09 de julho de 2026
Cultura

Separados pela estrada

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 8 min

“Nesta longa estrada da vida vou correndo e não posso parar”, diz, talvez, o maior sucesso da dupla Milionário e José Rico, um ícone da música sertaneja. No caso de Eli Silva e Zé Goiano, foram justamente as “estradas da vida” que encerraram a parceria. A dupla formada em Bauru corria para o sucesso com um trabalho calcado na música sertaneja de raiz, mas dois acidentes distintos em rodovias calaram as afinadas vozes e silenciaram as violas. Nascida em 1991, a parceria teve fim trágico com a morte de Eli Silva, que fazia a primeira voz, em acidente em 2010. Pouco mais de dois anos depois, uma colisão vitimou Zé Goiano e, tristemente, “o final da corrida chegou”.

 

Arquivo pessoal

Mônica Francine da Silva Momberg ao lado do pai Eli Silva

Se “Estrada da Vida” sintetiza bem o final da dupla, a história dos dois músicos pode ser resumida em outro trecho de uma canção sertaneja, “Porta do Mundo”, gravada, entre outros, pela dupla Tião Carreiro e Pardinho, da qual Eli Silva e Zé Goiano eram grandes admiradores: “O som da viola bateu no meu peito doeu, meu irmão; assim eu me fiz cantador, sem nenhum professor aprendi a lição”. Ambos foram tocados desde cedo pela poesia da música raiz e eram autodidatas em seus instrumentos.


Elias José da Silva, o Eli Silva, era paranaense de Farol e veio na década de 70 para Areiópolis, mudando, posteriormente, para Lençóis Paulista. Milton Aparecido Marquetti, o Zé Goiano, era de Avaí e residiu em Reginópolis antes de chegar a Bauru. Ambos foram criados na zona rural e desenvolveram o gosto pela música sertaneja de raiz desde meninos. A passagem de admiradores para músicos foi natural. Nenhum dos dois integrantes é bauruense, mas a dupla é.


A parceria surgiu em 1991. O atual presidente da Clube da Viola de Bauru, Sebastião Laerte Fabro Camargo, o Tião Camargo, foi o responsável por juntar Eli Silva e Zé Goiano, que já se conheciam das rodas de viola e eventos sertanejos na região. Camargo conta que compôs, na ocasião, a música “Meu Pequeno Território” e a inscreveu no Festival de Música de Guarulhos. O compositor, no entanto, não tinha quem interpretá-la na disputa e convidou Eli Silva e Zé Goiano, formando “sem querer” uma combinação que deu certo de tal forma que seguiu junta por quase duas décadas.


“O Zé Goiano, apesar de ser de Avaí, sempre morou em Bauru. Ele tinha as duplas amadoras aqui. O Eli tinha a dupla dele em Lençóis Paulista, a dupla Eli Silva e Marabá. Em 1991, eu tinha feito a música para participar do Festival de Guarulhos. Era um festival de música sertaneja inédita de raiz. Eu não tinha nenhuma dupla para ir defender esta música e convidei o Zé Goiano e o Eli, embora eles não fossem dupla. Eles foram e ganhamos o festival”, lembra Camargo.


O compositor e, posteriormente, divulgador da dupla revela que, após a vitória, a parceria formada exclusivamente para a disputa do festival foi convidada pela TV Cultura para apresentar a música vencedora no programa Viola, Minha Viola. “Faziam parte do júri do festival a Inezita Barroso e o Moraes Sarmento, que eram os apresentadores do programa. Surgiu aí a dupla Eli Silva e Zé Goiano”, observa Camargo.


Da união e surgimento para o Festival de Guarulhos, entre breves idas e vindas, a dupla permaneceu junta 19 anos. Neste período, alcançou projeção, respeito e ganhou fãs. “Faziam música de raiz e bem no estilo criado pelo Tião Carreiro. Era uma dupla muito boa. Pouco antes do Eli morrer, fizeram uma apresentação em Rondônia, em Porto Velho, e tinham bastante shows marcados”, acrescenta.


Eli Silva e Zé Goiano lançaram 12 discos, sendo dois de coletânea. Entre os maiores sucessos da dupla estão as músicas Meu Pequeno Território, Saudade Sertaneja, Convite de Caboclo, Viola, Minha Viola e Moradia de Caboclo. “Eles cantavam muito nos shows também as músicas de Tião Carreiro e Pardinho”, conta Camargo.

Capa do disco da dupla Eli Silva e Zé Goiano

De comediante a músico

Eli Silva possuía uma característica instintiva de ser engraçado. O dom para fazer rir, misturado ao carisma, costumava cativar rapidamente as pessoas. O músico mostrou o talento comunicativo desde criança. “Meu pai sempre foi muito piadista, muito engraçado. Todo mundo achava muita graça das piadas dele”, afirma a filha, Mônica Francine da Silva Momberg. Rapidamente, Eli Silva agregou ao estilo cômico um diferencial. “Ele aprendeu sozinho a tocar violão e começou a contar a piada cantando”, acrescenta Mônica.


A veia artística esboçada desde criança ganhou força nas madrugadas em claro, quando trabalhou como socorrista em uma usina de Lençóis Paulista. Nas noites acordado e sozinho, Eli Silva buscava inspiração para rabiscar as letras que viriam, posteriormente, a virar canções. “Meu pai sempre tocou violão, cantava, mas sempre música dos outros. Na usina, ficava muito tempo parado e começou a escrever, a ser poeta, quando ficava de madrugada esperando algum motorista de caminhão pedir socorro pelo rádio”, relata a filha.


Aos 30 anos, para apreensão da família, Eli Silva deixou o antigo emprego e decidiu dedicar-se à sua paixão: a música. “Ele saiu da usina e resolveu virar músico. Eram quatro filhos para criar e ele resolveu virar músico. Minha mãe quase infartou”, brinca Mônica. Por um período, Eli Silva se dividiu entre os palcos e o microfone de uma rádio local. “Por causa desta mania de contar piada e tudo mais, acabaram chamando-o para ser radialista. Ele era radialista e tocava, às vezes, sem ganhar nada” revela a filha.


Porém, a resolução que, a princípio, preocupou os familiares foi a mais acertada, pois a carreira de músico decolou e Eli Silva, junto com o parceiro Zé Goiano, conquistou público fiel e seletivo, que apreciava a legítima música sertaneja. “Eles viajaram muito e foram felizes. Mas nunca tiveram apenas o objetivo de ficar famosos. Ofereceram para eles gravarem outros tipos de músicas, que poderiam ser mais tocadas, mas eles não aceitaram, porque isso iria ofender o princípio deles, que era a música raiz. Eles perderam oportunidades para defender isso”, salienta Mônica.


O fim da parceria veio com o acidente fatal em 2010, emudecendo a grave voz e o violão chorador de  maneira trágica, mas sem passar por algo que sempre quis evitar. “Meu pai sempre dizia que rezava para Deus não deixá-lo dar trabalho para os parentes. Não queria ficar na cama, doente”, comenta Mônica.

Do circo aos palcos

Zé Goiano tinha talento nato para tocar viola. Autodidata, dominava de tal forma o instrumento que, além de violeiro, era compositor e arranjador. “Meu avô era sanfoneiro e tocava nos bailes. Meu pai acompanhava. Ele nunca fez aula e tudo o que sabia fazer na viola ele aprendeu de ouvido. Era um dom”, relata a filha, Cláudia Marquetti Cossi, que não se lembra do pai sem o contato com a viola e cresceu envolvida pelo sertanejo raiz.


“Desde que me conheço por gente, via meu pai com uma viola no braço. Recordo-me, desde pequena, que reuniam-se vários amigos de meu pai em nossa casa nos finais de semana e tocavam músicas conhecidas, músicas inéditas, meu pai fazia arranjo, gravavam e ficavam ali o dia todo”, recorda.


Porém, antes de subir aos palcos com a música sertaneja, Zé Goiano trabalhou no campo e também foi artista circense. No picadeiro, exerceu atividades perigosas, como globo da morte e trapézio. No circo, presenciou duplas famosas se apresentarem e se encantou a tal ponto de deixar o trapézio e a moto para abraçar de vez a viola, que já fazia parte de sua vida desde menino. Mas não abandonou o “respeitável público”, que o seguiu prestigiando nos shows de sertanejo raiz.


Formando dupla com o parceiro Eli Silva, alcançou projeção e sucesso. “Eles fizeram shows em todo o Estado de São Paulo. Difícil uma feira agropecuária onde eles não tenham se apresentado. Cantaram também no Sul do Brasil, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Pará... Eles conseguiram um sucesso muito grande logo nos primeiros CDs da dupla”, aponta Cláudia.


Após a perda do parceiro Eli Silva, em 2010, Zé Goiano seguiu com a música, mas a carreira foi interrompida bruscamente com o acidente fatal em 2012. “Foi um dia em que meu pai estava extremamente feliz, cantando, divertindo várias pessoas e alegrando famílias. Eram umas 7h da noite mais ou menos e um telefonema trouxe a notícia do acidente”, relata a filha.


Após período internado, Zé Goiano não resistiu. A família tenta se acostumar com o silêncio da viola em casa. “O que dói é a saudade. Ele tocava viola divinamente bem. É como se ele estivesse viajando, cantando. É difícil se acostumar com a ideia”, conclui Cláudia.

Fim repentino

A ascensão de Eli Silva e Zé Goiano foi bruscamente interrompida no dia 26 de junho de 2010, quando Eli Silva sofreu acidente na rodovia Marechal Rondonpróximo à praça de pedágio de Areiópolis. Era o fim da dupla. Zé Goiano morreu pouco mais de dois anos depois, no dia 19 de setembro de 2012, também em decorrência de acidente automobilismo ocorrido na vicinal João dos Santos, quando voltava de apresentação no Distrito de Vanglória, município de Pederneiras, e após período internado no Hospital de Base de Bauru.