendo, e ficando unidos cada vez mais. Hoje eu posso dizer que faço, sim, parte da vida de meus filhos, como durante algum tempo eu não fiz."