08 de julho de 2026
Geral

Em uma hora, chuva e destruição

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 7 min

Fotos/Douglas Reis

Fiat/Uno conduzido por gestante foi arrastado a partir da quadra 17 da Nações Unidas

Pouco tempo de chuva bastou para transformar alguns pontos de Bauru em um verdadeiro caos. De novo.

A forte pancada na cidade na manhã de ontem durou cerca de uma hora e foi suficiente para provocar estragos em vários bairros.

Na região central, na avenida Nações Unidas, quatro carros foram arrastados e uma mulher grávida de nove meses quase foi levada pela enxurrada.

Já na avenida Alfredo Maia, na Vila Falcão, um rio se formou e deixou cerca de 20 veículos, além de um caminhão e uma Kombi, submersos.

No Parque Santa Edwirges uma casa, localizada na quadra 2 da Alameda Diógenes, acabou invadida por lama e água pela quarta vez no ano.

Pontos de alagamento na região da Alfredo Maia; na foto,

rua José Bastos com caminhão dos bombeiros ao fundo

A chuva também causou lentidão em algumas das principais vias da cidade, que ficaram tomadas pela água, como a avenida Castelo Branco, próximo a rotatória, e a Comendador José da Silva Martha.

Além de deixar trechos interditados como o da avenida Nações Unidas sob o viaduto da linha férrea, local em que nem mesmo uma obra de drenagem realizada no ano passado foi suficiente para conter a intensidade das enxurradas.

Das 8h50 às 9h50 uma série  de ocorrências foram atendidas pela Defesa Civil do município e pelas viaturas do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar.

No Centro, motoristas eram orientados pela PM a não trafegarem pelas avenidas em questão.

Avenida Alfredo Maia às 10h18: veículos submersos durante forte chuva de uma hora que voltou a causar prejuízos e riscos para a população

E forma-se o rio

O rio que se formou ao longo da avenida Nações Unidas arrancou pequenos postes de ferro, arbustos e culminou com quatro carros arrastados.

Entre eles, estava o Fiat/Uno conduzido por Bruna Pereira Ferreira, 23 anos, que está grávida de nove meses e quase acabou arrastada pela enxurrada ao tentar entrar em seu carro depois de realizar uma consulta médica em um prédio na quadra 17.

O veículo estava estacionado, assim como os outros envolvidos, e acabou sendo arrastado com as rodas viradas para cima depois de ser atingido por outros três, um VW/Fusca branco, um Ford/Escort vinho e um VW/Gol prata.

Por sorte, a gestante conseguiu sair do local antes que o fato acontecesse e ninguém ficou ferido.

O irmão da gestante, Mauro Caetano Junior, conversou com a reportagem e contou que Bruna realizava exames na hora do ocorrido.

“O parto está marcado para semana que vem. Graças a Deus ela conseguiu sair a tempo e não aconteceu nada nem com ela e nem com o bebê. Foi só nervoso e danos materiais mesmo”, lamentava o rapaz organizando uma verdadeira força-tarefa para resgatar e desvirar o veículo, que se arrastou por quase 300 metros e ficou completamente destruído.

“Foi de repente que a enxurrada aumentou e começou a carregar tudo. Eu também estava fazendo um exame de sangue. Não imaginei que a chuva fosse causar todo esse estrago”, comentava outra condutora de um dos veículos arrastados que pediu para não ser identificada pela reportagem.

Ainda na Nações Unidas, porém próximo ao Parque Vitória Régia, a barragem construída para auxiliar no processo de desassoreamento da lagoa transbordava e era possível presenciar vários motoristas se arriscando.

Alfredo Maia

A forte chuva de ontem de manhã também não poupou as imediações da avenida Alfredo Maia, onde cerca de 20 carros, de funcionários da Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) e de pessoas que aguardavam na fila do programa Minha Casa Minha Vida, ficaram submersos após a via receber toda a água da parte alta da Vila Falcão e se transformar em um verdadeiro rio.

“Eu estava na fila da Sebes pra fazer a inscrição para o Minha Casa, Minha Vida e quando sai para ver a chuva o carro já estava submerso no meio da rua, ninguém avisou que isso poderia acontecer”, reclama a promotora de vendas Juliana Fernanda Chagas, 27 anos, que de longe observava a água cobrindo quase todo o teto de seu carro estacionado na avenida.

Prejuízo também para o condutor Odair de Freitas Junior, 30 anos, que desde às 6h30 na Sebes, ficou nervoso ao encontrar seu Fiat/Uno vermelho inundado. Mesmo estando estacionado em uma via transversal à Alfredo Maia, na quadra um da rua José Bastos, o Uno de Odair, assim como outros carros não foram poupados pela água.

“É o cúmulo do descaso. Há anos isso acontece nessa avenida e ninguém faz nada. Jajá eles inauguram o viaduto novo sem nem fazer uma drenagem por aqui. É só o prejuízo”, critica Junior.

Durante algumas horas, uma equipe do Corpo de Bombeiros percorria as quadras inundadas com um caminhão autobomba na tentativa de resgatar possíveis vítimas.

“Graças a Deus, não houve vítimas. Tivemos apenas a notícia de que uma garota de 12 anos estaria sozinha em casa e iremos lá para retirá-la a pedido da mãe”, informou o subtenente, Paulo Sérgio Cazeiro, frisando, contudo, que a residência em questão não estaria inundada e que menina encontrava-se em um lugar seguro no interior do imóvel.


Santa Edwirges: pés na lama e ‘pesadelo’

No Santa Edwirges, a comemoração do aniversário de 46 anos da dona de casa Luci Fátima de Andrade se transformou em um dia tomado por tristeza, prejuízos e indignação.

Ao acordar com os latidos incessantes da Pitbull Mel, por volta das 9h, Fátima e seu filho Mizael Fernando da Silva, não esperavam encontrar o interior de toda a residência, localizada na quadra 2 da Alameda Diógenes, cercado pela lama e pela água.

“Eu dormi com a casa limpa e acordei com os pés na lama. É um pesadelo. Toda vez que chove forte acontece isso”, lamenta a dona de casa.

De acordo com Mizael, é a quarta vez que a casa sofre com inundações somente neste ano.

“A prefeitura passa a máquina e deixa a rua mais alta do que a casa. Estamos há doze anos aqui e isso não acontecia antes. Alguém tem que tomar providência. Eles não podem ficar aumentando o nível dessa rua assim”, cobra Mizael olhando para o diretor da Secretaria das Administrações Regionais (Sear) Antônio Schiavo.

Armários, estantes, fogão, sofá. Raros foram os móveis não atingidos pela lama na casa da família.

Para o diretor da Sear, entretanto, o problema estaria no nível da residência em relação à rua, ainda não pavimentada, e a prefeitura não teria como evitar as inundações.

“O nível da casa é muito baixo. Vamos ajudá-los na limpeza e depois trazer a pá carregadeira”,  afirma o representante da Sear que esteve no local.

Lixo e lama

Na avenida Waldemar Guimarães Ferreira, que interliga os bairros Nova Esperança e Vila Dutra, o cenário após a chuva era de lixo e lama espalhados sobre a ponte da linha férrea e do córrego.

Segundo relatou a aposentada Aparecida Vicente Guaranha, 57 anos, ao JC, assim que a chuva forte teve início, ela e sua sobrinha, que seguiam rumo à Sebes para tentarem a inscrição para o Minha Casa, Minha Vida, quase tiveram o carro arrastado para dentro do córrego. “Inundou muito rápido e o carro parou na lama. Se não fosse a ajuda dos motoqueiros, teríamos caído com o carro na ribanceira”, relatou.

UPA e outra Emei

Foi na unidade da Bela Vista, em meio ao mau tempo. Mas a unidade deve retomar atividades hoje à população.

A Emei Arlindo Boemer Guedes Azevedo, no Parque Santa Edwirges, também precisou ser interditada.


Creche usou até penicos

Começaram as goteiras na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Aida Tibiriça Borro, na Vila Antártica. A saída adotada pelos funcionários foi colocar baldes para evitar o alagamento. Mas as goteiras são tantas que... acabam os baldes. Por isso, foram improvisadas tampas e até penicos.

A situação quase que Com bastante água escorrendo pelas paredes das salas, as crianças foram concentradas em um único cômodo.

A Secretaria Municipal de Educação informou que os reparos imediatos no telhado da Emei serão iniciados assim que as condições climáticas permitirem. Hoje, a previsão é de que as aulas na Emei voltem normalmente.


Inesperada?

O prefeito Rodrigo Agostinho, que esteve acompanhando os trabalhos que eram realizados nas avenidas Nações Unidas e Alfredo Maia, classificou a chuva de ontem como inesperada.

“Esperávamos uma chuva de inverno e contínua, não tão forte assim”, afirmou.

Ainda de acordo com ele, a prefeitura analisaria todos os prejuízos causados pela chuva, garantindo, de imediato, assistencialismo aos moradores que possivelmente possam ter ficado desabrigados.

O fator surpresa da intensidade da chuva não é vai de encontro ao que afirma o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet).

“Desde quinta passada alertávamos que no início desta semana haveria chuva forte”, frisa o meteorologista André Mendonça.

Seja como for, equipes da prefeitura agiram ontem mesmo em contenção de erosões, liberação de vias e proteção de galerias.

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