10 de julho de 2026
Política

?A inflação é o maior imposto?, diz um dos criadores do Real

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Douglas Reis

José Milton Dallari, Guaracy Monteiro, Antonio Carlos Amaral e Américo Calan Júnior, diretoria estadual da CDHU

Atuando como diretor administrativo e financeiro da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), José Milton Dallari integrou a equipe econômica que criou o Plano Real, em 1994. Diante do cenário de baixo crescimento econômico associado à alta na inflação, ele teme que, em curto prazo, seja necessária a criação de um novo plano econômico com características semelhantes ao do que foi colocado em prática há 19 anos.

“Vivemos uma situação delicada, de alta nos preços para o consumidor. Eu penso que a inflação é o maior imposto que incide sobre mais pobres e não podemos deixar que este mal volte a assolar o País. Só quem viveu sabe o quanto foi ruim”, explanou em entrevista ao JC, durante encontro estadual da CDHU, realizado ontem em Bauru.

Na tentativa de combater o avanço da inflação, o Banco Central, na semana passada, elevou em 0,5% o juro básico (taxa Selic), que chegou a 8%. A medida, porém, pode ter efetividade apenas em 2014, pois, segundo especialistas, é considerada difícil a tentativa de levar a alta dos preços para o centro da meta de 4,5%.

Nos últimos 12 meses, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou abril a 0,55%, ficando em 12 meses em 6,49%, muito próximo do teto da meta de inflação do governo, de 6,50%, ainda pressionado pelos preços dos alimentos.

De acordo com Dallari, caso as medidas do governo federal não sejam suficientes para controlar a inflação e, simultaneamente, garantir o crescimento da economia, deve ser considerada a necessidade de implantação de um novo plano econômico, aos mesmos moldes do Real. 

Ele lembra que foi responsável pela criação da Unidade Real de Valor (URV), que contribuiu para a mudança de moeda, para a estabilização monetária e econômica, sem medidas de choque como confiscos e congelamentos.

A URV foi um índice que procurou refletir a variação do poder aquisitivo da moeda, servindo apenas como unidade de conta e referência de valores. Teve curso juntamente com o Cruzeiro Real (CR$), até o dia 1º de julho de 1994, quando foi lançada a nova base monetária nacional. “Foi um intenso trabalho de diálogo e negociação com todos os setores produtivos do País para que os resultados fossem obtido”, contou.

Medidas

Apesar do cenário preocupante, Dallari afirma que houve acertos e erros na atual política econômica do governo. Crítico de medidas atuais, ele aponta a elevação da taxa de juros e o investimento pesado em infraestrutura como duas importantes armas contra a inflação. “Era algo que há muito tempo não se via e pode gerar bons frutos caso esses investimentos sejam bem aplicados e as obras executadas de forma adequada”.

Um dos criadores do Plano Real também atribuiu parcela das causas dos problemas econômicos enfrentados atualmente às políticas sociais e de distribuição de rendas feitas pelo governo federal. “A importância dos avanços sociais é inquestionável. Mas alguém tem que pagar a conta e acredito que a sociedade não esteja com a disposição necessária para bancar algo que não é de sua responsabilidade”, finalizou.


CDHU e novas casas

O presidente da CDHU, Antônio Carlos do Amaral, esteve ontem na cidade para conduzir a reunião estadual do órgão, que atraiu dirigentes de todas as regiões. Há muitos anos, o Estado não constrói casas populares em Bauru.

Segundo Amaral, para que a realidade mude, a CDHU precisa ser requisitada pelo município. “É preciso dialogar, negociar. Há casos em que entramos com tudo para construir, inclusive, com o terreno”, pontua.

O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) tem dito que o órgão estadual não tem atuado no município por exigir a compra do terreno da prefeitura, o que inviabiliza a viabilização dos programas.

O presidente da CDHU evitou comentar a polêmica da semana passada, quando o município recusou o auxílio de R$ 20 mil por unidade do programa federal Minha Casa Minha Vida. “Este é um assunto ultrapassado”.

Amaral elogiou a condução da regional de Bauru da CDHU, cujo gerente é Carlos Ladeira. Com a visita do secretário estadual de Habitação, Sílvio Torres, na última semana, foi autorizada a construção de 2 mil unidades na região. A meta da CDHU para o Estado de São Paulo é construir 15 mil imóveis em 2013.

Outro ponto discutido na reunião de ontem foram os índices de inadimplência. O diretor financeiro, José Milton Dallari, aponta que, ao longo de 2012, ele foi reduzido de 28% para 16,5%. A meta é encerrar 2013 em 12%.