10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Carta do filho postiço ao pai substitutivo


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Engraçado como a vida nos surpreende. Quando somos pequenos, somos cheios de fantasias, planos para o futuro e sonhos, onde alguns tornam-se realidade por nossos esforços e outros são presentes dado por Deus, um deles é meu Pai. Sempre idealizei um pai amigo, companheiro, confidente e fiel. Até que a vida me presenteou com um. Meu pai José, que com a simplicidade de um professor fez lógicas e construções dentro do meu coração, erguidas sobre o mais seguro dos alicerces.

José sempre foi o "cara" em que me espelhei, alguém que desejo ser idêntico, fisicamente, em gestos e atitudes. Um amigo que me tornou homem, um companheiro que assumiu viver comigo, um confidente e fiel onde trocamos nossos segredos, medos e fraquezas. Um pai conselheiro que me guiou até conseguir ter em mãos meu canudo.

Desde o primeiro olhar para ele senti que havia uma ligação muito forte, muito além de laços de sangue, afinal, fui escolhido por ele, e a afinidade e o amor superam qualquer problema, escalam qualquer muralha. Gosto tanto desse meu "velho" que aprendi a conviver e ganhar seus carinhos sem imaginar o quanto fundamental isso me é. Com ele aprendi a superar todos e quaisquer obstáculos que encontrei, só não aprendi a superar sua ausência, e nem quero imaginar tal situação.

Certa vez, morri de ciúmes por vê-lo com filhos de amigos. Quis morrer por ver que todo aquele carinho, todo meu porto seguro poderia vir a ser compartilhado com outros. Que poderia ser dividido. Onde me encaixaria se não sobrasse mais carinho e atenção pra mim? Lembro-me de chorar por medo de deixar de ser especial a ele e correr o risco de ser substituído. Chorei demais por medo de perdê-lo.

Hoje em dia ainda sinto esse ciúmes. Jamais quero que adoeça novamente, pois só eu sei a aflição no peito que senti e o quanto rezo por você, meu pai. Sei que perturbo-o com tantos telefonemas, mas é uma forma de nesses pouco minutos longe de você, de senti-lo perto e próximo às minhas asas. A história muda e chegou o dia em que o filho torna-se o pai, e agradeço cada minuto do meu dia por ter você meu pai, em minha vida; jamais suma por favor! Só peço a Deus que me permita ir antes de você, para que eu jamais sinta a dor da sua perda. Te amo muito, meu querido amigo, professor e pai. Obrigado por estar comigo. Conte eternamente com este filho que, mesmo adotado, te ama demais.

Carlos Eduardo Filho