08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Caminheiro


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Chuva intermitente e fria no final do outono rebatia na janela de seu quarto de dormir. Levantar-se não era nenhum esforço maior e até gostava de logo pela manhã, com um breve assobio acordar o galo do quintal do vizinho. Porém, e sempre há um, nessa manhã a cama macia e aquecida era um convite para mais um cochilo. Resistiu aos apelos da preguiça e convidou sua amada para uma caminhada mesmo sabendo que as ruas e calçada estavam encharcadas pela chuvarada noturna.

Naquele horário matinal apenas uma levíssima garoa deixava o céu cinzento. Para ambos não havia problemas em caminhar, estavam acostumados! Ele calçou sua inseparável galocha, capa de chuva impermeável e assenhoreou-se de um amplo guarda-chuva. De mãos dadas seguiam pelas conhecidas ruas do bairro e paravam pelos jardins. apreciando a beleza das flores; flores que pelo frescor sorriam em agradecimento pelas lágrimas de carinho caídas do céu. Em pensamentos silenciosos ele percorria com a memória os caminhos da sua própria vida. Silenciosamente também ia compondo este texto, lembrando-se de quando rascunhou o "aprendendo pelos caminhos".

Naquela oportunidade registrou os encantos e o imenso prazer obtido com a leitura das páginas poéticas da lavra de Léon Denis e Divaldo Pereira Franco. Nas páginas repletas de ensinamentos e de luz sentiu que ser caminheiro na senda do amor e da caridade, com certeza seria seu apanágio doravante. Naquele pensar foi tomado de um silêncio de paz ! Rememorou: havia necessidade de frear a desabalada corrida contra o relógio da falta de tempo. Estava na hora de revisar e reconsiderar seus conceitos e repensar o Suave Mestre Jesus.

Retornando daquela caminhada foi direto consultar a folhinha e entender que ainda havia chances para a retomada da consciência cristã a luz da razão. Assumia com sua amada uma tarefa inadiável para ambos. Essa mesma folhinha calendário não permitia nenhum esquecimento; afinal sete décadas palmilhando caminhos, veredas íngremes, e encruzilhadas que poderiam levá-lo aos pequenos êxitos ou fracassos conforme a opção e, por muitas vezes, sentiu a falta de fé dada a aridez dos caminhos.

Para ele não havia mais nenhuma dúvida! Na condição modesta de aprendiz da doutrina e da filosofia espíritas já reconhecia que a vida, em si mesma, é um caminho na experiência existencial.

Roque Roberto Pires de Carvalho - maryroque@uol.com.br