08 de julho de 2026
Articulistas

Muito simples...

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Para a maioria das pessoas, pode parecer uma reação muito extravagante: após cinco anos de virtual paralisação do crescimento da maior parte da economia mundial e de 30 milhões de empregos incinerados, o FMI admite que errou nas recomendações das políticas de austeridade como instrumentos para reduzir os efeitos da tragédia. E seus técnicos "austerianos" tropeçaram nas análises sobre as causas da crise financeira porque "houve, de início, alguns erros de interpretação". Simples assim...

Hoje, não há quem duvide que a crise foi obra conjunta da cupidez que tomou conta dos mercados financeiros e da total irresponsabilidade dos governos, que deveriam controlar os seus excessos. Tudo isso olhado com complacência e até entusiasmo pela poderosa burocracia dos organismos internacionais. O conhecimento desses fatos é que sustenta os protestos dos "indignados" que ocupam as praças dos países da "periferia" rica da Comunidade Europeia e agora também dos pátios nobres nas economias mais poderosas do Hemisfério Norte.

Em ambos os lados do Atlântico, esses movimentos estão mostrando um crescimento da descrença na capacidade dos governos em prover solução para os problemas do desemprego e da falta de moradia. Nos Estados Unidos, a revolta da população jovem desempregada cresce na medida em que aumenta a desigualdade. Os dois anos após o início da crise foram de prosperidade para a parcela mais rica dos americanos (21 milhões de pessoas, 7% das famílias), enquanto despencavam a renda e o valor médio do patrimônio dos outros 93% da população. Não é à toa que os cartazes dos jovens "indignados", sem teto, acusam: "Enquanto os ricos continuam ricos, nossa democracia continua pobre", ou "Wall Street recebe bônus e o resto dos Estados Unidos ganha austeridade".

Números de um levantamento recente do Instituto Pew Research, disponíveis na Internet, mostram que alguma reação no nível da atividade não tem sido suficiente para melhorar o quadro trágico do desemprego no país. E, com a entrada em vigor dos cortes nos gastos do governo a partir de março deste ano, aumentou o receio que a economia americana volte a diminuir o ritmo e a desigualdade social aumente ainda mais.

Talvez aqui no Brasil muita gente não se dê conta da indignação que se manifesta de forma violenta nas melhores praças: até na pacata e próspera Frankfurt, o poderoso centro bancário alemão, em Portugal, na França e na Espanha os protestos só estão sendo contidos com fortes barreiras da polícia e muito gás de pimenta nos olhos dos já irritados "sem teto" e sem perspectiva de encontrar trabalho.

Quando se olha de perto o que está acontecendo, não podemos deixar de lembrar a célebre descoberta do velho Hegel na sua "Introdução à Filosofia da História": "O que a experiência e a história nos ensinam é apenas que os povos e os governos nunca aprendem nada com a história ou usaram princípios dela deduzidos".

E, no entanto, é necessário aprender com a história e tirar dela lições que reduzam a probabilidade de novos erros. Essa lição não se circunscreve à necessidade de construção de um sistema monetário e financeiro hígido e estável. Ele precisa ser adequadamente regulado para financiar o sistema produtivo e as inovações que são a base de crescimento da produtividade do trabalho.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC