|
Reprodução |
|
|
|
Teria furtado apenas 'para fazer arte' |
Toda mãe carrega lembranças singelas dos filhos, as quais, por conta da pouca idade, não são rememoradas nem mesmo por eles. “Lembro quando ele era bem pequeno e queria ser policial”, conta a dona de uma mercearia, de 37 anos. O filho, hoje com 15 anos, não virou policial. Muito longe disso. No domingo, foi pego pela Polícia Militar (PM) acusado de estar com mais uma motocicleta furtada.
Mais uma? Sim. Os policiais afirmam que o jovem (tanto o nome dele quanto de familiares foram preservados acatando a legislação), morador da Quinta da Bela Olinda, já tem uma “frota” de motos furtadas no currículo. “Foi por aí mesmo”, confirma o próprio adolescente, quando questionado pela reportagem se já havia levado cerca de dez motos. “Eu pego e vendo. Mas não passo necessidade. É para fazer arte mesmo”, complementa.
Ele, contudo, nega estar envolvido no furto deste fim de semana. A ocorrência ocorreu na noite de domingo no bairro onde o jovem mora. Segundo o boletim de ocorrência (BO), ele estava ao lado de uma Honda CBX 250 Twister furtada pouco antes. “Eu estava só perto da moto”, argumenta.
Todavia, nem a própria mãe acredita. Testemunhas afirmaram que ele carregava a moto. Em seu celular, mensagens trocadas com um amigo falavam em “picar” (gíria que significa desmontar) uma motocicleta. Mesmo assim, ele nega. Por isso, foi autuado por receptação.
Horas após ser levado à delegacia, o adolescente estava em casa. Foi registrado ato infracional e ele foi liberado para sua irmã, de 19 anos. Dessa vez, a mãe do garoto não foi à delegacia. “Não aguento mais isso. Tenho oito filhos e só ele dá problemas assim”, desabafou a comerciante.
Hoje, a mãe está casada com um homem que trabalha há 24 anos em um frigorífico da cidade. “Não temos passagem na polícia nem por uma simples briga”, afirma, orgulhosa. Porém, o adolescente não é filho deste relacionamento.
Ele nasceu, assim como outros cinco irmãos, do primeiro casamento da mulher. “O pai dele tem um monte de problemas. Está preso faz 10 anos. Cumpriu por assassinato, saiu na ‘saidinha’ e não voltou. Ainda bem que foi preso de novo”, relata.
A comerciante acredita que o jovem esteja se espelhando no pai. E ela teme que os filhos mais novos sigam os passos do irmão. “Eu morro de medo disso”.
Internação
Hoje, o jovem não passa necessidades. Ele mesmo confirma isso. A mãe lembra que, na infância, já passaram muita fome. Entretanto, as dificuldades não justificam a opção pelo caminho errado, que começou a apresentar os primeiros sintomas há cerca de dois anos.
“Ele falava que ia para a escola e não ia. Acabou perdendo o ano. Fez só até a quarta série”, conta a mãe do garoto. Pouco depois, ela começou a ser surpreendida pela “visita” de policiais em sua casa. “Eu queria que ele fosse internado. Não tem castigo que resolva”, apela.
Já o jovem, questionado se tem medo de cumprir pena na Fundação Casa (antiga Febem), parece não se importar: “eu não acho nada. Mas não tenho medo”.
Em relação ao que queria ser quando crescer, o adolescente não confirma o que a mãe diz: “eu ser policial? Acha?”. Ou ele realmente não se recorda da infância ou não quer se recordar, justamente por estar seguindo um caminho tão na contramão do que sonhou um dia.
‘Eu faço faxina na casa do delegado’, conta a mãe
Ir buscar o filho na delegacia é, sem dúvida, humilhação que mãe alguma deveria passar. Neste caso, a vergonha é ainda maior por conta de uma coincidência. “De vez em quando, eu faço faxina na casa do delegado. É uma vergonha muito grande encontrar ele lá”, relata a mãe do adolescente.
Coincidência ainda pior, uma vez que a avó do jovem trabalha na casa do mesmo delegado há 23 anos. “Somos todos trabalhadores. Não dá para entender por que ele faz isso. O delegado já conversou com ele, mas não adianta”, relata.
Perguntado se o adolescente fica mal em saber que os familiares se sentem humilhados quando precisam retirá-lo da delegacia, ele é direto: “não”.
Anteontem, enquanto aguardava o registro do ato infracional, a reportagem presenciou o deboche do jovem, que, mesmo diante da situação, ria a todo momento.
Um amor
O que mais entristece a mãe é que o adolescente é, segundo ela, “um amor” dentro de casa. “Com ele, é só risada. Ele fica imitando os outros. Para nós, é um amor aqui dentro. Realmente, não sei o que acontece”.
Ao contrário de várias histórias, tanto ele quanto a mãe afirmam que não há o envolvimento com drogas para tal comportamento criminoso. “Drogas? Não uso, não. Graças a Deus”, responde.