08 de julho de 2026
Bairros

A vida na avenida

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Carros, ônibus, pedestres, buzinas, pessoas aglomeradas em pontos de coletivos e anúncios comerciais em letras, cores e sons... Muitos sons. Quem passa pela concorrida avenida Rodrigues Alves, na região central de Bauru, normalmente está inserido no acelerado cotidiano da cidade. Em meio a toda essa confusão, como pensar que os imóveis residenciais ainda existam e resistam por lá?


Numa época em que a tranquilidade é requisito básico para muitas famílias na hora de escolher o endereço, é difícil pensar que uma movimentada via como a Rodrigues Alves, especialmente o trecho inserido na região do comércio central entre as quadras 4 e 13 (na altura da Câmara Municipal), possa atrair moradores, famílias inteiras em alguns casos. Mas eles estão por lá, e o JC nos Bairros encontrou alguns desses inquilinos para contar como é viver nessa via.

Renata Marconi

Como um guardião, o funcionário público aposentado Sebastião Gomes da Silva observa o movimento da Rodrigues Alves da sacada de sua residência, na quadra 8 da avenida

Perfil

Embora seja possível encontrar residentes de todas as idades e diferentes interesses nos antigos e espaçosos apartamentos localizados, em sua maioria, sobre estabelecimentos comerciais, de acordo com a corretora de imóveis Claudete Beghini é possível traçar um perfil dos habitantes da “Rodrigues do Centro”.


“Normalmente, quem procura por apartamentos nessa região são pessoas com mais idade, muitas vezes já aposentadas, que buscam pela comodidade que a vida no Centro pode oferecer. Elas não precisam de carro ou de transporte coletivo para se locomover até o comércio ou farmácia, por exemplo”.


Ainda sobre as vantagens das moradias ali existentes, a corretora também aponta a tranquilidade em feriados e finais de semana, dias em que o trânsito e o fluxo de pedestres praticamente param.


Por outro lado, tal “paradeira” pode causar a sensação de isolamento, na opinião de Beghini. “Quem gosta de um bom bate papo entre vizinhos, por exemplo, fica praticamente sem opções, já que as lojas são os vizinhos mais próximos desses moradores”, aponta.  

 

Cercados pelo comércio

Moradores contam como é ter a casa rodeada por estabelecimentos comercias

Para muitos, viver em uma região comercial pode ser sinônimo de barulho e transtornos. Para outros, pode representar a oportunidade de fazer amizades e de nunca estar sozinho. Esse é o caso, por exemplo, do funcionário público aposentado Sebastião Gomes da Silva.


Há sete anos Sebastião vive no segundo andar de um sobrado localizado na quadra 8 da avenida Rodrigues Alves. Subir e descer as antigas e bem conservadas escadas do imóvel é motivo de satisfação para o aposentado, que diz gostar muito de viver na região.  


“Para mim é uma localidade privilegiada porque estou próximo de tudo e fiz muitos amigos por aqui, principalmente entre os comerciantes. Minha filha, que passa boa parte do tempo comigo em casa, não gosta por causa do barulho do trânsito e do próprio comércio, mas morar aqui é muito bom”, relata.


Da janela ou da porta de casa, o aposentado fica por dentro de tudo o que acontece na cidade, já que os carros anunciam as novidades e é na própria avenida ou logo ali, no Calçadão da Batista de Carvalho, que as manifestações, passeatas e comemorações acontecem. “Estou por dentro de tudo”, diz com bom humor.


Viver sobre o movimento da Rodrigues também faz de Sebastião uma espécie de guardião do lugar. Sempre atento, ele já presenciou tentativas de assaltos, acidentes de trânsito... “A gente chama o resgate ou a polícia quando isso acontece”.

 

Por segurança

Viver em uma movimentada avenida que “dorme” em feriados e finais de semana pode até não parecer seguro, mas foi exatamente em busca de segurança que Sebastião se mudou da Quinta da Bela Olinda - onde viveu durante muitos anos - para a avenida Rodrigues Alves.


“Um dia eu cheguei em casa e encontrei tudo revirado. Levaram praticamente tudo o que eu tinha. Foi então que um amigo, na época meu chefe, ofereceu um apartamento na Rodrigues. Para mim, aqui é bem mais tranquilo e prático”. 

Trabalho e lar em um único lugar

Imagine os prós e os contras de viver e trabalhar no mesmo prédio. Apesar de ter uma casa em um condomínio residencial afastado do Centro da cidade, o comerciante Celso Benevente optou por morar na avenida Rodrigues Alves há cerca de 17 anos. E levou a família toda para o novo endereço, que fica na quadra 7, nos fundos da lanchonete da família. Para ele, habitar e trabalhar no mesmo local é sinônimo de conforto e comodidade.  


Segundo o comerciante, a decisão foi tomada por questões de segurança e praticidade. “Eu acordo e já estou no trabalho. Fecho a lanchonete e já estou em casa. Isso é ótimo. Além de ganhar tempo, eu posso ficar de olho no meu estabelecimento. Além disso, aqui estamos perto de tudo”, enumera.

Ao contrário dos demais inquilinos entrevistados pelo JC nos Bairros, Celso não vive no segundo andar de um sobrado, mas sim nos fundos do comércio, o que permite que ele crie seus quatro cães da raça pit bull.


Além dos cães que fazem a segurança do imóvel, o comerciante enfatiza que adota outras medidas para conter a ação de criminosos, como câmeras de monitoramento, cerca concertina, alarmes... “A gente vê de tudo nessa região e precisa ficar esperto morando por aqui”, aconselha.    

Comércio em casa para aumentar a clientela

A costureira Neusa Carneiro da Silva, que vive com a filha há 12 anos no segundo andar de um sobrado na quadra 8 da avenida mais longa de Bauru, procurou o Centro por causa da profissão. Em um dos espaçosos cômodos do apartamento, ela montou uma oficina de costura e divide o trabalho com três outras costureiras.


“Minha profissão não é muito valorizada nas vilas. No Centro, há mais procura por costuras. Além disso, estamos perto de tudo. Aqui eu vejo coisas tristes e engraçadas, tragédias e acontecimentos bons”.


Apesar de conseguir separar fisicamente o trabalho do lar, Neusa admite que está sempre com as mãos no trabalho: “Para mim, não existe aquela hora de sair do trabalho e ir para casa, o que acaba me esgotando”, afirma a costureira, lembrando que a única coisa que falta em casa é um quintal para cultivar suas plantas.  

 

Da região central paulistana para a bauruense

O trânsito e o movimento promovido pelo comércio central de Bauru não incomodam em nada o corretor de imóveis Gilberto Silva, isso porque ele viveu grande parte de sua vida na região central da capital do Estado e se mudou para a quadra 7 da Rodrigues Alves com a família há cerca de sete anos.


“Eu vivo com minha esposa, um filho e uma neta. Moramos aqui por gosto mesmo e pela vantagem de estarmos perto de tudo: lojas, ponto de ônibus, hospitais, farmácias, supermercados, igrejas... Temos de tudo aqui perto e, como estava acostumado a viver em São Paulo, para mim a Rodrigues Alves é até calma”, brinca.


Quanto aos perigos que rondam os centros urbanos, Gilberto avalia que a criminalidade já se espalhou por todas as regiões da cidade, mas ele toma suas precauções: “À noite, por exemplo, evitamos sair de casa”.

 

Prédios residenciais sobrevivem na ‘Rodrigues Alves central’

Embora minoria, prédios ainda abrigam somente moradores

Renata Marconi

Edifício Terra Branca, condomínio residencial na quadra 11

Em meio aos edifícios comerciais e residenciais que margeiam o trecho central da avenida Rodrigues Alves ainda é possível encontrar prédios exclusivamente residenciais ou, ao menos, que reservam a maioria dos seus andares para esse fim.


Entre as quadras 4 e 13 da avenida, a equipe do JC nos Bairros encontrou ao menos dois prédios residenciais. Segundo moradores e funcionários, aposentados compõem a maior parte dos inquilinos desses imóveis.


Maria José de Jesus, por exemplo, é aposentada e há quatro anos se mudou para o Edifício Bauru, localizado na quadra 12. Embora considere o valor do aluguel praticamente o mesmo de um bairro mais afastado do Centro, ela admite que uniu o útil ao agradável ao escolher o novo endereço.


“Eu gosto de sair para um passeio no Centro, para pagar as contas... E faço tudo isso em um instante, porque é tudo perto e não preciso pegar ônibus. Além disso, tenho um filho que mora comigo e que trabalha na região central, então é ótimo porque ele não precisa enfrentar o trânsito para trabalhar”, enumera.

 

Abandonados

Por outro lado, mais fácil do que encontrar apartamentos habitados é ver prédios inteiros vazios, abandonados e entregues à ação do tempo.

 

Viver na Rodrigues já foi viver em meio ‘a tudo’

Ela não nasceu comercial, ao contrário. Na Rodrigues Alves, então chamada de Alfredo Maia, os palacetes residenciais foram criados para abrigar famílias pioneiras em Bauru. Os canteiros da avenida nada se pareciam com os de hoje. Cheios de frondosas árvores, eles abrigavam casais de namorados e crianças que corriam entre seus bancos.


“A Rodrigues já foi a avenida mais importante da cidade. Todos os desfiles cívicos e militares a tinham como palco. Os grandes Carnavais coloriam a via, isso sem falar nos históricos comícios políticos. Mas os grandes palacetes e prédios foram sendo tomados pelo comércio, que deu outro tom, mas não menos importância para a avenida”, relembra o memorialista, jornalista e relações públicas Luciano Dias Pires.

 

A avenida em números e histórias

•A avenida foi inaugurada em 1919.


•No início, apenas 10 quadras formavam a via, que hoje conta com 66 quarteirões.


•A Rodrigues já foi considerada a área mais glamurosa da cidade e hoje é a mais longa avenida.


•A via liga o centro comercial ao centro industrial do município.


•A Rodrigues Alves foi a primeira avenida a receber luz elétrica e asfalto em Bauru.


•O primeiro grupo escolar de Bauru foi instalado na via e era chamado de Rodrigues de Abreu, onde atualmente fica o Colégio São José.


•Em 1955, a Rodrigues Alves cresceu quando o então prefeito Nicolinha (Nicola Avalone Júnior) organizou um mutirão para ligar o endereço à Vila Cardia.  


•O canteiro central da avenida já foi repleto de árvores e bancos, ornamento substituído por tartarugas e, na sequência, pelos atuais canteiros.