08 de julho de 2026
Cultura

?Rótulo? Nem em garrafa!?

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 5 min

Telefone chamando.

_ Eu.

_ Quem?

_ Você ligou para falar com...

_ Benito.

_ Então. Eu. Tô aqui, ó. [risos]

_ Tudo bem, Benito?

_ Tuuuuudo.

_  Bom, ligo para saber como é que vai ser o show em Bauru...

_  Ah, vamos matar saudade. Vou com a banda para fazer o que o público quer, graças a Deus!

_  Como é repetir alguns dos seus sucessos há tanto tempo?

_ Eu adoro. Adoro “Charlie Brown”. Inédita também é legal, mas o sucesso é outra coisa, né?

_ O que é sucesso para você?

_ É você fazer o seu nome. Isso é sucesso. Nome duradouro. Sucesso é o que fica. Não é momento. Pelé parou de jogar e continua sendo Pelé!

_ E os sucessos de hoje? Você vem acompanhando?

_ Mermão, tá feio, hein? Os bons não aparecem... Tem muita boa gente gravando... Só que não aparece. É um pecado. A solução é dar cultura para o povo.... Os caras de comunicação devem se conscientizar. Não dá para tocar só a mesma coisa o tempo todo, pô!

_ Hoje há uma predominância de sertanejo universitário...

_ Sertanejo u-ni-ver-si-tá-rio! [risos prolongados]. Olha que nome deram pra esses rapazes. O Ismael Silva, acho que é ele, quando inventou a escola de samba, inspirou-se na escola nacional de letras. Queria dar um tom solene de academia para a festa popular. Mas de escola de samba a sertanejo universitário tem muita distância, né? Respeito a todos. O problema é um gênero tomar conta de tudo numa dominação fajuta, imposta. Alguns têm valor, mas a maioria é tudo igual. As gravadoras estão quebrando e se agarram a isso.

_ Você, quando surgiu, virou referência do chamado “samba joia”...

_ Pois, é. Rótulo, né? De novo! É o que eu digo: rótulo eu não gosto nem em garrafa! [risos]

_ Mas a internet não está aí para ajudar nessa diversificação?

_ Não sei se funciona. A internet... A gente tem que encher a internet de cultura. Não de palavras internécticas e o pessoal achar que está se comunicando. É um tal de KKKKKKKKK e Kikikikikikiki. Isso não é legal. Internet deve estar a serviço da diversidade cultural do Brasil, não da mesmice. E outra: no nosso país é tudo de graça. Todas as músicas são de graça na internet. Uma hora muda isso. Tudo o que é de graça não vale nada. E quando peço valorização estou pedindo para mim também, sim, senhor.

_ E a política?

_ Pelo amor de Deus! Políticos não pensam no povo. O que acontece na cultura é reflexo disso também. E no esporte? Teve uma Copa no Maracanã bem lá atrás e levaram, sei lá, 200 mil pessoas. Agora reformaram e cabe menos de 80 mil... Conseguem diminuir ao invés de aumentar, xará!  Veja as grandes cidades. No mundo inteiro, não é só aqui, está difícil de viver nessas grandes cidades. Isso é falta de política para o povo, que é o que importa. E eu sou povo também. A gente tem que falar o que está errado!

_ Voltando um pouco aos shows: tem diferença o público do interior com o de outros centros?

_ Nenhuma! E sou abençoado: tenho público no Brasil todo. E sem esquemas, hein? Estou cantando para a quarta geração, cara! E todos cantam juntos. É lindo.


_ Você se considera mais compositor, mais cantor, mais pianista...

_ Sou pianeiro. Pianista é quem sabe mesmo tocar piano. E sou sambeiro. Um brasileiro que compõe e canta ao piano. É isso. É mais ou menos isso.

_ E o pessoal novo do samba?

_ Ah, tem o Revelação. Gravaram música minha, participei do DVD deles. Lembraram de mim! [risos].Tem o Diogo Nogueira, o meu filho...

_ Ele fez show na Virada aqui perto, em Botucatu?

_ Foi, né? Que legal. É um talento! Rodrigo Velozzo, que vai comigo para Bauru.

_ Afinal, Benito: qual é o sucesso do qual você mais se orgulha?

_ O que eu ainda farei.

_ Obrigado pela entrevista.

_ Rapaz, obrigado você por se interessar. 

 

Benito di Paula volta a Bauru após cinco anos, a partir das 22h30 desta sexta-feira, na Sociedade Hípica. Abertura e encerramento com o grupo Habiscus. Informações: (14) 3236-1255 ou (14) 9651-5050


Ele é Uday, mas pode chamar de Benito...

Nascido em 28 de novembro de 1941, Uday Vellozo ganhou fama nacional com o pseudônimo de Benito Di Paula. É autodidata, pianista, cantor e compositor brasileiro. Sua carreira começou no Rio de Janeiro, onde foi crooner de boates nos anos 60.

Mais tarde mudou-se para Santos, onde cantava e tocava piano em casas noturnas. Radicado em São Paulo, lançou seu primeiro compacto e passou a promover em suas apresentações uma mistura de samba latinizado, estilo que acabou tornando-o conhecido. Seu primeiro LP, “Benito di Paula”, de 1971, trazia músicas como “Apesar de Você” (Chico Buarque), “A Tonga da Mironga do Kabuletê” (Vinicius/ Toquinho) e “Azul da Cor do Mar” (Tim Maia).

Na década de 70 comandou o programa Brasil Som 75, na TV Tupi, chegando a disputar a venda de LPs juntamente com Roberto Carlos. Em 1975, Benito di Paula tem compromissos firmados com o México, Japão, EUA, se apresenta no MIDEM em Cannes, seu LP.  É lançado na Argentina com uma vendagem bem acima da esperada e cede uma música sua para o LP de Roberto Carlos, que fará grande sucesso: “Quero Ver Você de Perto”.

Tem mais de 35 discos (a maioria relançada em CD) e diversas turnês no exterior. Entre seus maiores sucessos destacam-se “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira” e “Retalho de Cetim”. Atualmente apresenta seus shows juntamente com seu filho Rodrigo Vellozo e seu irmão Ney Vellozo, que o acompanha desde 1976.

Fonte: www.benitodipaula.com.br

Reprodução Internet

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