09 de julho de 2026
Nacional

Votação da MP dos Portos é interrompida por troca de acusações

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Pela segunda vez no dia, a Câmara dos Deputados interrompeu as discussões da medida provisória que regulamenta o setor portuário do País, ontem. A votação foi suspensa depois de um novo embate entre parlamentares com direito a trocas de acusações.

A discussão começou após discurso do líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO), com ataques ao deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), também líder do seu partido. No discurso, o deputado do DEM chamou o colega de “chefe de quadrilha” que “deveria estar preso”, acusando-o ainda de fazer “pacto com porcos”.

A fala de Caiado foi uma resposta ao discurso de Garotinho que, minutos antes, recomendou ao PSDB que telefonasse para o empresário Daniel Dantas para ter mais informações sobre a “MP dos Porcos”, insinuando interesses do empresário na medida provisória que regula o setor de portos.

Garotinho havia feito a insinuação ao rebater o discurso do líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP), cobrando da Casa explicações de Garotinho sobre as negociações em torno do texto final da MP. Sampaio anunciou que não votaria a medida enquanto não fosse esclarecido as acusações do colega.

Na semana passada, em outro discurso polêmico, o líder do PR disse que as sugestões de mudanças apresentada pelo PMDB atendia a interesses econômicos. Na ocasião, apelidou o acréscimo ao texto como “emenda Tio Patinhas”, apelidando a medida como “MP dos Porcos”.

“Se o PSDB quer obstruir, obstrua, mas por outro motivo. Não vamos aceitar isso”, disse Garotinho. “Agora, o PSDB conhece bem Daniel Dantas, se querem saber detalhes, se está com tanta ansiedade, pegue o telefone e ligue para Daniel Dantas”. Segundo ele, o empresário tem interesses no porto de Santos e por isso estaria interferindo na medida.

Partidos da oposição protocolaram na Corregedoria da Casa um pedido de esclarecimentos sobre as suspeitas levantadas por Garotinho. Ele, no entanto, disse que só fala se for chamado pelo Conselho de Ética da Casa.

Sampaio retrucou e disse que só conhece o empresário porque o investigou. Os ânimos se acirraram quando o líder do DEM, que também foi citado por Garotinho, reagiu.

“Garotinho não pode ser chamado de Excelência. Tem que ser chamado de chefe de quadrilha”, afirmou. “Acha que pode subir e achincalhar toda Casa? Chefe de quadrilha tem que estar na cadeia. Se fosse presidente, ia mandar prendê-lo. Não podemos admitir esse tipo de comportamento nessa Casa. Daqui para frente, vai ser daí para pior (o tratamento).”

Garotinho rebateu dizendo que não se importa com as avaliações de Caiado sobre ele e que o colega falava “besteiras”. “Não me ofende dizer que tenho cheiro de porcos. Não me interessa seu conceito a meu respeito”.

Ele ainda provocou Caiado dizendo que o deputado do DEM virou as costas para o ex-senador Demóstenes Torres (ex-DEM), que teve o mandato cassado no ano passado após ser flagrado em conversas com o empresário Carlinhos Cachoeira durante a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal.

“Eu não finjo que não conheço Demóstenes. Eu não virei as costas para Demóstenes Torres depois de ter andado de braços dados com ele.”

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), lamentou a discussão. “O povo brasileiro não quer isso do Parlamento. Estou impressionado com a cena que se repete, lamentável.”

Logo após Alves lamentar a discussão entre Garotinho e Caiado, o deputado Toninho Pereira (PP-MG) invadiu a mesa onde fica o presidente com uma faixa indicando que o governo não quitou R$ 8,3 milhões com emendas parlamentares ao Orçamento da União na área da saúde. “Isso não pode”, gritou o deputado.

A segurança tentou imobilizar o deputado e o próprio Alves tentou conter o colega, que foi retirado do plenário por outros deputados.

Ainda sem acordo para votar a MP, a Câmara discutia ontem à noite medida que vai regular o setor portuário do País. O plenário aprovou ontem o texto-base da MP dos Portos e passaria a analisar os destaques à proposta do governo que estabelece um novo marco regulatório para o setor portuário.


Renan diz que Senado não prorrogará sessão

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse ontem que o Senado não vai fazer o “impossível” para votar a MP que regulamenta os portos brasileiros.

Renan desautorizou o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que afirmou que o Senado vai postergar a sessão plenária para dar tempo da MP ser lida na Casa ainda ontem - o que abriria caminho para ser votada hoje.

“Com todo o respeito, o deputado Arlindo Chinaglia não fala em nome do Senado Federal. Não há nenhum planejamento com relação a um esforço maior para nós votarmos a MP dos Portos. O que for possível fazer, nós faremos, porque essa MP é de interesse do País, mas nós não vamos fazer o que não for possível”, disse Renan.

O Palácio do Planalto deflagrou operação nos bastidores para prorrogar a sessão do Senado. O governo corre contra o tempo para aprovar a MP porque ela perde a validade amanhã. Até o fechamento desta edição, não havia acordo para a sua aprovação na Câmara, mas os deputados esperavam analisá-la ainda na noite de ontem.

O líder do PT, senador Wellington Dias (PI), admitiu que os governistas vão se revezar em sucessivos discursos no plenário para manter a sessão em funcionamento. “Estamos incentivando todo mundo a falar, hoje é um dia bom para discursos. A estratégia é segurar a sessão com quorum de senadores para hoje seja feita a leitura da MP”, afirmou o petista.