Sob o título "Escolas e Igrejas" (JC de 31/05/2013, p.2) o "professor, mestrando em filosofia (PUC), Wellington Anselmo Martins, graduado em Filosofia (USC)", depois de um diagnóstico pessoal escreveu sobre o que tem visto no ensino médio, em escolas públicas. Diz ter aprendido "mais sobre como ficar com garotas, como fumar maconha, como é importante andar em grupo por causa das brigas, como ser "esperto": furar fila, colar nos trabalhos e provas, emprestar material da escola e dos colegas e não devolver mais, ser popular entre os amigos de sala por fazer piada com a cara dos professores; aprendi a passar de série faltando mais que o limite etc." E arremata de forma clara e objetiva: "Esses foram os tópicos que, sinceramente, eu aprendi em minha vivência escolar no ensino médio público".
Para contrapor a esse caos educacional desorganizado e malfadado, segundo o professor Wellington, o ensino da Igreja lhe foi um parâmetro exemplar para a sua formação católica, que, através da família que o incentivou mas ao mesmo tempo "quase obrigava, algumas vezes"; frisa bem que "foi nas aulinhas de catequese e também de crisma que aprendi a debater sobre ética, moral, cidadania;..." que "aprendeu a ler!, interpretar e escrever!", sempre centrado na Bíblia como sendo "por si só uma biblioteca riquíssima..". E indaga: "Como pode a educação pública no Brasil ser tão frágil a ponto de uma comunidade religiosa simples ser infinitamente mais rica em formação educativa, cultural e humana?"
Creio que essa formação religiosa em sentido estrito do professor Wellington vai de encontro ou choca - e muito! - com o pensamento dos vanguardeiros do movimento educacional religioso plural, liderados pelos católicos e voltados para a formação daqueles que querem se preparar bem para ministrar aulas em escolas públicas, envolvendo religião e filosofia em virtude de as mesmas recepcionarem alunos das mais variadas formações; e, que, só uma alma liberta das amarras do sectarismo e com uma visão ampla dessa realidade é que será capaz de compreender, respeitar e dar o devido valor dessa imensa interatividade imprescindível na formação da nossa imensa e valorosa argamassa cultural.
Não foi por acaso que o saudoso Dom Lucas Moreira Neves, então Presidente da CNBB e articulista do Jornal O Estadão (O Estado de São Paulo, 30. abril.1997, p. A 17), explicitou bem em sua matéria "Igreja não será confinada a sacristia", de como deveria ser o ensino religioso a ser implantado nas escolas públicas: "Sobre o ensino religioso, a primeira coisa a se colocar é que não se trata de catequese e muito menos de proselitismo católico. Não aceitamos isso. O ensino religioso é a formação da consciência religiosa do adolescente, da criança e do jovem que estão na escola. A falta desse ensino leva à degeneração da convivência social [...]". Nessa mesma linha se encontra o professor da PUC, o grande Teólogo Francisco Catão, que com maestria escreveu a grandiosa obra denominada de A Educação no Mundo Pluralista (Paulinas, 1997).
Finalmente, para mostrar bem as funestas consequências de um ensino religioso inadequado por ser ministrado por aqueles que são formados no proselitismo e não têm uma visão pedagógica mais ampla do ensino da filosofia das religiões, aponto o resultado do trabalho cientifico pautado na "Análise de casos específicos da prática do Ensino Religioso em algumas escolas públicas" segundo o Portal da Educação (2009, p. 71, acesso de 15/10 a 14/11/2009): "Sem levar em conta as diretrizes para a citada área, o que se vê é um proselitismo estarrecedor, em que cada professor de Ensino Religioso tenta passar aos alunos seu credo e sua fé. O que se tem nas salas de aula são professores despreparados, ministrando sob forma de conteúdo seus princípios e valores, como se fossem verdades absolutas, em aulas antagônicas ao que prevê a lei e até a própria sociedade e família. Parece vedada a visão da amplitude da introdução do Ensino Religioso no currículo escolar, como disciplina e área de conhecimento, que deveria apontar para a recuperação da dimensão espiritual da existência, preenchendo o vazio deixado por uma educação com predominância quase exclusiva no racional, no desenvolvimento científico e tecnológico do educando, deixando de lado as razões e as finalidades últimas da existência.
José Quaglio