Ganhe dinheiro sem sair de casa e com poucos cliques. Quem nunca viu um anúncio com um feliz contemplado por programas de rendimentos com o mínimo esforço? Graças ao alcance e velocidade da internet, esquemas conhecidos como “pirâmides financeiras” se proliferam e, de fato, enriquecem algumas pessoas, mas também podem levar outras à falência (leia mais na página 9).
Em Bauru, tem gente jovem que afirma ter renda mensal na casa de R$ 200 mil, ou até mais, e pessoas que até se desfizeram de bens para entrar em modelos de remuneração que, independentemente da legalidade ou não, instigam.
Polícia Federal e Ministério Público confirmam que pirâmide financeira é crime contra a economia popular, pois o lucro é gerado sobre o prejuízo de novos integrantes, no caso, na “base geométrica” dos sistemas. Contudo, de acordo com ambas instituições, não há denúncias, ao menos formais, de eventual prática ilegal na cidade.
A pirâmide financeira, segundo diferenciam especialistas em finanças, é caracterizada basicamente pela geração de lucros sem a comercialização de um produto ou prestação de serviço. É diferente do chamado marketing multinível. Neste caso, apesar de cada novo membro comprar um pacote de adesão, os lucros da empresa são gerados pela venda de um produto ou serviço.
Fato é que, “piramidagem” ou não, tem gente que já fatura e aposta em sistemas de franquias de empresas, cuja renda mensal independe de sair vendendo algum bem de porta em porta.
Que mal tem?
Lucas Baptista tem 22 anos e, apenas como “renda extra”, fatura em torno de R$ 2 mil por mês. É uma cifra pequena, considera, em comparação a outras pessoas que conhece na cidade e trabalham no mesmo sistema de - diferencia ele - marketing multinível. O jovem é um dos quase um milhão de divulgadores da Telexfree, empresa brasileira sediada nos Estados Unidos.
O sistema é apoiado na venda de equipamentos e softwares de telefonia Voip (comunicação via internet que permite chamadas interurbanas e internacionais sem mensalidade).
Os divulgadores, como são chamados os integrantes que se associam ao programa, mediante taxa mínima de adesão de US$ 339 (em torno de R$ 680), são remunerados de acordo com anúncios publicados diariamente na internet.
“Você pode vender o plano (de telefonia), no valor de US$ 49,90 e fica com 90% na primeira venda. Caso você não venda, a empresa compra de volta, no valor de US$ 20”, detalha o rapaz, que diz pretender, no futuro, fazer da função sua única fonte de renda. “Conheço gente que fatura até R$ 50 mil por semana”, diz.
Segundo ele, ainda existe a comissão de R$ 200, em média, para cada novo membro cadastrado. “Já recuperei o que investi e acredito na legalidade. Não se trata de captação antecipada de dinheiro”, isenta.
Já o designer F., 25 anos, é representante da Herbalife, empresa que comercializa produtos que auxiliam em dietas de emagrecimento. Desde 2010 no modelo, que consiste na venda e também no recrutamento de novos franqueados, ele diz que a atividade, que gera cerca de R$ 1 mil ao mês, é um auxílio na renda fixa.
“Faço como renda extra. Vendo os produtos no meu escritório de design, na hora das refeições”, detalha. “Quando tem alguém interessado, coloco no negócio”, salienta, garantindo, entretanto, que a maior parte dos rendimentos é gerada pela mercadoria comercializada, o que não caracteriza pirâmide financeira.
“Se você não produz (vende), pode ter uma imensidão de gente na sua equipe (abaixo hierarquicamente) que não recebe um cheque bom”, observa.
Tributação
De acordo com os integrantes, no Telexfree, os encargos referentes ao Imposto de Renda são retidos na fonte no momento da remuneração dos divulgadores. “Pirâmide é crime e quero que os estelionatários sejam presos”, declara Rafael Valentim.
Engenheiro de formação e há cinco meses na empresa, ele garante que a prática é lícita. “Numa pirâmide, jamais haveria recolhimento de tributos. A empresa já pagou R$ 40 milhões de Imposto de Renda”, defende. “Toda vez que um divulgador recebe, o imposto é retido na fonte”, reitera.
Rafael promove palestras divulgando o sistema que, segundo ele, se diferencia das pirâmides por oferecer um produto real. “Trata-se de empresa, com CNPJ, sede fixa e com um produto ou serviço, no caso a telefonia Voip”, diferencia. O sistema de comunicação online é bancado por grande parte dos próprios divulgadores.
Ao optar pelo plano mínimo, salienta, um novo integrante desembolsa cerca de R$ 680 para ter direito à publicação de um anúncio em site de classificados. Valentim confirma que não é necessário vender o dispositivo de telefonia. “Não é um emprego, o interessado adquire a franquia”, diferencia. “Não é captação antecipada de poupança popular”, refuta o engenheiro.