Polêmicas entre a Rússia e o Ocidente sobre armar ou não as facções em conflito na Síria turvaram ontem a perspectiva de um processo de paz, abalado de antemão também pelos desentendimentos internos da oposição ao governo do presidente sírio, Bashar al-Assad.
Enquanto governos ocidentais discutem se devem fazer algo, e o que, a respeito da Síria, os principais aliados de Assad, como Rússia, Irã e o grupo xiita libanês Hezbollah, se unem ao redor dele.
A Rússia, que protege Assad diplomaticamente desde o início da rebelião síria, em março de 2011, disse que irá entregar um avançado sistema de defesa aérea S-300 a Damasco, apesar das objeções de Estados Unidos, França e Israel.
Moscou, por sua vez, acusa a União Europeia de “atirar lenha na fogueira” e “abalar” as chances de realização de uma conferência de paz em Genebra, ao permitir que um embargo de armas à Síria expire. França e Grã-Bretanha, maiores potências militares europeias e mais ardorosas defensoras do fim do embargo, dizem que ainda não se decidiram por armar os rebeldes, mas que desejam pressionar Assad a negociar.
“Nosso foco nas próximas semanas é a conferência de Genebra”, disse o chanceler britânico, William Hague. “O que isso está fazendo é enviar esse sinal alto e claro ao regime e ... sendo muito claro sobre a flexibilidade que temos se ele se recusar a negociar”.
O chanceler russo, Sergei Lavrov, disse que as potências ocidentais estão pondo em risco toda a ideia de uma conferência, e seu adjunto, Sergei Ryabkov, defendeu o fornecimento de mísseis a Damasco.
“Achamos que tal entrega é um fator estabilizador, e que tais passos sob muitos aspectos contêm alguns cabeças-quentes”, disse ele.
Os S-300 podem interceptar aviões tripulados e mísseis teleguiados, e com eles Assad passa a ter mais chances de permanecer no poder.
Apesar das suas diferenças, Rússia e Estados Unidos tentam organizar no mês que vem uma conferência internacional que leve ao fim de uma guerra civil que começou há 26 meses, já matou estimadas 80 mil pessoas e ameaça se espalhar para outros países do Oriente Médio.
Mas não há consenso sobre se Assad deve desempenhar qualquer papel em qualquer transição política, e o principal grupo de oposição apoiado pelo Ocidente ainda nem afirmou se vai participar da conferência.
Diplomatas em Genebra disseram que a conferência poderá ser realizada na ONU em 15 e 16 de junho, pouco antes de EUA, Rússia e líderes da UE se reunirem em uma cúpula do G8 na Irlanda do Norte, em 17 de junho.
Oposição britânica critica
O Partido Trabalhista britânico, de oposição, criticou ontem o empenho do governo David Cameron para suspender o embargo da União Europeia ao envio de armas à Síria. A decisão, anunciada na madrugada de ontem, abriu caminho para o repasse de armas britânicas a grupos rebeldes que tentam derrubar o regime de Bashar al-Assad.
“A Síria está inundada de armas. Não está claro como alimentar o conflito com armas fornecidas pelo Reino Unido pode ajudar na busca por uma transição política pacífica, depois de dois anos de violência crescente”, criticou o parlamentar trabalhista Douglas Alexander.
“Se o governo quer fornecer armas à oposição síria, ele precisa dizer ao Parlamento como pretende evitar que essas armas caiam em mãos erradas, e como essa ação pode reduzir a guerra civil síria, e não prolongá-la.”
Líder rebelde sírio ameaça atacar Líbano
O líder do Exército Livre Sírio, principal milícia rebelde síria, deu hoje um ultimato de 24 horas para que o grupo radical libanês Hizbullah saia de Qusair, na região central da Síria. Se não for atendida, a milícia ameaçou atacar o Líbano.
Os libaneses estão na cidade há duas semanas, em auxílio a uma ofensiva do regime sírio. Inicialmente, eles afirmavam que pretendiam defender as cidades libanesas na fronteira, mas fizeram um cerco que deixou centenas de mortos e provocou o deslocamento de 25 mil pessoas.
A participação do Hizbullah aumenta a preocupação com a internacionalização do conflito sírio, após dois anos de combates internos. Hoje, moradores de cidades libanesas da fronteira com a Síria acusaram grupos vinculados aos rebeldes por ataques que deixaram três mortos e quatro feridos.
Em entrevista ao canal de Al Arabiya, Salim Idris exigiu a saída do grupo libanês em 24 horas e os ameaçou com um ataque em território libanês.
“Nós tomaremos todas as medidas para caçar o Hizbullah, inclusive no inferno. Todos devem perdoar uma retaliação do Exército Livre Sírio, assim como fomos submetidos ao genocídio conduzido por eles em Qusair”, afirmou.