Indubitavelmente, temos assistido passivamente à degradação da sociedade caminhando a passos largos em direção a uma cegueira corrosiva, sendo esta a principal causa do egoísmo presenciado nos dias atuais. A maioria das pessoas só pensa em ganhar dinheiro, em se dar bem, pouco se importando com os meios. Os padrões sociais são medidos pelo poder de compra, onde se consome produtos da moda não apenas para ficar bonito, mas também como forma de integração social, o chamado status. O filme "Ensaio sobre a Cegueira" retrata exatamente o caos da sociedade nos tempos modernos, cujo egoísmo, luxúria, vaidade são pilares impostos em nosso meio, demonstrando a natureza da índole humana em uma situação extrema.
Estamos nos transformando em uma sociedade de supérfluos, pois boa parte dos produtos adquiridos, perde-se sua serventia depois de um determinado período. É a geração do novo. Um computador, depois de seis meses, está obsoleto, a moda muda a cada estação e as pessoas ludibriadas pela indústria e propaganda, consomem bens e serviços que não acrescentam nada em suas vidas.
E qual a resposta da sociedade para tudo isso? Simplesmente a acomodação. Vivemos no mesmo lugar, mas cada um numa ilha. Comunicação só por telefone ou pela internet. Temos milhares de amigos nas redes sociais, mas passamos por eles nas ruas e nem cumprimentamos, ou cumprimentamos e não temos nada a dizer. As pessoas não se mobilizam mais. Os poucos que ainda insistem em lutar contra o sistema, logo são taxados de radicais, loucos cuja insanidade é tentar pregar a verdade.
O filme demonstra de como seria a sociedade sem a clareza e nitidez dos valores presentes em cada um. Mostra a utilidade de nossas regras e leis, ao mesmo tempo em que expõe suas falhas. Entretanto estamos em tempo de mudança, mas realmente queremos ser mudados ou moldados? No mais, vale a reflexão de José Saramago: "Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que vendo, não veem".
João Marcos Ferreira Abrahão