10 de julho de 2026
Geral

Livro revisita ?caso Mara Lúcia?

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Mais de quarenta anos passados, um crime hediondo que chocou Bauru e o País ainda não tem solução. O assassinato da menina Mara Lúcia Vieira, de nove anos, registrado em 15 de novembro de 1970, até hoje não tem sequer um acusado formal. Na contramão dos registros que mofam nas prateleiras (o crime prescreveu em 1991), um ex-policial aponta caminhos.

“Um Policial embaixo do Pé de Café” (editora Daikoku/160 páginas) é o primeiro livro do investigador aposentado Manuel Bento Ferreira. Na obra recém-lançada ele anuncia, categoricamente, a identidade de um homem o qual ele acredita ser o autor do rapto, assassinato e estupro da menina, que foi estrangulada.

A obra conta com diversas memórias profissionais de Ferreira, que deu nome ao livro numa alusão aos diversos dias em que ficou de campana sob um pé de café quando estava no encalço de um criminoso.

Recheado de diversos casos, reunidos em mais de quatro décadas de profissão – divididos entre a antiga Força Pública (atual Polícia Militar) e Polícia Civil – o livro destaca o crime que estarreceu Bauru no início da década de 1970.

A menina Mara Lúcia desapareceu no dia 11 de novembro daquele ano. Seu corpo foi encontrado, em avançado estado de decomposição,  num pequeno banheiro, aos fundos de uma casa da quadra 8 da rua José Ranieri.

Dois suspeitos chegaram a ser ouvidos pela polícia na época. Porém, a falta de informações concretas resultou em arquivamento do caso que, apesar de reaberto, seguiu sem solução até o início da década de 1990, quando o crime prescreveu, e segue desta forma até hoje.

Logo no prefácio, o ex-investigador cita o crime, para o qual foi designado a investigar quando o inquérito foi reaberto, nos anos 1980. Ciente de que seus apontamentos serão contestados, Manuel considera que ninguém esteve tão perto da solução do mistério quanto ele.

O ex-investigador embasa o discurso em apontamento de familiar do homem acusado. Segundo Ferreira, o suposto autor do homicídio e estupro já morreu. O autor conta ter chegado à identidade do provável assassino através de apontamentos do irmão do acusado.

Para o policial aposentado, um dos fatores que emperraram a identificação formal, prisão e julgamento do autor do crime foi a falta de recursos na época. “Acho que, fosse hoje, teríamos outro desfecho. Atualmente, por exemplo, temos o exame de DNA, que facilmente seria feito a partir de uma peça íntima”, ilustra.

Ferreira conta que nunca se considerou um “super tira”. No entanto, seu modo de trabalhar remete aos detetives em tempo integral. “Eu aproveitava meus dias de folga no expediente para realizar diligências”, narra.

Além de detalhes das investigações do caso Mara Lúcia, o policial aposentado lembra de outros crimes solucionados em Bauru. No livro, Ferreira também revela drama familiar e episódios em que a profissão falou mais alto até mesmo do que laços afetivos, como o dia em que foi obrigado a dar ordem de prisão para um antigo parceiro de trabalho.

Lembranças de perseguições na Grande São Paulo, prisões no interior e na Baixada Santista, além de detalhes sobre o funcionamento ou embargos enfrentados dentro das repartições policiais do Estado são outros tópicos do livro.


Romantismo da profissão

A comparação entre a polícia de ontem e hoje é bastante evidenciada no livro. “A grande diferença é que a polícia de outrora desempenhava suas funções na raça, com sacrifícios, sem nenhuma ajuda de aparatos sofisticados como os de hoje, como escutas telefônicas, entre outros”, compara.


O crime

A menina Mara Lúcia foi tida como desaparecida quatro dias antes de seu corpo se encontrado, aos fundos de uma residência na rua José Ranieri. Na época, testemunhas – entre elas um garoto que brincava com a menina – disseram ter visto a vítima, pela última vez, na companhia de um homem de bigode.

Dois suspeitos foram formalmente ouvidos, mas ninguém foi indiciado. O caso repercutiu nacionalmente e motivou a vinda do célebre repórter policial Saulo Gomes à cidade. A chegada do cronista, que trabalhava na extinta TV Tupi, causou rebuliço em Bauru, ainda mais quando o jornalista, em entrevista no rádio, apontou quem, segundo ele, seria o assassino da criança.

Quarenta anos depois, sem um punido pelo crime, o túmulo de Mara Lúcia, no Cemitério da Saudade, em Bauru, ainda é constantemente visitado por fiéis, que acreditam que graças são atribuídas supostamente à criança falecida. O movimento aumenta de forma considerável no feriado de finados e data do aniversário da morte da menina.