09 de julho de 2026
Articulistas

Ineficiente e o 2º mais caro do mundo

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Não é preciso ser simpatizante do ministro Joaquim Barbosa para ter gostado do seu comentário sobre a ineficiência do Congresso Nacional. O orçamento deste ano prevê R$ 8,5 bilhões, ou seja, R$ 23 milhões por dia, para um Congresso que nem conseguiu aprovar o orçamento no prazo legal, só o fazendo com três meses de atraso. Foi preciso o Executivo usar referências do orçamento anterior para o país não parar. Mais de oito bilhões para vermos os jornais ilustrarem sua primeira página com fotos indecorosas de parlamentares dormindo em suas poltronas, enquanto se discutia a MP dos portos. Esse esculacho também não é quebra de decoro parlamentar? No ano passado o Congresso custou R$ 7,6 bilhões, mas foi eficiente porque conseguiu aprovar o discutível Código Florestal, depois de doze anos. A eficiência do Congresso é estimulada pela barganha. Para estarem presentes na votação da MP dos portos exigiram a liberação de emendas parlamentares que destinam recursos às suas bases eleitorais. Agora, estão negociando o projeto de reforma do ICMS. Ameaçam paralisar as discussões, sem a menor preocupação com os prejuízos que isso provoca. E, contra a evidência de tanto descaso com as questões cruciais para segurança e bem-estar da sociedade, os representantes dos partidos de ?mentirinha? frequentam as telas de TV, convidando-nos a participar das mentiras impingidas ao povo.

Nessa base de funcionamento, para quando devemos esperar as reformas tributária, trabalhista, da previdência, política, tão ansiadas e proclamadas? Cabe aqui o que o professor americano Francis Fukuyama, autor do célebre "O Fim da História", falou em entrevista à Folha, dia 20: "A decadência política é um problema constante, que todos os regimes enfrentam. As fontes desse problema são duas. A primeira é que instituições são difíceis de serem mudadas. As pessoas querem mantê-las a todo custo, mesmo que as condições externas mudem. A segunda é que, em qualquer sociedade, os ricos e poderosos vão acumular poder e com o tempo usarão seu acesso privilegiado ao sistema político para protegerem a si mesmos." Vamos incluir aqui os que ficam ricos pela corrupção, aproveitando-se dos desmandos reinantes.

Andrew Grove, fundador e presidente da Intel, maior produtora de chips do mundo, tinha uma teoria sobre a dificuldade na solução de problemas com seus executivos. Num primeiro patamar estavam aqueles que ignoravam a existência do problema. Num segundo patamar estavam aqueles que reconheciam a existência do problema, mas punham a culpa nos outros. No terceiro, aqueles que reconheciam a existência do problema e que eles também eram responsáveis. No quarto estavam aqueles que não só reconheciam como se prontificavam a procurar resolvê-lo. Aí é que começava a ser encontrado o caminho para a solução. Combinando essa teoria com a opinião de Fukoyama, voltamos a perguntar: quando teremos as reformas necessárias? A resposta é nunca, porque o Congresso não reconhece que faz parte do problema e nem deseja mudança.

Um estudo feito pela ONU em 2012, com 110 países, mostrou que o parlamentar brasileiro é o segundo mais caro no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Que pena ficar atrás dos Estados Unidos, mas já é um consolo gastar mais do que os outros 108, podendo recompensar regiamente os seus nobres parlamentares, tão úteis à democracia, e os seus dedicados funcionários, até com aposentadoria de R$ 24 mil para motorista. Se o problema fosse só a ineficiência ficaríamos apenas com esse custo de oito e meio bilhões, que é o custo direto, mas os custos indiretos são imensamente maiores e fica cada vez mais difícil para dona Dilma acabar com a miséria, porque a inflação já fez a linha limite de R$ 70,00 per capita ser ultrapassada. Deve agradecer a colaboração do Congresso.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras