08 de julho de 2026
Internacional

Polícia volta a entrar na praça turca

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Com bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água, a polícia da Turquia expulsou ontem pela manhã os manifestantes da praça Taksim, em Istambul, num agravamento do confronto que já dura 12 dias com o governo do premiê Recep Tayyip Erdogan.

À noite, porém, após o fim do expediente, dezenas de milhares se reuniram na Taksim e no parque Gezi, vizinho à praça. Os policiais recorreram de novo ao gás e usaram balas de borracha; manifestantes responderam com pedras e bombas incendiárias.

“As pessoas começaram a correr, em pânico, e muitas caíram no chão”, relatou Isil, uma das participantes do protesto, que preferiu não revelar seu sobrenome à reportagem.

Isil disse também que, ainda que se preocupe com a violência, não pretende deixar o parque Gezi: “O governo ainda não cedeu a nossas exigências. Não posso voltar pra casa até que isso aconteça”.

Até a 1h de hoje (19h em Brasília), muitas pessoas tentavam retornar à praça Taksim. A reportagem foi atingida pelos canhões d’água da polícia, junto com os manifestantes.

O governador de Istambul, Huseyin Avni Mutlu, fez um apelo aos manifestantes “pacíficos” para que fiquem longe da praça até que “grupos de marginais” saiam do local. 

Voluntários estimam que, nos confrontos da hoje, ao menos 300 pessoas tenham passado mal com o gás e pelo menos outras 12 tenham sofrido ferimentos na cabeça.

Cerca de 50 médicos trabalham desde o início dos protestos em quatro centros improvisados no parque Gezi, prestando primeiros socorros com material doado pelos manifestantes. “Precisamos fazer tudo por nós mesmos, já que perdemos totalmente a confiança no governo e na polícia para nos proteger”, afirmou a médica Esra Özkan.

Segundo entidades de direitos humanos, quatro pessoas morreram e 5.000 foram feridas ou se intoxicaram desde o início dos protestos, que atingiram quase 80 cidades.

‘Conspiração’

Erdogan acusou ontem os manifestantes de fazer parte de uma “conspiração” contra seu governo. “Eles estão sendo usados por instituições financeiras, pelo lobby da taxa de juros e por grupos de mídia para prejudicar a economia da Turquia e afastar os investidores”, afirmou ele.

Apesar de o governo ter proposto conversar hoje com manifestantes, o premiê manteve o discurso duro: disse que não iria “se ajoelhar nem pedir ‘por favor’” aos ocupantes da praça e prometeu “não só acabar com os distúrbios, mas caçar provocadores e terroristas. Ninguém irá se safar”.

Bebidas

Ontem, o presidente turco, Abdullah Gül, assinou lei que limita a venda de bebidas alcoólicas no país, um dos motivos dos protestos contra o governo Erdogan.


Advogados são detidos após manifestações

Um total de 49 advogados que faziam um protesto em frente a uma corte em Istambul foram detidos por algumas horas pela polícia, informou o jornal turco “Hurriyet”.

Eles eram ligados aos manifestantes que permaneciam no parque Gezi e na praça Taksim, e que foram removidos após ação da polícia.

Eles estavam reunidos em frente à corte para fazer um pronunciamento à imprensa. Era o terceiro evento do tipo que os advogados realizavam no local desde o início das manifestações.

Houve intervenção da polícia, em muitos dos participantes sofreram ferimentos leves, segundo testemunhas.

Segundo o “Hurriyet”, mais de cem advogados foram à delegacia pedir a liberação dos colegas detidos. Todos eles já foram soltos.

“A detenção de advogados em uma corte por meio da força coloca em questão o tipo de ‘regime demodrático’ em que estamos vivendo”, afirmou, em nota, a Ankara Bar Association, uma tradicional associação de magistrados do país.

A agitação afetou a confiança do investidor em um país que tem crescido sob a gestão de Erdogan.