08 de julho de 2026
Polícia

Menina busca PM para largar cocaína

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Era por volta das 19h quando uma adolescente de 13 anos procurou a Base Oeste da Polícia Militar (PM) de Bauru. Ao saber o que a jovem queria, os policiais tiveram uma surpresa. A garota, que cursa a 7.ª série do ensino fundamental, foi pedir ajuda para sair do vício da cocaína. Em meio a uma criminalidade que se enraíza cada vez mais na juventude, o grito de socorro e coragem cria esperança.

Reprodução

Menina busca PM para largar cocaína

A atitude da garota (tanto o nome dela quanto de familiares foram preservados acatando o Estatuto da Criança e do Adolescente) foi tomada no começo da noite de anteontem. Além de se apresentar, ela entregou um invólucro de cocaína aos policiais.

Segundo o boletim de ocorrência (BO), a jovem começou a usar a droga há cerca de 30 dias e “nos últimos dias perdeu o controle, passando a usar uma quantidade muito maior”. Por isso, buscou ajuda.

A mãe afirma que ainda não conseguiu parar para pensar no que está acontecendo. “Estou desorientada. Descobri isso ontem (anteontem). Não percebi nada. Ela é uma menina tão meiga e carinhosa”, disse.

A porta de entrada à droga que começou a desviar o caminho da jovem evangélica e que quer se tornar advogada seria uma amiga da escola. “Tem uma menina que começou a levar dinheiro na escola e dar chocolate para ela. Acredito que tenha sido essa amiga que ofereceu a cocaína à minha filha”, relata. A própria jovem confirmou aos policiais que a droga é fornecida por uma colega da escola.

Horas antes de ir até a base da PM, a jovem tomou uma bronca da mãe. “Eu disse que ela iria acabar na Febem (atual Fundação Casa). Perguntei se ela queria isso para a vida dela”.

Apesar do relato de desespero registrado pela polícia e presenciado pelo irmão da jovem - que acompanhou o seu depoimento -, ela negou a história para a mãe. “Ela me disse que colocou farinha e levou para a polícia”, conta a mulher.

O invólucro, pesando 0,6 gramas, foi apreendido e passará por análise. Já a adolescente, após ser ouvida, foi liberada para seu irmão.

Drama

A família revive um drama recente. Há cerca de três anos, a jovem vivenciou o divórcio dos seus pais. O motivo: o pai se tornou usuário de crack. “Ele era caminhoneiro. Ficou totalmente destruído quando começou a usar a droga. E ela viu como o pai ficou. Será que isso não foi suficiente?”, questiona a mãe da garota.

Além da atitude corajosa da filha, o que a enche de esperança é o fato de o seu ex-marido ter conseguido se recuperar. “Ele fez o tratamento e hoje está bem. Sei que é possível. Vamos procurar ajuda”, complementa a mulher, otimista.


Reação da juventude

A titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, enxerga bastante simbolismo no fato de a jovem ter procurado a polícia. “Apesar de ser um só caso, é uma prova de que a juventude consegue dizer: drogas, não!”.

Ela ainda destaca que a Sebes trabalha de modo interssetorial com a Secretaria de Saúde para atender adolescentes com problemas de drogas e álcool.

Tendolo também oferece ajuda à família da jovem retratada na reportagem. “Temos uma equipe de referência com vários profissionais, incluindo psicólogos, para ajudá-la”, finaliza. A Sebes fica na rua Alfredo Maia, quadra 1, e pode ser contatada pelo telefone 3227-8624.


‘Em 25 anos de polícia, nunca vi algo assim’, afirma delegado

A jovem de 13 anos foi conduzida pelos policiais militares para a Central de Polícia Judiciária (CPJ), onde foi ouvida pelo delegado plantonista Roberto de Cabral Medeiros. “O que vimos ali foi realmente um pedido em desespero”, destaca.

Mesmo com mais de duas décadas na Polícia Civil, o delegado foi pego de surpresa com a história. “Em 25 anos de polícia, nunca vi algo assim. Pelo contrário, vemos jovens indo cada vez mais em direção ao vício”, diz Cabral.

Ele relembra que a jovem evidenciava bastante preocupação com o fato de ela estar precisando cada vez mais da droga. “Quando nós a liberamos, havia um investigador na sala. Ele tem uma filha também. Ao ouvir a história dela, não teve como não pensar nas nossas famílias”, desabafa.


Psicóloga frisa que atenção na infância previne problemas

Como identificar os sinais de que um jovem está fazendo a opção errada de vida? Esta é certamente a dúvida de grande parte dos pais. Porém, antes desses sinais, especialistas afirmam que é preciso ter uma atenção diferenciada na infância.

É o que afirma a psicóloga e coordenadora da clínica de psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC), Thelma Margarida de Moraes dos Santos.

Segundo ela, a família precisa estar perto ao filho para encaminhá-lo, uma vez que, “quando os sinais aparecem, é que o caso já está agravado”.

Em situações onde o problema já está enraizado, ela afirma que é necessário acompanhamento psicoterápico para tentar entender uma série de questões. “Precisamos entender o motivo de o jovem querer chamar a atenção ou mesmo punir a família”.

Em casos de familiares já envolvidos em problemas, ela descarta que esse “espelho” seja algo determinante. “Depende de como a família e o adolescente lidam com essa questão. Pode ser usado como um exemplo a não ser seguido”, finaliza a psicóloga.